Contribuições da análise do comportamento para o estudo do comportamento científico

O texto que apresento a seguir é um esboço de um artigo inacabado, feito como parte dos requisitos para a conclusão da nossa primeira disciplina obrigatória do doutorado. A disciplina se chama Questões Avançadas em Análise do comportamento e foi ministrada pela professora Maria Amalia Andery no 1º semestre de 2009.

Mesmo o texto estando incompleto, espero que seja útil para quem se dedica ao tema.

 

Maria de Lima Wang

 

Duas características principais parecem sobressair-se na análise que Skinner (1957) apresenta sobre comportamento verbal lógico e científico (Verbal Behavior, capítulo 18, pp. 418-431): Skinner salienta, ao longo do capítulo, o rigor no controle por estímulos antecedentes, e a ação prática do comportamento. O autor inicia a análise diferenciando comportamento literário, amplamente discutido em Verbal Behavior, de outros comportamentos que dizem respeito a ações práticas do ouvinte. Sugere que a diferença básica entre o comportamento do cientista e o do escritor de literatura, diz respeito a aspectos relativos ao controle de estímulo e a consequências práticas. Quer dizer: enquanto no comportamento científico a comunidade tende a reforçar a precisão do controle de estímulo, porque disso depende a ação prática de outros integrantes dessa comunidade, no comportamento literário não há limite para a fantasia e a ficção, visto que esse comportamento não tem fins práticos.

Diferentemente do comportamento do cientista, “o comportamento do escritor não é verificado em seu meio imediato”, afirma Skinner (p.418). Não há limite imposto pela comunidade para a “as conseqüenciais especiais que podem afetar o controle de estímulo“ (descritas no capítulo 6 de Verbal Behavior), assim como a múltipla causalidade do comportamento (analisada de forma particular na terceira parte do livro). “Mas muitos comportamentos verbais”, afirma Skinner, “dizem respeito a ação prática” (Skinner, 1957, p.418). É o caso do comportamento científico, conforme o autor.

O referido capítulo foi separado em duas partes principais. Na primeira parte – Refinando o controle de estímulo – Skinner descreve algumas medidas adotadas pela comunidade para assegurar o controle de estímulo, tanto no caso de estímulos não verbais quanto estímulos verbais. Na segunda parte, analisa procedimentos empregados para a construção de novas respostas verbais.

Exemplificam as medidas para estimular o controle de estímulo, segundo Skinner, a criação de sistemas classificatórios, restrições ao uso de intraverbais, e adoção de autoclíticos “com os quais o falante representa a natureza do controle de seu comportamento”, seja com relação a estímulos antecedentes ou a cadeias intraverbais. A comunidade verbal científica impõe-se como audiência especial dentro da comunidade verbal mais ampla. Esse subgrupo verbal indica o repertório a ser empregado por seus integrantes e caracteriza um “universo de discurso” que compreende uma subdivisão do repertório a ser empregada, no qual termos apropriados a outras audiências geralmente não são reforçado (Skinner, 1957, p.420). Para Skinner, as conseqüências dispostas pela comunidade buscam prevenir exagero ou relatos truncado, má representação, mentira, ficção, entre outras falhas no controle de estímulo.

Ao introduzir o tópico Construindo novo comportamento verbal, Skinner afirma que a comunidade lógica e científica “acumulou lentamente um conjunto de técnicas para a construção de comportamento verbal eficaz. O falante move-se de um conjunto de respostas para outro conjunto, possivelmente mais útil” (p. 422). O processo envolve a manipulação e confirmação de respostas verbais; pesquisa e metodologia científica; avaliação da resposta verbal. O cientista manipula a própria resposta verbal, segundo Skinner, pela substituição de termos, em um processo semelhante à correção, descrita no capítulo 15 de Verbal Behavior, e pelo uso de autoclíticos específicos. Skinner esclarece o processo nesta passagem:

Para restringir a si mesmo a termos pertencentes a um universo limitado de discurso ou empregar um conjunto particular de axiomas, por exemplo, o lógico e o cientista comumente estabelece uma lista de resposta na forma escrita. Seu comportamento verbal subsequente será reforçado por ele mesmo ou por outros apenas se as respostas que emitir puderem ser emitidas como respostas textuais a estímulos daquela lista. (Skinner, 1957, p. 423).

