Comportamento humano e evolução cultural

Na introdução do artigo Individual Behavior, Culture and Social Change, Glenn (2004) descreve duas características humanas básicas necessárias para a emergência e evolução de uma cultura: sociabilidade e capacidade de aprendizagem. São pré-requisitos para o terceiro elemento-chave na definição de cultura: transmissão cultural. Nos dois primeiros parágrafos, Glenn (2004) caracteriza os elementos centrais na emergência e evolução de uma cultura.

Comportamento aprendido constitui a infraestrutura das culturas humanas e a transmissão dos comportamentos aprendidos sustenta a evolução de culturas humanas. Comportamentos humanos produzem mudanças cumulativas em ambientes humanos, e mudanças ambientais contínuas exigem adaptações comportamentais contínuas. Adaptações bem-sucedidas podem inserir-se, absorverem-se em práticas culturais e serem transmitidas a gerações futuras. (p.131)

Neste parágrafo, Glenn (2004) mostra como as relações envolvidas na evolução de uma cultura vão se tornando cada vez mais complexas:

Culturas cada vez mais complexas têm emergido da interação entre capacidade humana para aprendizagem, contingências de reforçamento  que explicam comportamentos aprendidos e a transmissão cultural de comportamentos aprendidos –  tudo isso em ambientes locais e contextos formativos com características físicas. Ao longo de um período de pouco mais de 10 mil anos, culturas humanas têm evoluído passando de pequenos grupos de caçadores-coletores, presumivelmente mostrando um ao outro como produzir fogo e fabricar ferramentas simples, a grandes estados-nações, nos quais dezenas de pessoas participam da fabricação de roupas, vendidas como marca X, ou da criação de leis sob as quais vivem milhões de pessoas. Exigem-se agora décadas de educação, formal e informal, para desenvolver e manter repertórios comportamentais necessários para fazer parte da vasta teia de comportamentos humanos inter-relacionados que constituem as culturas modernas.(p. 133)

E no terceiro parágrafo da introdução do artigo, Glenn introduz a discussão sobre a importância do planejamento cultural:

A maior parte das características de culturas modernas não foi planejada. Ao contrário disso, elas simplesmente emergem como resultado de contingências que dão suporte à seleção de comportamentos de indivíduos. Planejamentos sistemáticos parecem começar quando práticas culturais têm resultados, indesejáveis, imprevisíveis, tardiamente reconhecidos com subótimo. Primeiro são identificados resultados não intencionais culturalmente danosos referentes a comportamentos humanos em vigor; a seguir, lamentam-se esses resultados e, às vezes, lida-se com eles. Mas é possível enfrentar esses resultados rápido o suficiente para garantir a sobrevivência? (Glenn, 2004, pp. 133-134)

Referência:

Glenn, S.S. (2004). Individual Behavior, Culture, and social Change. The Behavior Analyst, 27, 2, 133-151.

Comportamento individual, cultura e mudança social

No artigo Individual Behavior, Culture, and Social Change, a professora Sigrid S. Glenn, do Departamento de Análise do Comportamento da Universidade do Norte do Texas, mostra como interações entre comportamentos de pessoas agindo individualmente e entre o comportamento de pessoas agindo em grupo, em um ambiente com características semelhantes, resultam em crescentes complexidades que explicam a origem e evolução das culturas humana. E um artigo primoroso, tanto para analistas do comportamento quanto para pesquisadores de outras áreas interessados em pesquisa e desenvolvimento de tecnologia de intervenção social. Traduzi o resumo do artigo, que pode ser lido aqui. Sugestões de melhorias na tradução do resumo serão bem-vindas. Aqui, pode-se ler o referido texto de Glenn integralmente.

Suponho que a análise de Glenn (2004) não será facilmente compreendida por leitores leigos em termos técnicos da análise do comportamento. Assim, talvez seja útil ler previamente o artigo Comportamento Social, produção agregada e prática cultural: uma análise comportamental de fenômenos sociais, de dois pesquisadores brasileiros que vêm se dedicando, nos últimos anos, ao estudo de cultura sob a perspectiva da análise do comportamento: Angelo Augusto Silva Sampaio e Maria Amalia Pie Abib Andery. O artigo deles pode ser lido aqui.

Será útil ler previamente também  Seleção por Consequências, de B. F. Skinner. Esse texto de Skinner pode ser lido aqui em português e em inglês, aqui.

Referências

Glenn, S. S. (2004). Individual Behavior, Culture, and Social Change. The Behavior Abalyst, 27, 133-151.

Sampaio, A. A. S. & Andery, M. A. P. A. (2010). Comportamento Social, Produção Agregada e Prática Cultural: Uma análise comportamental de Fenômenos sociais. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 26, 183-192.

Skinner, B. F. (1981/2007). Seleção por consequências. Revista Brasileira de Terapia comportamental e Cognitiva, IX, 1, 129-137.

Bandeira sob controle de sua audiência

Leitores de Manuel Bandeira não o reconheceria neste fragmento de sua obra. Note que se trata de uma resenha de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Bandeira se apropria do estilo de linguagem dos personagens centrais da obra para escrever sobre ela, em um claro exemplo de controle pela audiência. E conclui caracterizando o homem de forma admirável, numa cpacidade de sintetizar temas complexos típica de bons poetas:

“Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe: O diabo não há! Existe é o homem humano.”

Manuel Bandeira: Grande Sertão: Veredas

AMIGO MEU, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar! Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo. Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá… Você sabe: a vida é um Itamarati – viver é muito dificultoso. Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques. Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra “vereda” com o significado que você mesmo define à página 74: “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda.” Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: “ciriri dos grilos”, “gugo da juriti” etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é “arga”, “suscenso”, “lugugem” e um desadôro de outras vozes dos gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será? Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que não ficou de fora nenhuma dicção de seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação lingüística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré. Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo. Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. Honni soit qui mal y pense, eu preferia Diadorim homem até o fim. Como você disfarçou bem! nunca que maldei nada. Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão?
O sertão é uma espera enorme.
E o silêncio?
O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo.
Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa’uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que
proseava gentil sobre as sérias imoralidades.
Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe:
O diabo não há! Existe é o homem humano.
Soscrevo. 13/03/1957BANDEIRA, M. “Grande sertão: veredas”. In: Poesia completa e prosa. 2 ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967. p.590-92.

Sobre história e mitos que jornalistas inventam

O artigo The Autism Vaccine Controversy and the Need for Responsible Science Journalism, de Seth Mnookin, me fez lembrar uma discussão de Hobsbawm (1998) sobre a criação de mitos na história.  Hobsbawm afirma: “Eu costumava pensar que a profissão de historiador, ao contrário, digamos, da de físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir danos. Agora sei que pode. Nossos estudos podem se converter em fabricas de bombas, como os seminários nos quais o IRA aprendeu a transformar fertilizante químicos em explosivos. Temos uma responsabilidade pelos fatos históricos em geral e pela crítica do abuso político-ideológico da história em particular… Não podemos inventar nossos fatos. Ou Elvis Presley está morto ou não”. (Hobsbawm, 1998, pp. 17-18).

Embora Hobsbawm se refira ao trabalho de historiadores, seu alerta cabe perfeitamente ao trabalho de jornalistas. Os males que jornalistas podem provocar a seu público-alvo – seja por inépcia ou desonestidade intelectual – podem ser tão importantes quanto os referidos por Hobsbawm. O artigo de Mnookin traz alguns exemplos.

No entanto, alguém conhece algum jornalista impedido de exercer a profissão por demonstrar em seu trabalho inaptidão ou desonestidade intelectual? Aliás, no Brasil, qualquer tentativa de regular minimamente os meios de comunicação de massa é combatida ferozmente como censura.

Temos um problema difícil de ser resolvido. Talvez uma forma de amenizar os efeitos do mau jornalismo seja incluir na grade curricular de ensino fundamental em diante uma disciplina de educação para mídia. Mas isso não resolve o problema central: a falta de consequênciaa explícitas para os delitos da imprensa.

Como o comportamento individual interfere em fenõmenos sociais e vice-versa

O trecho a seguir faz parte do livro Memórias póstumas de Brás Cubas, publicado originalmente em 1880. Vejam que análise requintada e esclarecedora de Machado de Assis, ao tentar demonstrar como comportamentos no nível individual podem afetar a vida do grupo e vice-versa. Acho que li este livro pela primeira vez quando me preparava para fazer vestibular. Claro está agora para mim que eu não dispunha de repertórios suficientes para compreender sofisticadas análise do autor sobre a complexidade da vida em sociedade. E disso que Rubem Alves trata ao afirmar, neste vídeo, que educar é ensinar a ver,  e palavras só têm sentido se nos ajudam a ver melhor o mundo ao redor.

O caso provável

Se esse mundo não fosse uma região de espíritos desatentos, era escusado lembrar ao leitor que eu só afirmo certas leis, quando as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me à admissão da probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitui o presente capítulo, cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo de fenômenos sociais. Segundo parece, e não é improvável, existe entre os fatos da vida pública e os da vida particular uma certa ação recíproca, regular, e talvez periódica, – ou para usar de uma imagem, há alguma coisa semelhante às marés da praia do Flamengo e de outras igualmente  marulhosas. Com efeito, quando a onda investe a praia, alaga-a a muitos palmos a dentro; mas essa mesma água toma ao mar, com variável força, e vai engrossar a onda que há de vir,  e que terá de tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a aplicação.

Deixei dito noutra página que o Lobos Neves, nomeado presidente da província, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era 13; ato grave, cuja consequência foi separar o ministério o marido de Virgília. Assim, o fato particular da ojeriza de um número produziu o fenômeno da dissidência política. Resta ver como, tempos depois, um ato político determinou na vida particular uma cessação de movimento. Não convindo ao método deste livro descrever imediatamente esse outro fenômeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro meses depois de nosso encontro no teatro, reconciliou-se com o ministério; fato que o leitor não deve perder de vista, se quiser penetrar a sutileza do meu pensamento.

***

O trecho está na página 58 de Memórias póstumas, que pode ser lido integralmente aqui.

Como estimular o próprio comportamento de escrever

Julie Vargas trata neste artigo da abordagem comportamental para o ensino de composição/redação. Afirma que a escrita pobre permeia a maioria das produções profissionais e isso se dá por falhas na forma com que composição é ensinada.

Neste texto, Skinner dá dicas de como estimular o comportamento de escrever. Conta como dispunha contingências para fortalecer o próprio comportamento verbal científico. Aqui,  versão em português do texto Skinner,  traduzido por mim,  com o título Como dizer o que você tem a dizer.

E aqui, Steve Aronson trata de estilo na escrita científica.

Boa leitura e bons escritos!

Memórias de uma revolução educacional interrompida

Em 2010, entrevistei os professores Rachel Kerbauy, Isaias Pessotti e João Cláudio Todorov para uma matéria publicada na edição 33 do Boletim Contexto, da Associação Brasileira de Psicologia Comportamental.  Os entrevistados relataram-me a experiências deles no projeto revolucionário, liderado por Carolina Bori, de criação do curso de Psicologia na UNB no início dos anos 1960, portanto, em plena ditadura militar.  Aqui está o texto como publicado no Boletim Contexto 33.

Sobre métodos de pesquisa em análise do comportamento

Compartilho aqui um artigo precioso para quem quiser conhecer a ciência que se intitula Análise do comportamento, sua filosofia e métodos. O artigo é de uma das mais destacadas analistas do comportamento da atualidade, a professora Maria Amalia Pie Abib Andery. Transcrevo a seguir o resumo do artigo e disponho, logo a seguir, link para o texto completo.  Boa leitura!

“Apresenta-se neste artigo a discussão sobre o status da análise do comportamento como disciplina científica, bem como sua relação com outras ciências e as implicações desta discussão para a caracterização dos métodos de pesquisa em análise do comportamento. Várias classificações dos métodos de pesquisa são apresentadas, com destaque para o método experimental, tendo em vista seu papel na construção da disciplina. Os supostos e as principais características dos delineamentos de sujeito único são apresentados. E, por fim, são brevemente discutidas algumas questões que se originam da interação e aparente confronto entre conceituação e prática de pesquisa em análise do comportamento, tais como: reversibilidade comportamental, variabilidade comportamental, procedimentos de tentativa e procedimentos de operante livre, análise molecular e análise molar, tratamento estatístico e quantificação, pesquisa experimental com humanos.” Para ler o artigo completo clique aqui.

Por que nos comportamos em grupo

Ao contrário de classificar o homem como ser político, ser social e com definições desse tipo, Skinner (1953/2003) defende que indivíduos se comportam juntos porque ao fazê-lo aumenta o próprio poder de obter reforços. Embora comportamento seja tipicamente um fenômenos individual, o resultado da ação em grupo normalmente supera efeitos que poderiam ser obtidos por um organismo agindo individualmente. Skinner cita alguns exemplos de comportamento em grupo cujo efeito seria menor ou até impossível no caso do comportamento individual:

O homem que puxa uma corda é reforçado pelo movimento da corda, não importando o fato de que seja necessário que outros estejam ao mesmo tempo puxando a corda.  O homem adornado com uniforme completo, desfilando elegantemente pela rua, é reforçado pelo aplauso da multidão mesmo que não o fosse se estivesse desfilando sozinho. O covarde no bando linchador é reforçado quando sua vítima se contorce de terror diante de suas ameaças – sem importar o fato de que centenas de outros estão, e têm que estar, gritando também. As consequências reforçadoras geradas pelo grupo excedem facilmente os totais de consequências que poderiam ser conseguidas pelos membros se agissem separadamente. O efeito reforçador total é enormemente acrescido. (Skinner, 2003, p.341)

Referência:

Skinner, B. F. (2003). Ciência e Comportamento Humano. São Paulo:  Martins Fontes.

Aqui, o livro original integralmente, em inglês.

Para escrever melhor

Este texto de Adorno é primoroso. Dei-me ao trabalho de copiá-lo e transcrevê-lo aqui porque acredito que as questões apontadas por Adorno são atuais e deveriam orientar qualquer trabalho de escrita técnico-científica.

Theodor W. Adorno (1903-1969) em Minima Moralia – reflexões a partir da vida danificada (Editora Ática), fragmento 51 (tradução de Luiz Eduardo Bicca).

Atrás do espelho. – A primeira medida de precaução do escritor: verificar em cada texto, cada fragmento, cada parágrafo, se o tema central sobressai com nitidez. Quem quer expressar alguma coisa está de tal modo tocado por isso, que se deixa levar sem refletir. A pessoa está próxima demais de sua intenção, “perdida em seus pensamentos”, e esquece-se de dizer o que ela quer dizer.

Nenhuma correção é demasiado pequena ou insignificante para que não se deva realizá-la. Em cem alterações, cada uma pode aparecer isoladamente como tola e pedante; juntas podem constituir um novo nível do texto.

Nunca se deve ser mesquinho nos cortes. A extensão não tem importância, e o medo de não haver aí o bastante é pueril. Não se deve achar que algo mereça existir só porque já está aí, porque foi escrito. Se várias frases parecem variações do mesmo pensamento, com freqüência designam apenas diferentes abordagens para aprender algo que o autor ainda não dominou. Deve-se então escolher a melhor formulação e continuar a elaborá-la. Faz parte da técnica de escrever ser capaz de renunciar a até mesmo a pensamentos fecundos, se a construção o exigir. Sua plenitude e sua força beneficiam-se precisamente dos pensamentos reprimidos. Como à mesa, não se deve comer até os últimos bocados, nem beber até o fim. Do contrário, nós nos tornamos suspeitos de pobreza.

Quem quiser evitar clichês não deve limitar-se às palavras, sob pena de incorrer em coquetismo vulgar. A grande prosa francesa do século XIX era particularmente sensível a isso. Uma palavra isolada é raramente banal: na música também, o som isolado resiste ao desgaste. Os clichês mais abomináveis são muito mais associações de palavras do tipo das que foram pinçadas por Karl Kraus: “Completa e inteiramente”, “para a vida e para a morte”, “desenvolvido e aprofundado”. Pois nelas murmura, por assim dizer, o fluxo indolente de uma linguagem insípida, ao invés de o escrito, pela precisão de expressão, oferecer as resistências que são exigidas quando a linguagem deve pôr-se em evidência.  Mas isso é válido não somente para as associações de palavras, porém até mesmo para a construção de formas inteiras. Se, por exemplo, um dialético pretendesse caracteriza a inversão do pensamento em movimento, começando em cada censura com um “mas”, o esquema literário infligiria um desmentido à intenção não-esquemática de sua reflexão.

O cipoal não é nenhum bosque sagrado. É um dever resolver as dificuldades que provêm pura e simplesmente da comodidade da auto-compreensão. Não é fácil distinguir sem maiores considerações entre a vontade de escrever de maneira densa e adequada à profundidade do objeto, a tentação de ser incomum e o desmazelo pretensioso: uma insistência demasiada é sempre salutar. Precisamente quem não quer fazer concessão alguma à estupidez do senso comum, tem que se precaver para não enfeitar estilisticamente pensamentos em si mesmos banais. As trivialidades de Locke não justificam o criptologismo de Hamman.

Se temos objeções, por menores que sejam elas, a um trabalho concluído – pouco importa sua extensão – é um dever tratá-las com muita seriedade, fora de qualquer relação com a relevância com que se anunciam. O envolvimento afetivo com o texto e a vaidade tendem a diminuir a escrupulosidade. O que se deixa passar apenas como uma dúvida insignificante pode tornar manifesta a falta de valor objetivo do todo.