 A construção de nova resposta verbal, segundo Skinner, compreende a emissão de uma resposta que é aparentemente tato ou intraverbal, para a qual parecem faltar estímulos complementares, que aumentem sua probabilidade e força. Como exemplo de confirmação da resposta, se um médico suspeita que seu paciente está com determinada doença, exames de laboratório podem confirmar suas suspeitas, e o profissional passa  “de  um conjunto de respostas para outro conjunto mais útil”.

 Depois de construída nova resposta verbal, esse comportamento, diz Skinner, muitas vezes precisa ser confirmado, em um processo que não se limita a resposta verbal, como esclarece o autor com a seguinte definição: “Confirmamos qualquer resposta verbal quando geramos variáveis adicionais para aumentar sua probabilidade” (Skinner, 1957, p.425). Segundo Skinner, em geral confirma-se a resposta procurando variáveis que controla forma semelhante da resposta em outros tipos de operantes. Se alguém, exemplifica Skinner, julga ter visto um telescópio, a resposta fraca penso que é um telescópio pode ser substituída por uma resposta forte sei que é um telescópio. Pode-se dizer o mesmo no caso do exemplo do médico, apresentado anteriormente. Novas respostas verbais podem ser confirmadas tanto como tato quanto como intraverbal.

Na comunidade científica, investigar determinados fenômenos conforme os cânones da área é o modo usado por excelência para a construção de novas respostas verbais. Skinner afirma que a ciência empírica apenas dedica-se em parte à construção e confirmação do comportamento verbal. De forma ampla, compreende “um conjunto de práticas que produzem comportamentos úteis” (Skinner, 1957, p. 427). O autor cita o uso de instrumentos pelos quais o cientista amplia o contato com a natureza. Para o autor, grande parte do comportamento científico é verbal, sendo que uma parte desse comportamento é construída conforme processo descrito anteriormente.

Confirmada a nova resposta, o produto do comportamento verbal do cientista é então avaliado pela comunidade. Aqui novamente Skinner enfatiza a orientação prática do comportamento ao afirmar: “Uma parte importante da prática científica é avaliar a probabilidade de que uma resposta verbal seja ‘certa’ ou ‘verdadeira’ – que se possa agir sobre ela de forma bem-sucedida”, afirma Skinner, 1957, p.428, lembrando que nem toda resposta construída é completamente confirmada. Skinner volta a salientar a noção de que o comportamento verbal é dirigido para ações práticas ao introduzir a discussão sobre metodologia científica. Segundo o autor:

O comportamento verbal lógico e científico difere do comportamento verbal do leigo (e particularmente do comportamento literário) por causa da ênfase nas consequências práticas… O teste de predição científica é, frequentemente, como a palavra indica, uma confirmação verbal. Mas o comportamento do lógico e do cientista leva, em fim, a uma ação não verbal eficaz, e é aqui que precisamos encontrar as últimas contingências de reforço que mantêm a comunidade verbal lógica e científica (Skinner, 1957, p.429).

Skinner (1957) parece supor que os processos envolvidos na manipulação, construção, confirmação e validade de novas respostas verbais sejam capazes de fazer com que o comportamento do cientista: (1) acabe por ficar sob controle rigoroso de estímulo; 2) seja dirigido a ações práticas. É como se descrevesse a comunidade científica “ideal”, que poderia se estabelecer, conforme características descritas pelo autor, se fossem estabelecidas contingências de reforçamento adequadas. Essa suposição baseia-se na forma como ele termina o capítulo: afirma que a comunidade científica tem de levar em conta a natureza do comportamento verbal. Considera, por fim, que “uma das últimas realizações de uma ciência do comportamento verbal poderá ser uma lógica empírica, ou uma epistemologia científica descritiva e analítica, cujos termos e práticas serão adaptados ao comportamento humano como próprio objeto em questão” (Skinner, 1957, p. 431). 

Algumas contribuições para a análise de Skinner (1957) sobre comportamento científico – Ao analisar o referido capítulo de Skinner, Schnaitter (1980) considerou que a discussão sintetizada anteriormente, proposta por Skinner em 1957, foi “apenas o início” do que deveria ser uma análise mais precisa sobre comportamento científico. Em sua proposta de contribuição com a análise inicial de Skinner, Schnaitter propõe uma distinção entre: (1) o cientista como experimentador e observador; (2) o cientista como teórico.