A procissão dos salteadores de Echternach* não é a marcha do Espírito Universal; a limitação e a retirada não são meios de exposição da dialética. Esta move-se muito mais pelos extremos; impelindo o pensamento, de maneira mais conseqüente, a uma inversão, ao invés de  qualificá-lo. A circunspecção que proíbe de se ousar ir longe demais numa frase é, na maioria das vezes, apenas um agente de controle social e, como tal, de estupidificação.

Cepticismo contra a objeção predileta de que um texto, uma formulação, seria “bela demais”. O respeito pelo assunto ou mesmo pelo sofrimento racionaliza com facilidade o rancor apenas em relação a quem não consegue suportar, na forma reificada da linguagem, os vestígios do que sucede às pessoas: a degradação. O sonho de uma existência sem ignomínia, ao qual a paixão pela linguagem se apega quando já não se pode mais representá-lo enquanto conteúdo, deve ser estrangulado com pérfida alegria.  O escritor não pode aceitar a distinção entre a expressão bela e a expressão adequada ao assunto. Ele não deve aceitá-la no crítico cauteloso, nem tolerá-la em si próprio. Se consegue dizer inteiramente o que pretende dizer, então é belo o que diz. A beleza de expressão por si mesma não é de forma alguma algo “belo demais”, mas sim ornamental, comercial, feio. Quem todavia, sob o pretexto de servir com abnegação a uma causa, negligencia a pureza da expressão, está por isso mesmo traindo a própria causa.

Os textos bem elaborados são como teias de aranha: densos, concêntricos, transparentes, bem estruturados e sólidos. Eles atraem para dentro tudo o que voa e rasteja. As metáforas que os atravessam apressadas e descuidadas, tornam-se para eles presas nutritivas. Os materiais afluem facilmente para eles. A plausibilidade de uma concepção pode ser julgada vendo se ela evoca citando outras citações. Tendo descerrado uma célula da realidade, é necessário que o pensamento penetre sem violência do sujeito a câmara seguinte. Ele confirma sua relação com o objeto tão logo outros se cristalizem a seu redor. Na luz que ele irradia sobre o seu objeto determinado outros começam a cintilar.

O escritor instale-se em seu texto como em sua casa. Assim como instaura a desordem com papéis, livros, lápis, documentos, que leva de um quarto para outro, assim também comporta-se em seus pensamentos. Estes são para ele como móveis nos quais se acomoda, sente-se bem ou se irrita. Ele acaricia-os afetuosamente, usa-os, desarruma-os, organiza-os de outro modo, arruína-os. Para quem não tem mais pátria, é bem possível que o escrever se torne sua morada. Aí ele também produz inevitavelmente, como outrora a família, detrito e refugos.  Mas ele não tem mais um quarto de depósito e em geral não é fácil separar-se dos trastes. Ele arrasta-os consigo então consigo, correndo o risco de, no final, preencher suas páginas com eles. A exigência de ser duro em relação à autocomiseração inclui a exigência técnica de contrapor uma extrema vigilância ao relaxamento da tensão intelectual e de eliminar tudo o que se sedimenta como escória do trabalho, tudo o que funciona de maneira improdutiva, tudo o que, numa etapa anterior, enquanto conversa fiada, talvez tenha provocado uma atmosfera calorosa, conveniente a seu desenvolvimento, mas que no presente não passa de um resíduo insípido e com odor de mofo. No fim das contas, nem sequer é permitido ao escritor habitar o ato de escrever.

* Echternach é uma pequena cidade no Luxemburgo, onde anualmente se realiza a procissão dos saltadores, na qual os participantes caminham dando três passas à frente e um para trás. (N. do T.).

Com Ciência traz edição especial sobre C&T na China

A Com Ciência, publicação especializada em jornalismo científico, acaba de colocar no ar edição especial sobre a China. Trata de indicadores chineses de C&T, educação para ciência, comunicação da ciência, entre outros temas do gênero. Vale a pena a leitura. Clique aqui.

Sobre a influência do Go em estratégias política, militar e de negócios

Boa entrevista de Fernando Aguilar sobre Go, jogo de estratégia milenar chinês praticado amplamente na China, Coreia e Japão. Aguilar mostra como as estratégias do Go influenciam o mundo político, militar, diplomático e nos negócios.

Veja aqui a entrevista completa.

Sobre a razoabilidade, segundo Yutang

Sede razoável

Lin Yutang

Em contrate com a lógica, existe o senso comum ou, melhor, o espírito do razoável. Creio que o espírito do razoável é o ideal mais alto da cultura humana, e o homem razoável o tipo mais alto do ser humano culto. Ninguém pode ser perfeito; só se pode tender a constituir um ser agradável, razoável. Na verdade, espero um dia em que a gente do mundo esteja imbuída desse espírito razoável, tanto nos seus assuntos individuais como nos nacionais. As nações razoáveis vivem em paz, e os casais razoáveis vivem felizes. Na seleção de maridos para as minhas filhas, só terei um padrão: é um homem razoável. Não podemos imaginar maridos e esposa perfeitos, que jamais disputem; só podemos imaginar marido e esposa razoáveis, que disputem razoavelmente e se reconciliem razoavelmente.

Yutang, L. (1950). A importância de viver. São Paulo: Editora Globo, p. 375 (obra traduzida por  Mario Quintana)

Contribuições da análise do comportamento para o estudo do comportamento científico

O texto que apresento a seguir é um esboço de um artigo inacabado, feito como parte dos requisitos para a conclusão da nossa primeira disciplina obrigatória do doutorado. A disciplina se chama Questões Avançadas em Análise do comportamento e foi ministrada pela professora Maria Amalia Andery no 1º semestre de 2009.

Mesmo o texto estando incompleto, espero que seja útil para quem se dedica ao tema.

 

Maria de Lima Wang

 

Duas características principais parecem sobressair-se na análise que Skinner (1957) apresenta sobre comportamento verbal lógico e científico (Verbal Behavior, capítulo 18, pp. 418-431): Skinner salienta, ao longo do capítulo, o rigor no controle por estímulos antecedentes, e a ação prática do comportamento. O autor inicia a análise diferenciando comportamento literário, amplamente discutido em Verbal Behavior, de outros comportamentos que dizem respeito a ações práticas do ouvinte. Sugere que a diferença básica entre o comportamento do cientista e o do escritor de literatura, diz respeito a aspectos relativos ao controle de estímulo e a consequências práticas. Quer dizer: enquanto no comportamento científico a comunidade tende a reforçar a precisão do controle de estímulo, porque disso depende a ação prática de outros integrantes dessa comunidade, no comportamento literário não há limite para a fantasia e a ficção, visto que esse comportamento não tem fins práticos.

Diferentemente do comportamento do cientista, “o comportamento do escritor não é verificado em seu meio imediato”, afirma Skinner (p.418). Não há limite imposto pela comunidade para a “as conseqüenciais especiais que podem afetar o controle de estímulo“ (descritas no capítulo 6 de Verbal Behavior), assim como a múltipla causalidade do comportamento (analisada de forma particular na terceira parte do livro). “Mas muitos comportamentos verbais”, afirma Skinner, “dizem respeito a ação prática” (Skinner, 1957, p.418). É o caso do comportamento científico, conforme o autor.

O referido capítulo foi separado em duas partes principais. Na primeira parte – Refinando o controle de estímulo – Skinner descreve algumas medidas adotadas pela comunidade para assegurar o controle de estímulo, tanto no caso de estímulos não verbais quanto estímulos verbais. Na segunda parte, analisa procedimentos empregados para a construção de novas respostas verbais.

Exemplificam as medidas para estimular o controle de estímulo, segundo Skinner, a criação de sistemas classificatórios, restrições ao uso de intraverbais, e adoção de autoclíticos “com os quais o falante representa a natureza do controle de seu comportamento”, seja com relação a estímulos antecedentes ou a cadeias intraverbais. A comunidade verbal científica impõe-se como audiência especial dentro da comunidade verbal mais ampla. Esse subgrupo verbal indica o repertório a ser empregado por seus integrantes e caracteriza um “universo de discurso” que compreende uma subdivisão do repertório a ser empregada, no qual termos apropriados a outras audiências geralmente não são reforçado (Skinner, 1957, p.420). Para Skinner, as conseqüências dispostas pela comunidade buscam prevenir exagero ou relatos truncado, má representação, mentira, ficção, entre outras falhas no controle de estímulo.

Ao introduzir o tópico Construindo novo comportamento verbal, Skinner afirma que a comunidade lógica e científica “acumulou lentamente um conjunto de técnicas para a construção de comportamento verbal eficaz. O falante move-se de um conjunto de respostas para outro conjunto, possivelmente mais útil” (p. 422). O processo envolve a manipulação e confirmação de respostas verbais; pesquisa e metodologia científica; avaliação da resposta verbal. O cientista manipula a própria resposta verbal, segundo Skinner, pela substituição de termos, em um processo semelhante à correção, descrita no capítulo 15 de Verbal Behavior, e pelo uso de autoclíticos específicos. Skinner esclarece o processo nesta passagem:

Para restringir a si mesmo a termos pertencentes a um universo limitado de discurso ou empregar um conjunto particular de axiomas, por exemplo, o lógico e o cientista comumente estabelece uma lista de resposta na forma escrita. Seu comportamento verbal subsequente será reforçado por ele mesmo ou por outros apenas se as respostas que emitir puderem ser emitidas como respostas textuais a estímulos daquela lista. (Skinner, 1957, p. 423).

 A construção de nova resposta verbal, segundo Skinner, compreende a emissão de uma resposta que é aparentemente tato ou intraverbal, para a qual parecem faltar estímulos complementares, que aumentem sua probabilidade e força. Como exemplo de confirmação da resposta, se um médico suspeita que seu paciente está com determinada doença, exames de laboratório podem confirmar suas suspeitas, e o profissional passa  “de  um conjunto de respostas para outro conjunto mais útil”.

 Depois de construída nova resposta verbal, esse comportamento, diz Skinner, muitas vezes precisa ser confirmado, em um processo que não se limita a resposta verbal, como esclarece o autor com a seguinte definição: “Confirmamos qualquer resposta verbal quando geramos variáveis adicionais para aumentar sua probabilidade” (Skinner, 1957, p.425). Segundo Skinner, em geral confirma-se a resposta procurando variáveis que controla forma semelhante da resposta em outros tipos de operantes. Se alguém, exemplifica Skinner, julga ter visto um telescópio, a resposta fraca penso que é um telescópio pode ser substituída por uma resposta forte sei que é um telescópio. Pode-se dizer o mesmo no caso do exemplo do médico, apresentado anteriormente. Novas respostas verbais podem ser confirmadas tanto como tato quanto como intraverbal.

Na comunidade científica, investigar determinados fenômenos conforme os cânones da área é o modo usado por excelência para a construção de novas respostas verbais. Skinner afirma que a ciência empírica apenas dedica-se em parte à construção e confirmação do comportamento verbal. De forma ampla, compreende “um conjunto de práticas que produzem comportamentos úteis” (Skinner, 1957, p. 427). O autor cita o uso de instrumentos pelos quais o cientista amplia o contato com a natureza. Para o autor, grande parte do comportamento científico é verbal, sendo que uma parte desse comportamento é construída conforme processo descrito anteriormente.

Confirmada a nova resposta, o produto do comportamento verbal do cientista é então avaliado pela comunidade. Aqui novamente Skinner enfatiza a orientação prática do comportamento ao afirmar: “Uma parte importante da prática científica é avaliar a probabilidade de que uma resposta verbal seja ‘certa’ ou ‘verdadeira’ – que se possa agir sobre ela de forma bem-sucedida”, afirma Skinner, 1957, p.428, lembrando que nem toda resposta construída é completamente confirmada. Skinner volta a salientar a noção de que o comportamento verbal é dirigido para ações práticas ao introduzir a discussão sobre metodologia científica. Segundo o autor:

O comportamento verbal lógico e científico difere do comportamento verbal do leigo (e particularmente do comportamento literário) por causa da ênfase nas consequências práticas… O teste de predição científica é, frequentemente, como a palavra indica, uma confirmação verbal. Mas o comportamento do lógico e do cientista leva, em fim, a uma ação não verbal eficaz, e é aqui que precisamos encontrar as últimas contingências de reforço que mantêm a comunidade verbal lógica e científica (Skinner, 1957, p.429).

Skinner (1957) parece supor que os processos envolvidos na manipulação, construção, confirmação e validade de novas respostas verbais sejam capazes de fazer com que o comportamento do cientista: (1) acabe por ficar sob controle rigoroso de estímulo; 2) seja dirigido a ações práticas. É como se descrevesse a comunidade científica “ideal”, que poderia se estabelecer, conforme características descritas pelo autor, se fossem estabelecidas contingências de reforçamento adequadas. Essa suposição baseia-se na forma como ele termina o capítulo: afirma que a comunidade científica tem de levar em conta a natureza do comportamento verbal. Considera, por fim, que “uma das últimas realizações de uma ciência do comportamento verbal poderá ser uma lógica empírica, ou uma epistemologia científica descritiva e analítica, cujos termos e práticas serão adaptados ao comportamento humano como próprio objeto em questão” (Skinner, 1957, p. 431). 

Algumas contribuições para a análise de Skinner (1957) sobre comportamento científico – Ao analisar o referido capítulo de Skinner, Schnaitter (1980) considerou que a discussão sintetizada anteriormente, proposta por Skinner em 1957, foi “apenas o início” do que deveria ser uma análise mais precisa sobre comportamento científico. Em sua proposta de contribuição com a análise inicial de Skinner, Schnaitter propõe uma distinção entre: (1) o cientista como experimentador e observador; (2) o cientista como teórico.

Baseando-se na definição de conhecimento proposta por Skinner (1953 e 1974) – segundo a qual conhecer é ser capaz de se comportar de forma adequada conforme o contexto – Schnaitter afirma que a epistemologia da ciência consiste em analisar o estabelecimento e o funcionamento de repertórios comportamentais do cientista, considerando suas múltiplas funções destacadas anteriormente em 1 e 2. O repertório científico, afirma o autor, embora não seja inteiramente lingüístico, é controlado, em grande parte, por contingências verbais (Schnaitter, 1980, p.154). Esse é um ponto importante de sua análise. Contingências verbais, no âmbito científico, exprimem-se por meio de definições, equações, princípios, metodologias científicas e outros estímulos antecedentes que se estabeleceram na comunidade por suas ações práticas, ou seja, em controlar o comportamento do cientista de forma que aumente sua probabilidade de reforço (Skinner, 1957; Schnaitter, 1980).

Schnaitter assume que, como experimentador, o cientista busca aumentar o controle experimental sob o qual estuda seu objeto. Controlar o próprio objeto de estudo pode ser uma conseqüência importante para manter o comportamento do pesquisador. Nesse sentido, Schnaitter baseia-se no próprio Skinner (1961) que afirmou ”controle suas condições e verá ordem” (Skinner, 1961, p.80). Schnaitter cita também trechos de uma resenha de Ferster (1978), que contraporiam a noção de que a comunidade científica é voltada para ações práticas. Nessa resenha, Ferster afirma que “muitos dos trabalhos iniciais em várias áreas de esquema de reforçamento eram divertimento” [playful], no sentido de que o comportamento do experimentador era mantido e modelado pela interação com o fenômeno que emergia no experimento. “As descobertas eram de valor não prático, e muito dos fenômenos que emergiram eram criações de laboratório que nunca existiram antes na natureza” (Ferster, 1978, p.349).

Para Schnaitter, o desenvolvimento do controle eficaz de dado objeto de estudo pode vir acompanhado pelo desenvolvimento de um conjunto de regras que descrevam os comportamentos que o pesquisador terá de se engajar para obter tal controle. Ele cita manuais clássicos de metodologia de pesquisa comportamental como Tactics of Scientific Research (Sidman, 1960)[1] e Handbook of research methods in applied Behavior Analysis (Bailey,1977)[2].

Schnaitter nota que as contingências que atuam no laboratório experimental podem modelar “tecnicismos” sem a necessidade de desenvolvimento de repertório teórico. Essas contingências são diferentes daquelas que modelam o comportamento do teórico que está longe do laboratório, em um “reino puramente verbal” (p.156). Lembra que na psicologia – e talvez em outras áreas –  ambas as funções podem ser desempenhadas pela mesma pessoa. Schnaitter cita os trabalhos do próprio Skinner como exemplo. Lembra que os trabalhos produzidos por Skinner depois de meados de 1930 foram principalmente reflexivos, ao passo que o comportamento verbal de Skinner foi modelado de forma marcante pela leitura de obras de autores como Sherrington, Magnus, Pavlov, e pelo contato direto com William Cozier, em Harvard (Schnaitter, 1980, p.156).

A contribuição de Schnaitter para análise inicial proposta por Skinner (1957) sobre o comportamento científico foi sintetizada pelo autor da seguinte forma:

Como experimentador, o cientista desenvolve um repertório consistindo naqueles tipos de respostas manipuláveis que têm efeito direto sobre o objeto de estudo. No laboratório operante isso consiste em programar contingências de reforço, lidar com organismo experimental, com o registro preciso de dados, e com a manipulação de variáveis experimentais, de forma que efeitos pretendidos sejam produzidos. Esses comportamentos são reforçados por seus efeitos sobre os dados… O comportamento verbal desenvolvido em função desse processo descreve os procedimentos pelos quais alguém pode engajar-se para produzir controle experimental sobre o objeto em questão. O repertório do teórico, por outro lado, é um conjunto de resposta manipuláveis diretas, não sobre o objeto natural de interesse da ciência, mas sobre o registro verbal de tal objeto, o dado. As consequências reforçadoras para essa forma de comportamento novamente é obter ordem nos dados, mas é ordem de um tipo diferente da que reforça o comportamento do experimentador. Enquanto o experimentador está interessado em encontrar ordem por meio de manipulação de variáveis causais, o teórico encontra ordem por meio da manipulação de material verbal (Schnaitter, 1980, pp. 159-160).