Baseando-se na definição de conhecimento proposta por Skinner (1953 e 1974) – segundo a qual conhecer é ser capaz de se comportar de forma adequada conforme o contexto – Schnaitter afirma que a epistemologia da ciência consiste em analisar o estabelecimento e o funcionamento de repertórios comportamentais do cientista, considerando suas múltiplas funções destacadas anteriormente em 1 e 2. O repertório científico, afirma o autor, embora não seja inteiramente lingüístico, é controlado, em grande parte, por contingências verbais (Schnaitter, 1980, p.154). Esse é um ponto importante de sua análise. Contingências verbais, no âmbito científico, exprimem-se por meio de definições, equações, princípios, metodologias científicas e outros estímulos antecedentes que se estabeleceram na comunidade por suas ações práticas, ou seja, em controlar o comportamento do cientista de forma que aumente sua probabilidade de reforço (Skinner, 1957; Schnaitter, 1980).

Schnaitter assume que, como experimentador, o cientista busca aumentar o controle experimental sob o qual estuda seu objeto. Controlar o próprio objeto de estudo pode ser uma conseqüência importante para manter o comportamento do pesquisador. Nesse sentido, Schnaitter baseia-se no próprio Skinner (1961) que afirmou ”controle suas condições e verá ordem” (Skinner, 1961, p.80). Schnaitter cita também trechos de uma resenha de Ferster (1978), que contraporiam a noção de que a comunidade científica é voltada para ações práticas. Nessa resenha, Ferster afirma que “muitos dos trabalhos iniciais em várias áreas de esquema de reforçamento eram divertimento” [playful], no sentido de que o comportamento do experimentador era mantido e modelado pela interação com o fenômeno que emergia no experimento. “As descobertas eram de valor não prático, e muito dos fenômenos que emergiram eram criações de laboratório que nunca existiram antes na natureza” (Ferster, 1978, p.349).

Para Schnaitter, o desenvolvimento do controle eficaz de dado objeto de estudo pode vir acompanhado pelo desenvolvimento de um conjunto de regras que descrevam os comportamentos que o pesquisador terá de se engajar para obter tal controle. Ele cita manuais clássicos de metodologia de pesquisa comportamental como Tactics of Scientific Research (Sidman, 1960)[1] e Handbook of research methods in applied Behavior Analysis (Bailey,1977)[2].

Schnaitter nota que as contingências que atuam no laboratório experimental podem modelar “tecnicismos” sem a necessidade de desenvolvimento de repertório teórico. Essas contingências são diferentes daquelas que modelam o comportamento do teórico que está longe do laboratório, em um “reino puramente verbal” (p.156). Lembra que na psicologia – e talvez em outras áreas –  ambas as funções podem ser desempenhadas pela mesma pessoa. Schnaitter cita os trabalhos do próprio Skinner como exemplo. Lembra que os trabalhos produzidos por Skinner depois de meados de 1930 foram principalmente reflexivos, ao passo que o comportamento verbal de Skinner foi modelado de forma marcante pela leitura de obras de autores como Sherrington, Magnus, Pavlov, e pelo contato direto com William Cozier, em Harvard (Schnaitter, 1980, p.156).

A contribuição de Schnaitter para análise inicial proposta por Skinner (1957) sobre o comportamento científico foi sintetizada pelo autor da seguinte forma:

Como experimentador, o cientista desenvolve um repertório consistindo naqueles tipos de respostas manipuláveis que têm efeito direto sobre o objeto de estudo. No laboratório operante isso consiste em programar contingências de reforço, lidar com organismo experimental, com o registro preciso de dados, e com a manipulação de variáveis experimentais, de forma que efeitos pretendidos sejam produzidos. Esses comportamentos são reforçados por seus efeitos sobre os dados… O comportamento verbal desenvolvido em função desse processo descreve os procedimentos pelos quais alguém pode engajar-se para produzir controle experimental sobre o objeto em questão. O repertório do teórico, por outro lado, é um conjunto de resposta manipuláveis diretas, não sobre o objeto natural de interesse da ciência, mas sobre o registro verbal de tal objeto, o dado. As consequências reforçadoras para essa forma de comportamento novamente é obter ordem nos dados, mas é ordem de um tipo diferente da que reforça o comportamento do experimentador. Enquanto o experimentador está interessado em encontrar ordem por meio de manipulação de variáveis causais, o teórico encontra ordem por meio da manipulação de material verbal (Schnaitter, 1980, pp. 159-160).