 A análise proposta por Skinner (1957) e Schnaitter (1980) foi ampliada por Johnston e Pennypacker (1993), que consideraram o trabalho de Schnaitter esclarecedor (p. 161). No capítulo Logic, reasoning and verbal behavior (Reading for strategies and tactics of behavioral research), Johnston e Pennypacker analisam componentes da chamada lógica aristotélica ou lógica formal (proposição, premissa, raciocínio dedutivo e indutivo) conforme a perspectiva da análise do comportamento. A discussão de Johnston e Pennypacker sobre o tema pode ser sintetizada como segue: é possível afirmar como eficaz o comportamento que produz conseqüências reforçadoras e, ineficaz o comportamento que não produz consequências desse tipo. A emissão de proposições pode ser eficaz ou ineficaz com base nas conseqüuncias que produzir: será reforçada quando ou ouvinte aceitar o enunciado ou acreditar nele.  Logo, a emissão de um enunciado pode ser eficiente ou ineficiente independentemente de sua correspondência com certos fenômenos ou independentemente de sua veracidade. Análise semelhante pode ser feita sobre o raciocínio indutivo e dedutivo, que indica as regras segundo as quais o comportamento terá maior probabilidade de ser aceito e ser reforçado pelo ouvinte. (Johnston e Pennypacker, 1993,  pp. 171-172.

Johnston e Pennypacker descrevem as contingências que fazem com certas preposições sejam tipicamente reforçadas. Notam que algumas proposições podem aumentar a probabilidade de aceitabilidade do ouvinte quando acompanhadas de outras, como é o caso das premissas. Considera-se, portanto, que o ouvinte tenha alta probabilidade de aceitar uma premissa seguida de uma conclusão do que conclusão que não seja baseada em premissas (premissas podem ser emitidas na forma vocal e escrita). O produto do comportamento, seja vocal ou escrito, pode estabelecer a ocasião para uma nova proposição ser emitida. De forma semelhante, o raciocínio verbal envolve alterar a probabilidade de que uma conclusão seja aceita ou emitida por meio da manipulação de premissas.

Para Johnston e Pennypacker, é possível que uma análise experimental do comportamento verbal envolvendo padrões da lógica e do raciocínio descubram relações funcionais que irá fortalecer a eficiência de alguém com respeito ao ambiente reforçador (p.172). Os autores concluem o capítulo com algumas questões as quais consideram que a ciência do comportamento terá de lidar:

Como a lógica desenvolveu-se no repertório humano? Como proposições se desenvolveram e ou emergiram de simples tatos e intraverbais? Que fatores controlam a aceitação de premissas de um discurso lógico? Quão bem regras de inferência dedutiva descrevem os efeitos comportamentais do raciocínio lógico? Quais são as variáveis que afetam a aceitação (ou emissão) de conclusões indutivas? (Johnston e Pennypacker, 1993, p. 172)

A exemplo Johnston e Pennypacker (1993), Moore (2008) analisou o termo explicação de acordo com a perspectiva behaviorista radical. Moore baseia-se na suposição de que explicar, assim como outros comportamentos correlatos, como teorizar, descrever e interpretar, é comportar-se verbalmente. Comportamento verbal é comportamento operante. Logo, comportamentos referidos como explicar devem ser analisados conforme as contingências de reforço da comunidade, que instalam e mantêm esses comportamentos.

Moore ressalta que para o behaviorismo radical, explicações são formas de comportamento verbal produzidas por relações funcionais entre o comportamento e variáveis ambientes. Nota, porém, que não há um consenso sobre o uso do termo na psicologia, de forma que é possível que muitas vezes o termo seja empregado sem que seja baseada numa relação causal. O uso do termo com diferente significado do que é adotado pelos bahevioristas pode ser exemplificados pelos casos em que a suposta explicação é focada em agentes ou forças internas que estão em outra dimensão do fenômeno em questão. Nessa situação, torna-se impossíveluma análise funcional.

Embora na análise do comportamento explicar signifique estabelecer uma relação causal, restaria saber se as conseqüências liberadas pela comunidade verbal, responsáveis por manter o comportamento de explicar, dependeria ou não rigorosamente do uso apropriado do termo. Se um cientista produz uma pesquisa e afirma que A explica B, é possível que muitas das consequências importantes para a manutenção de seu comportamento sejam liberadas pela comunidade científica antes que outros pesquisadores possam confirmar e validar a descoberta relatada.  O trabalho de Guerin (1992)  é ilustrativo a esse respeito.

Em sua análise comportamental sobre a construção social do comportamento, Guerin (1992) afirma que o conceito de relato preciso pode variar conforme a comunidade verbal. Por analogia, talvez seja possível dizer que o mesmo pode ocorrer com o conceito de explicação dentro do universo da psicologia e talvez até dentro da comunidade behavioristas. Guerin recorre ao conceito de comportamento verbal, comportamento que é reforçado pela mediação de outras pessoas (Skinner, 1957, p. 14), e enfatiza que comportamento verbal não pode ser eficaz sem a participação do outro. O autor cita três condições segundo as quais o conhecimento construído socialmente pode liberar-se do controle ambiental antecedente: (1) se a emissão de tato for controlada por grupos que não reforçam, necessariamente, relatos precisos do ambiente; (2) se intraverbais forem reforçado pelo grupo como se fossem memórias de tatos prévios; c) se consequências generalizadas se tornarem generalizadas demais e mantiverem tatos de forma não discriminada (Guerin, 1992, p.1423-1427).

Considerações finais – É possível que mesmo dentro da comunidade científica que se intitule bahaviorista haja, em alguma medida, diferentes critérios para reforçar comportamentos verbais que se apresentem como explicação para certos fenômenos. Ou, dito de outra forma, ainda baseando-se na discussão de Guerin, sempre pode haver alguém dentro da comunidade que reforce o comportamento verbal conforme as condições 1, 2 3 mencionadas anteriormente. Porque, como o próprio Skinner afirma, “o controle de estímulo nunca é perfeito. É provável que o comportamento verbal nunca seja completamente independente da condição de um falante em particular” (Skinner, 1957, p.147).

Se em 1957 Skinner pareceu excessivamente confiante no sucesso da comunidade científica em manter seus integrantes sob controle rigoroso de estímulo, e voltados para ações práticas finais não verbais, em (1988) o autor parece mais cauteloso, conforme se pode inferir da presente passagem: Segundo Skinner, 1988:

Comportamento científico é possivelmente o mais complexo dos objetos já submetidos à análise científica, e continuamos longe de uma explicação [account of] para ele. Por que o cientista examina e explora um dado objeto? Que taxa de descoberta irá manter seu comportamento? Que comportamentos pré-correntes melhoram suas chances de sucesso e expandem a adequabilidade e o escopo de suas descrições? Que passos ele dá ao mover-se de um protocolo para uma afirmação geral? Essas são questões difíceis e existem muitas outras como essas. O cientista está sob controle de contingências de reforçamento muito complexas. (Skinner, 1988, pp. 102-103).

Para concluir, se é da natureza do comportamento operante, e do comportamento verbal de forma particular, ser afetado por múltiplas variáveis que podem interagir entre si na determinação do comportamento (Skinner, 1953), qualquer epistemologia da ciência deveria levar conta essa característica básica do comportamento.  Sem levar essa característica em conta os esforços para a compreensão do comportamento do cientista, esteja ele trabalhando ou fora do laboratório, serão infrutíferos. Ao longo dos anos, a análise do comportamento acumulou um conjunto de fatos que podem oferecer importante contribuição para a compreensão das contingências que mantém o comportamento científico. No entanto, parece estar-se, ainda, distante da construção de “uma lógica empírica”, conforme Skinner (1957) vislumbrou.

Avanços recentes da análise do comportamento na compreensão de fenômenos sociais complexos (ver Glenn 1986; 1989; Glenn & Malott 2004; Malott & Glenn, 2006) podem oferecer importantes contribuições para o estudo do comportamento científico e contribuir com o planejamento e a execução de contingências que façam com que a comunidade verbal científica possa desenvolver sistemas melhores do que os empregados até hoje para uma epistemologia da ciência, e possam orientar a comunidade científica de fato para ações práticas não verbais (Skinner, 1957), de forma que o conhecimento possa ir além da cultura do paper.

REFERÊNCIAS

Ferster, C. B. (1978). Is operant conditioning getting bored with behavior? A review of Honig and Staddon’s Handbook of Operant Behavior. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 28, 171-179.

 

Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 6, 2-8.

 

Glenn, S. S. (1989). Verbal behavior and cultural practices. Behavior Analysis and Social Action, 7, 10-14.

 

Glenn, S. S., & Malott, M. E. (2004). Complexity and Selection: Implications for Organizational Change. Behavior and Social Issues, 13, 89-106.

 

Malott, M. E., & Glenn, S. S. (2006). Targets of Intervention in Cultural and Behavioral Change. Behavior and Social Issues, 15, 31-56.

 

GUERIN, B. (1992). Behavior Analysis and Social Construction of Knowledge. American Psychologist, 47, n.11, pp. 1423-1432.

 

Johnston, J. M. & Pennypacker, H. S. (1993). Logic, reasoning, and verbal behavior. In:Readings for Strategies and Tactics of Behavioral Research. Hillsdale, N.Y, pp. 161-172.

 

Moore, J. (2008). Scientific Verbal Behavior: Explanations. In: Moore, J. (2008). Conceptual foundation of radical behaviorism.Cornwall-on-Hudson,NY: Sloan Publising, pp.289-312.

 

Schnaitter, R. (1980). Science and verbal behavior. Behaviorism, 2, 153-160.

 

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e Comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes (obra publicada originalmente em 1953).

 

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior.New York: Appleton-Century-Crofts.

 

Skinner, B. F. (1961). Cumulative Record.New York: Appleton-Century-Crofts.

 

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism.New York: Alfred A. Knopf.

 

Skinner, B. F. (1988). Are theories of learning necessary? In:Catania, C. (1988).The selection of behavior:  The operant behaviorism of B. F. Skinner: Coments and consequences.Cambridge:CambridgeUniversity Press, pp. 87-105.

 

 


[1] Sidman, M. (1960). Tactics of scientific research. New York: Basic Books

[2] Bailey, J. (1977). Handbook of research methods in applied behavior analysis. Tallahassee: Florida State University.

 

Sobre o comportamento verbal

Indico aqui três textos básicos preciosos sobre a proposta de estudar linguagem como comportamento verbal, apresentada por B. F. Skinner originalmente em 1957.

Comportamento verbal, de Maria Amalia Andery e Tereza Sério.

Comportamento verbal e controle do comportamento humano, de Maria Amalia Andery e Tereza Sério.

O ouvinte, de B. F. Skinner

Voz e estilo na escritacientífica

Trecho do livro A Field Guide for Science Writers, publicado pela National Association of Science Writers, sobre voz e estilo na escrita científica. Voice_and_style

Memória e talento

Memórias

 Rachel de Queiroz

 No sertão, memória significa talento. É como fala o contador:

 Não homem como o rei,

Nem mulher como a rainha,

Nem santo como meu Deus,

Nem memória como a minha…

Quer dizer, não há também poeta igual a ele, com tanta memória, inspiração e verve. E a gente fica pensando se o talento não será memória mesmo, ou pelo menos fica a calcular quanto a memória não ajuda a empurrar o carro do talento. Explico-me: no complexo de elementos que constituem o talento literário, quanto haverá de simples recordação, e como é pequena a contribuição inventiva.

Até no modo de falar – nós todos, que temos de falar gracioso porque esse é o nosso meio de vida, que temos de dizer de modo gentil o que os outros pensam mal ou dizem mal (e é isso o estilo) quanto haverá de originalidade no nosso estilo, ou simples repetição nas fórmulas que supomos inventar? Talvez o talento seja, em verdade, apenas a faculdade inconsciente de escolher entre a sucata que a memória armazenou. Ou, pior ainda, talvez o talento seja exclusivamente a memória, mais nada. Uma memória mais discriminativa que as outras, uma memória com bom gosto.

Aliás é ponto pacífico a incapacidade de que padece o homem de conceber de conceber coisas fora de sua experiência. Essa incapacidade se mostra principalmente quando se procura atingir o fantástico, o futuro, o irreal, e não se pode fugir a combinações de formas conhecidas, e quantidades conhecidas. Os autores desses filmes de science-fiction que agora estão em moda, jamais conseguem sair dos caminhos trilhados pela natureza, ou por Deus Nosso Senhor, conforme se queira dizer. Eles apelam para marcianos e venusianos e selenitas, fazem anões, homúnculos, homens-aves, homens-peixe, homens-fera, homens-vegetais, mas são todos incapazes de imaginar um ser qualquer que não tenha forma antes inventada pela natureza. O melhor que se conseguem é uma cruza mais ou menos repulsiva de polvo com passarinho, ou um inseto pensante, ou um repolho inteligente – e nem Freud, nem Cristóvão Colombo, como dizia minha irmãzinha quando era menor, seriam capazes de fugir à batida rotina do já existente.

Isso tudo me ocorre a propósito de certa carta de um rapaz de província, muito jovem e inteligente, na qual me pede para lhe dizer o que é que “faz” o romancista. Eu deveria começar a lhe responder explicando que não sou propriamente uma romancista e, assim, não me sinto qualificada opinar. Ainda outro dia, num jornal de São Paulo, numa crítica que me pareceu muito lúcida e justa (e à qual sou bastante grata, pois a gente gosta de ser inteligentemente interpretada e classificada), disse Ruggero Jacobbi que eu, como ficcionista, sou “fragmentária, dispersiva e impressionista”, faltando-me “aquele impulso centralizador que faz o romance uma síntese compacta”.  E é assim mesmo, Por isso, justamente, nunca me considerei realmente uma romancista, e se tenho consentido que se ponha a palavra “romance” na capa de meus livros, é à falta de outra, ou, como ainda o diz Jacobbi, por “classificação editorial”.  Sempre senti que às minhas histórias falta essa coisa básica do romance que é o enredo. Um sistema compacto de narrativa, tal um rio no seu curso. Comigo é como uma paisagem de lagoas: poça de água aqui, poça de água ali, tudo salteado, descombinado, sem continuidade – e mormente sem a força de corrente que o rio tem. Água parada.

Mas não era o que eu estava em discussão, era a arte de fazer romances. E opinando portanto “de fora”, e não “de dentro” , do romance , insisto em afirmar ao meu correspondente que creio realmente ser  uma boa memória a qualidade básica do romancista. Memória para fatos, memória para a vida, principalmente memória de si mesmo. Ir enrolando a meada enquanto vive, para a desenrolar enquanto escreve. Naturalmente que há o comentário pontuando as lembranças e há a escolha do que recordar. E há os disfarces mascarando as recordações. E há a linguagem, que é a mise-enscène. Mas memória, memória do consciente e do subconsciente, lembranças acumuladas, imagens, recordações – isso constitui a matéria-prima. Que seria de Proust, ou antes, existiria Proust, se não fossem as suas memórias.

É esse o motivo de serem melhores os romances em que o autor, sob a capa de ficção, narra a sua própria experiência interior. Fora casos de intuição excepcional, sempre o escritor conta melhor quando se lembra. Por isso é que o romance “romântico” fala tão pouco à nossa alma, ao contar experiências imaginosas, todas fora da experiência do novelista. E também nos deixa frios o romance realista, reportagem que narra coisas vistas “de fora” e não “de dentro”. O escritor que vale, o que comove, o que impressiona, é o põe as próprias vísceras à mostra, das mais nobres às mais sórdidas – coração ou tripa – e conta como se portaram elas em tais e tais circunstâncias. O que se vira pelo avesso e se dá todo, sangrando, chorando. O que saqueia a infância, a adolescência, a força do homem, os seus mais sagrados santuários, revolve amores e ódios, a baixeza ou a pequena grandeza de que seja capaz, e atira isso tudo às feras, quero dizer, ao público, o grande canibal. Canibal que nos devora vivos e às vezes se sente indigesto com o mais fino dos nossos sonhos, ou atira fora, como caroços de azeitona, os pedaços mais rijos do nosso coração partido. Mas não era isso mesmo que nós queríamos?

Queiroz, R. (1993). Um alpendre, uma rede, um açude – 100 crônicas escolhidas.São Paulo: Editora Siciliano (pp. 128-131). Obra publicada originalmente em 1958.

Análise de interações verbais sobre política partidária em blogs

Este é o resumo de meu projeto de tese, cuja qualificação ocorreu no fim de novembro de 2011. Um dos principais consensos da banca é tratar do tema do ponto de vista da evolução de práticas culturais. Como em minha banca, além de pesquisadores da Análise do Comportamento, havia também um filósofo da área de política,  a literatura sugerida para dar continuidade ao trabalho foi basicamente a seguinte:

1) Literatura comportamental que analisa cultura, sendo um dos textos mais representativos dessa literatura, para meus objetivos, o artigo Individual Behavior, Culture, and Social Change, da professora Sigrid Glenn.

2) Literatura da Teoria Crítica (Adorno) e literatura que trata das transformações do conceito de  Esfera Pública (Habermas).

Wang, M. A. L. (2011). Interações verbais sobre política partidária em blogs: diversidade e uniformidade comportamental. Projeto de qualificação de tese de doutorado. Programa de Estudos pós-graduados em Psicologia Experimental: Análise do comportamento, PUC-SP.