 A análise proposta por Skinner (1957) e Schnaitter (1980) foi ampliada por Johnston e Pennypacker (1993), que consideraram o trabalho de Schnaitter esclarecedor (p. 161). No capítulo Logic, reasoning and verbal behavior (Reading for strategies and tactics of behavioral research), Johnston e Pennypacker analisam componentes da chamada lógica aristotélica ou lógica formal (proposição, premissa, raciocínio dedutivo e indutivo) conforme a perspectiva da análise do comportamento. A discussão de Johnston e Pennypacker sobre o tema pode ser sintetizada como segue: é possível afirmar como eficaz o comportamento que produz conseqüências reforçadoras e, ineficaz o comportamento que não produz consequências desse tipo. A emissão de proposições pode ser eficaz ou ineficaz com base nas conseqüuncias que produzir: será reforçada quando ou ouvinte aceitar o enunciado ou acreditar nele.  Logo, a emissão de um enunciado pode ser eficiente ou ineficiente independentemente de sua correspondência com certos fenômenos ou independentemente de sua veracidade. Análise semelhante pode ser feita sobre o raciocínio indutivo e dedutivo, que indica as regras segundo as quais o comportamento terá maior probabilidade de ser aceito e ser reforçado pelo ouvinte. (Johnston e Pennypacker, 1993,  pp. 171-172.

Johnston e Pennypacker descrevem as contingências que fazem com certas preposições sejam tipicamente reforçadas. Notam que algumas proposições podem aumentar a probabilidade de aceitabilidade do ouvinte quando acompanhadas de outras, como é o caso das premissas. Considera-se, portanto, que o ouvinte tenha alta probabilidade de aceitar uma premissa seguida de uma conclusão do que conclusão que não seja baseada em premissas (premissas podem ser emitidas na forma vocal e escrita). O produto do comportamento, seja vocal ou escrito, pode estabelecer a ocasião para uma nova proposição ser emitida. De forma semelhante, o raciocínio verbal envolve alterar a probabilidade de que uma conclusão seja aceita ou emitida por meio da manipulação de premissas.

Para Johnston e Pennypacker, é possível que uma análise experimental do comportamento verbal envolvendo padrões da lógica e do raciocínio descubram relações funcionais que irá fortalecer a eficiência de alguém com respeito ao ambiente reforçador (p.172). Os autores concluem o capítulo com algumas questões as quais consideram que a ciência do comportamento terá de lidar:

Como a lógica desenvolveu-se no repertório humano? Como proposições se desenvolveram e ou emergiram de simples tatos e intraverbais? Que fatores controlam a aceitação de premissas de um discurso lógico? Quão bem regras de inferência dedutiva descrevem os efeitos comportamentais do raciocínio lógico? Quais são as variáveis que afetam a aceitação (ou emissão) de conclusões indutivas? (Johnston e Pennypacker, 1993, p. 172)

A exemplo Johnston e Pennypacker (1993), Moore (2008) analisou o termo explicação de acordo com a perspectiva behaviorista radical. Moore baseia-se na suposição de que explicar, assim como outros comportamentos correlatos, como teorizar, descrever e interpretar, é comportar-se verbalmente. Comportamento verbal é comportamento operante. Logo, comportamentos referidos como explicar devem ser analisados conforme as contingências de reforço da comunidade, que instalam e mantêm esses comportamentos.

Moore ressalta que para o behaviorismo radical, explicações são formas de comportamento verbal produzidas por relações funcionais entre o comportamento e variáveis ambientes. Nota, porém, que não há um consenso sobre o uso do termo na psicologia, de forma que é possível que muitas vezes o termo seja empregado sem que seja baseada numa relação causal. O uso do termo com diferente significado do que é adotado pelos bahevioristas pode ser exemplificados pelos casos em que a suposta explicação é focada em agentes ou forças internas que estão em outra dimensão do fenômeno em questão. Nessa situação, torna-se impossíveluma análise funcional.

Embora na análise do comportamento explicar signifique estabelecer uma relação causal, restaria saber se as conseqüências liberadas pela comunidade verbal, responsáveis por manter o comportamento de explicar, dependeria ou não rigorosamente do uso apropriado do termo. Se um cientista produz uma pesquisa e afirma que A explica B, é possível que muitas das consequências importantes para a manutenção de seu comportamento sejam liberadas pela comunidade científica antes que outros pesquisadores possam confirmar e validar a descoberta relatada.  O trabalho de Guerin (1992)  é ilustrativo a esse respeito.