Orientadora: Profa. Dra. Maria Eliza Mazzilli Pereira

Linha de pesquisa: Desenvolvimento de metodologias e tecnologias de intervenção.

Resumo

Uniformidade parece ser subproduto típico de discussões de temas sobre os quais integrantes de uma comunidade verbal compartilham crenças bem estabelecidas. Em busca de esclarecer essa questão, neste trabalho compararam-se interações verbais em dois blogs (Estudo 1), para identificar aspectos que pudessem ser caracterizados como diversidade ou como uniformidade na interação de participantes sobre um tema-alvo. Serviram como fonte um post relacionado com PSDB e PT publicado em um blog e reproduzido no outro blog e respectivos comentários. Classificaram-se os comentários segundo dois aspectos principais: 1) quanto a concordância ou discordância de participantes ao interagirem entre si sobre aspectos do post, do comentário de outro participante e outros aspectos; 2) quanto ao posicionamento de participantes especificamente sobre partidos políticos/representantes de partidos mencionados nos episódios verbais analisados. Em ambos os blogs, encontraram-se mais discordâncias do que concordâncias nas interações de participantes entre si em geral. Em relação ao posicionamento de participantes sobre política, especificamente no que diz respeito a verbalizações favoráveis ou desfavoráveis a um partido e seus representantes, em um dos blogs encontrou-se polarização de participantes entre PSDB e PT: parte se posicionou de forma favorável ao PSDB; parte se posicionou de forma desfavorável ao PT, e vice-versa. No outro blog, encontrou-se uniformidade na maneira como os participantes se posicionaram sobre PSDB/PT e representantes desses partidos. Nesse blog, em quase todos os comentários em que os participantes se posicionaram sobre PSDB/representante do PSDB, eles se posicionaram de forma desfavorável a esse partido/representante. A maior parte dos participantes que se posicionou sobre o PT/representante do PT, posicionou-se de forma favorável a esse partido/representante. Discute-se que a diversidade pode até emergir naturalmente em discussões de comunidades verbais na internet a respeito de política partidária, mas sua manutenção, a médio e longo prazo, parece depender da disposição de contingências específicas para esse fim. No Estudo 2, propõe-se analisar interações verbais sobre política, realizadas no segundo blog em quatro períodos diferentes, para verificar se posicionamentos de participantes sobre PSDB/PT e sobre representantes desses partidos estão se tornando menos diversos ao longo dos anos, bem como identificar possíveis variáveis responsáveis pelo resultado encontrado.

Palavras-chave: interações verbais pela internet; comportamento verbal sobre política; comunidades verbais na internet; controle mútuo mídia-consumidor; internet e uniformidade/diversidade comportamental.

Desafios e possibilidades para a escrita de resumos científicos

Recentemente tive de preparar uma aula sobre o preparo de resumos científicos. Preparei o seguinte esboço para a aula.  Espero que seja útil para que estiver às voltas para resumir em cerca de 300 palavras um trabalho de 100 páginas, digamos.

Cada qual é livre para dizer o que quiser, mas sob a condição de ser compreendido por aquele a quem se dirija” (Jean Cohen).

Maria de Lima Wang

Nesta aula vamos discutir o preparo do resumo como parte do processo de produção de pesquisa. Apresentaremos breve caracterização de um resumo e discutiremos alguns procedimentos para sua redação. Tomaremos por base algumas normas de publicação da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e da Associação Americana de Psicologia (APA).

Resumir relatórios ou artigos científicos é um desafio importante, especialmente para jovens autores com pouca experiência em comunicar resultados de pesquisas. Para quem trabalhou arduamente em uma pesquisa, a exigência de sintetizá-la em um parágrafo de 300 palavras ou menos pode soar como se reduzisse a importância do próprio trabalho. Além disso, escrever de forma concisa é mais difícil do que de forma prolixa, como sugere Koopman (1997). Para esse autor, escrever um bom resumo exige quase o mesmo trabalho envolvido na redação das múltiplas páginas do trabalho original.

Pierson (2004) ilustra a questão ao citar um conselho que recebeu de seu orientador, Thomas Petty, sobre o desafio de sintetizar informações complexas de forma clara e concisa:

Se você quiser uma apresentação de 10 minutos, posso prepará-la em uma semana; se quiser uma apresentação de 30 minutos, posso prepará-la para amanhã; se você quiser uma apresentação de uma hora, estou pronto agora (Pierson, 2004, p.1207, citando Thomas Petty).

Embora escrever o resumo de uma pesquisa seja uma atividade complexa e crucial para o sucesso da comunicação de resultados de um estudo, normalmente autores dão pouca atenção para essa tarefa (Sousa, 2006).

Definição – A ABNT define a atividade de sintetizar um texto para a comunicação de resultados de pesquisa conforme a seguir:

“Apresentação resumida, clara e concisa do texto, destacando-se os aspectos de maior interesse e importância. Deve ser redigida de forma impessoal, não excedendo 500 palavras. O resumo deve ressaltar o objetivo, o método, os resultados e as conclusões do trabalho.”

Conforme a APA (2001), resumo (abstract) é um “sumário breve e compreensível do conteúdo de um artigo… denso de informações e ao mesmo tempo compreensível, bem organizado, breve… pode ser o mais importante parágrafo de um artigo” (APA, 2001, p.12).

Com o resumo atinge-se pelo menos dois objetivos, além do principal, que é comunicar, de forma sucinta, resultados de uma pesquisa: a) permite-se que leitores entrem em contato, rapidamente, com o conteúdo de um relatório ou artigo científico (ou de um projeto de pesquisa) e, com base nessas informações, decidam se é conveniente ler o trabalho original; b) possibilita-se a serviços de indexação a recuperação de informações relevantes sobre o trabalho sintetizado (APA, 2001, Fernandes, 2002).

Pierson (2004) descreve um aspecto envolvido da escrita de um resumo que pode ser visto pelo autor como mais uma vantagem da tarefa de resumir. Ao transformar um trabalho de pesquisa completo em uma breve síntese, o preparo do resumo leva o autor a refletir sobre os aspectos mais importantes da própria pesquisa. Esses aspectos podem se relacionar com o problema de pesquisa, o método, o desenho experimental, as implicações do trabalho (Pierson, 2004, p. 1206.)

Estrutura – Tipicamente, um resumo compõe-se de título; autoria(s) e afiliação; o resumo propriamente e palavras-chave. A seguir, discutiremos indicações de preparo desses itens, baseando-nos nas normas da APA (2001).

Título – Descrever em 10 ou 12 palavras, de forma acurada, o conteúdo do artigo. Deve fazer sentido por si. Em um título devem-se evitar jargões desnecessários, abreviações, palavras desnecessárias.

Autor(es) e afiliação  – Indicar nome e sobrenome do(s) autor(s) com respectivas afiliações (instituição em que a pesquisa foi realizada) e formas de contato (e-mail, telefone). Não mencionar títulos ou posição como Dr., professor, PhD.

O resumo deve ser escrito um único parágrafo e com espaçamento simples entre linhas. Normalmente deve referir-se à motivação (contexto) para a realização da pesquisa, ao problema, método, aos resultados e às conclusões.

Contexto e problema – O autor deve apresentar de forma clara e concisa o contexto do problema – por que se interessou por aquele problema – em seguida deve declarar o problema, de preferência em uma sentença.

Método – Descrever os aspectos mais importantes do procedimento empregado para resolver o problema de pesquisa. O autor relata como conduziu o estudo: descreve os procedimentos que adotou para resolver o problema de pesquisa.

Resultados – Relatar os dados mais importantes dos resultados.

Conclusões – Relatar implicações dos resultados para a área de pesquisa.

Palavras-chave – Indicar palavras ou frases que reflitam conceitos centrais da pesquisa: podem referir-se ao problema, ao método ou à área do estudo.

A seleção cuidadosa de palavras-chave busca facilitar a recuperação de pesquisas, conforme essas palavras são usadas nos sistemas de indexação. Cada palavra-chave deve ser separada por ponto (conforme a ABNT). Palavras-chave também têm a função de ajudar o editor científico a encaminhar adequadamente artigos para revisão entre pares.

Características de um bom resumo De acordo com a APA (2001), o resumo deve ser acurado, autoexplicativo, conciso e específico. Vejamos como a APA descreve essas características.

Acurado Deve refletir corretamente o propósito e o conteúdo de um manuscrito. Não se deve incluir em um resumo informações que não apareçam no corpo do texto.

Autoexplicativo – O resumo de uma pesquisa ou artigo deve ser completo, bastar por si.  Deve-se evitar remeter o leitor para o corpo do trabalho (com expressões vide tal seção, por exemplo) assim como fazer citações. Devem-se definir abreviações, acrônimos, termos com significado especial, nome de testes e de drogas. Se forem citados trabalhos anteriores, deve-se mencionar nome e sobrenome dos autores com a data de publicação.

Conciso e especifico – Cada sentença deve ser informativa, afirmativa e sucinta, sem incluir palavras ou frases desnecessárias. Deve-se iniciar a sentença pela informação mais importante (pode ser o propósito ou a tese, um aspecto dos resultados ou das conclusões).

Entre as diretrizes da APA (2001) para a escrita de um resumo acurado, autoexplicativo, conciso e específico incluem-se:

  • Usar algarismos para números, exceto se iniciar uma sentença com número (o que se deve evitar).
  • Dar preferência à voz ativa (sem o pronome pessoal eu ou nós).
  • Informar em vez de avaliar – não incluir comentários ou opinião sobre o conteúdo do trabalho. O autor deve limitar-se a descrever o trabalho realizado ou a ser realizado.
  • Apresentar claramente e de forma breve o propósito do trabalho. Ser cauteloso com o uso de adjetivos e de advérbios.
  • Preferir o tempo presente para descrever resultados e discussão e tempo passado para descrever a manipulação de variáveis ou aplicação de testes. Adotar a 3ª pessoa em vez da 1ª do discurso (APA).
  • Evitar sentenças e frases desnecessárias, que não contenham informações.

De acordo com o Manual da APA (2001, p.14), em um resumo devem-se destacar certas informações conforme o tipo de pesquisa (experimental, de revisão, histórico-conceitual).

O resumo de um relatório de pesquisa empírica deve conter:

  • O problema investigado em uma sentença, se possível.
  • Os participantes ou sujeitos, especificando-se número, idade, sexo, gênero, espécie.
  • Método (incluindo equipamentos, procedimento de coleta de dados, nome completo de testes, nomes genéricos completos e dosagem de qualquer droga).
  • Descobertas, conclusões, aplicações e implicações.

Resumo de um trabalho de revisão ou artigo teórico deve conter:

  • A classe geral de método empregado, proposto ou discutido.
  • Características essenciais do método proposto.
  • A abrangência de aplicação do método proposto.

Resumo sobre um estudo de caso deve conter:

  • O sujeito e características relevantes do indivíduo ou da organização em estudo.
  • A natureza ou solução de um problema ilustrado pelo caso.
  • Questões levantadas (teóricas ou para pesquisas adicionais).

Limite de palavras para um resumo

A ABNT indica os seguintes critérios:

Entre 150 a 500 palavras (resumos de monografia, teses e de dissertações); entre 100 a 250 palavras (artigo científico); entre 50 a 100 palavras resumos para indicações breves.

Segundo a APA (2001), o resumo de um artigo não deve ter mais de 120 palavras.

Como escrever um resumo em quatro sentenças – Fernandes (1997) propõe uma fórmula para escrever resumo em quatro sentenças. Na primeira sentença, declara-se o problema de pesquisa. Na segunda, relata-se por que aquele é um problema. Na terceira sentença descreve-se a essência da solução ou da contribuição do autor para o problema a que se propôs a resolver. A quarta sentença é continuação da terceira declaração. O autor ilustra o método com o seguinte exemplo.

Frase 1:   “A taxa de rejeição de artigos do OOPSL (Object Oriented Programming Systems Languages)  está próxima de 90% ® Esse é o problema.

Frase 2:   A maioria dos artigos não são rejeitados por falta de boas ideias, mas porque estão mal estruturados ®  por que aquilo é um problema (esclarece a hipótese do autor sobre o problema).

Frase 3:   Seguindo quatro passos simples ao escrever um artigo irá aumentar dramaticamente a sua chance de aceitação  ® como resolver o problema (frase para capturar o leitor).

Frase 4:   Se cada autor seguisse esses passos, a quantidade de comunicações na comunidade de “orientação a objetos” aumentaria, melhorando a taxa de progresso do campo e a taxa de aceitação do OOPSL.

Considerações finais – O foco nesta aula foi a produção de um resumo científico. Mas o que está em questão é a escrita científica em geral. Cientistas, talvez mais que qualquer profissional, precisam escrever de forma lógica, clara, concisa, porque disso também depende o avanço da ciência. E escrever com lógica, clareza, concisão é tarefa complexa, que exige dedicação do autor, como destaca Dawkins (2008).

Richard Dawkins, organizador da coletânea The Oxford Book of Modern Science Writing (Dawkins, 2008) afirma que muitos dos melhores cientistas dedicam-se tanto às palavras quanto às equações que resolvem e aos experimentos que planejam. No entanto, segundo Barras (1978), muitos cientistas não receberam treinamento adequado sobre como escrever. Barras considera uma ironia ensinar cientistas e engenheiros a utilizarem instrumentos e técnicas, muitas dos quais nem usarão, e não os ensinar escrever. “Escrever é o que eles precisarão fazer todos os dias – como estudantes, como administradores, como executivos, como cientistas e engenheiros”. (Barrass, 1978, p.4)

Mas se alguém não foi ensinado explicitamente a como escrever, há muita literatura que busca ensinar como escrever. Mas a habilidade de escrita depende de o autor escrever, repetidas vezes, e sempre em busca de aperfeiçoar o próprio estilo.

No caso da redação de resumos, Fernandes (2002) propõe um caminho possível: a) escrever repetidas vezes e pedir que um colega revise o manuscrito; b) tornar-se revisor de manuscritos de outras pessoas. Que dizer: apenas ouvir apresentações como esta não vai mudar a produtividade ou a fluência de ninguém como escritor. Viu-se que a habilidade de escrever, especialmente escrever de forma sucinta, como exigida na produção de um resumo, depende da exposição do autor, repetidas vezes, a tarefas de escrita. Escrever um bom resumo é trabalhoso, mas é um esforço que será recompensado com mais visibilidade para a pesquisa sintetizada, o que, por sua vez, é essencial para o progresso da ciência.

Roteiro de atividade

O aluno deverá levar para a aula o resumo de um trabalho de própria autoria (se não tiver  texto próprio, levar resumo de outro autor).

1.   Em sala de aula, os alunos devem trocar resumos entre si, de forma que cada um tenha um resumo para ler e comentar.

2. Ao comentar o texto do colega, buscar identificar: a) informações sobre o contexto da pesquisa; b) problema de pesquisa; c) informações sobre o método; d) informações sobre resultados e discussões.

3. Comentar o resumo do colega tendo em vista a) critérios de clareza e concisão; b) limite de palavras indicado para esse tipo de comunicação.

4.   A dupla de alunos (autor e revisor) deve reescrever o resumo (se for preciso) incluindo informações que julgue necessárias ou retirando informações desnecessárias.

5. Discutir com a classe mudanças propostas para o resumo comentado na atividade entre pares.

 

Referências:

Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 6028: Informações e documentação: resumo: apresentação. Rio de Janeiro, 2003.

Barras, R. (1978). Os cientistas precisam escrever: guia de redação para cientistas, engenheiros e estudantes. São Paulo: Edusp

Dawkins, R. (2008). The Oxford Book of Modern Science Writing. NY: Oxford University Press.

Fernandes, T. C. (2002). Dicas para escrever artigos Científicos. Palestra apresentada dia 27 de Agosto de 2002 no Departamento de Informática e Estatística da UFSC.  Disponível em: http://rvianalima.blogspot.com/2010/09/dicas-para-escrever-artigos-cientificos.html (recuperado dia 10/05/2011)

Koopman, P. (1997). How to Write an Abstract. Carnegie Mellon University. Disponível em: http://www.ece.cmu.edu/~koopman/essays/abstract.html (recuperado dia 08/05/2011).

Pierson, D.J. (2004).How to write an abstract that will be accepted for presentation at national meeting. Respir Care. 49(10), 1206-12.

Publication manual of the. (2001). American Psychological Association. (5th ed.). Washington, DC.

SOUSA, V. D. (2006). Como escrever o resumo de um artigo para publicação. Acta paulista de enfermagem. [online]. vol.19, n.3, pp. 5-8. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-21002006000300001&script=sci_arttext (recuperado dia 08/05/2011)

Diversidade de opinião conforme Descartes

Em razão da minha tese, tenho refletido bastante ultimamente sobre o que produz ou deixa de produzir diversidade nas comunidades verbais. Um texto interessante a respeito é o de Bernard Guerin “Attitudes and beliefs as verbal behavior” (Guerin, 2004). Nesse artigo, Guerin confronta a definição de atitudes e crenças conforme perspectivas da psicologia social e mostra que, na abordagem da análise do comportamento, não existe distinção clara entre crenças e atitudes, que podem ser definidas, de forma genérica, como comportamento verbal mantido por reforço social generalizado, e, como tal, pode variar conforme contingências dispostas pela comunidade verbal.

Guerin, B. (2004).Attitudes and beliefs as verbal behavior. The Behavior Analyst, 1, 17 (pp. 155-163).

***

E revendo minha agenda de 2008, encontro a seguinte citação de René Descartes:

“A diversidade das nossas opiniões não provém do fato de uns serem mais racionais do que os outros, mas tão-somente em razão de conduzirmos o nosso pensamento por diferentes caminhos e não considerarmos as mesmas coisas”.

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