Em sua análise comportamental sobre a construção social do comportamento, Guerin (1992) afirma que o conceito de relato preciso pode variar conforme a comunidade verbal. Por analogia, talvez seja possível dizer que o mesmo pode ocorrer com o conceito de explicação dentro do universo da psicologia e talvez até dentro da comunidade behavioristas. Guerin recorre ao conceito de comportamento verbal, comportamento que é reforçado pela mediação de outras pessoas (Skinner, 1957, p. 14), e enfatiza que comportamento verbal não pode ser eficaz sem a participação do outro. O autor cita três condições segundo as quais o conhecimento construído socialmente pode liberar-se do controle ambiental antecedente: (1) se a emissão de tato for controlada por grupos que não reforçam, necessariamente, relatos precisos do ambiente; (2) se intraverbais forem reforçado pelo grupo como se fossem memórias de tatos prévios; c) se consequências generalizadas se tornarem generalizadas demais e mantiverem tatos de forma não discriminada (Guerin, 1992, p.1423-1427).

Considerações finais – É possível que mesmo dentro da comunidade científica que se intitule bahaviorista haja, em alguma medida, diferentes critérios para reforçar comportamentos verbais que se apresentem como explicação para certos fenômenos. Ou, dito de outra forma, ainda baseando-se na discussão de Guerin, sempre pode haver alguém dentro da comunidade que reforce o comportamento verbal conforme as condições 1, 2 3 mencionadas anteriormente. Porque, como o próprio Skinner afirma, “o controle de estímulo nunca é perfeito. É provável que o comportamento verbal nunca seja completamente independente da condição de um falante em particular” (Skinner, 1957, p.147).

Se em 1957 Skinner pareceu excessivamente confiante no sucesso da comunidade científica em manter seus integrantes sob controle rigoroso de estímulo, e voltados para ações práticas finais não verbais, em (1988) o autor parece mais cauteloso, conforme se pode inferir da presente passagem: Segundo Skinner, 1988:

Comportamento científico é possivelmente o mais complexo dos objetos já submetidos à análise científica, e continuamos longe de uma explicação [account of] para ele. Por que o cientista examina e explora um dado objeto? Que taxa de descoberta irá manter seu comportamento? Que comportamentos pré-correntes melhoram suas chances de sucesso e expandem a adequabilidade e o escopo de suas descrições? Que passos ele dá ao mover-se de um protocolo para uma afirmação geral? Essas são questões difíceis e existem muitas outras como essas. O cientista está sob controle de contingências de reforçamento muito complexas. (Skinner, 1988, pp. 102-103).

Para concluir, se é da natureza do comportamento operante, e do comportamento verbal de forma particular, ser afetado por múltiplas variáveis que podem interagir entre si na determinação do comportamento (Skinner, 1953), qualquer epistemologia da ciência deveria levar conta essa característica básica do comportamento.  Sem levar essa característica em conta os esforços para a compreensão do comportamento do cientista, esteja ele trabalhando ou fora do laboratório, serão infrutíferos. Ao longo dos anos, a análise do comportamento acumulou um conjunto de fatos que podem oferecer importante contribuição para a compreensão das contingências que mantém o comportamento científico. No entanto, parece estar-se, ainda, distante da construção de “uma lógica empírica”, conforme Skinner (1957) vislumbrou.

Avanços recentes da análise do comportamento na compreensão de fenômenos sociais complexos (ver Glenn 1986; 1989; Glenn & Malott 2004; Malott & Glenn, 2006) podem oferecer importantes contribuições para o estudo do comportamento científico e contribuir com o planejamento e a execução de contingências que façam com que a comunidade verbal científica possa desenvolver sistemas melhores do que os empregados até hoje para uma epistemologia da ciência, e possam orientar a comunidade científica de fato para ações práticas não verbais (Skinner, 1957), de forma que o conhecimento possa ir além da cultura do paper.

REFERÊNCIAS

Ferster, C. B. (1978). Is operant conditioning getting bored with behavior? A review of Honig and Staddon’s Handbook of Operant Behavior. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 28, 171-179.

 

Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 6, 2-8.

 

Glenn, S. S. (1989). Verbal behavior and cultural practices. Behavior Analysis and Social Action, 7, 10-14.

 

Glenn, S. S., & Malott, M. E. (2004). Complexity and Selection: Implications for Organizational Change. Behavior and Social Issues, 13, 89-106.

 

Malott, M. E., & Glenn, S. S. (2006). Targets of Intervention in Cultural and Behavioral Change. Behavior and Social Issues, 15, 31-56.

 

GUERIN, B. (1992). Behavior Analysis and Social Construction of Knowledge. American Psychologist, 47, n.11, pp. 1423-1432.

 

Johnston, J. M. & Pennypacker, H. S. (1993). Logic, reasoning, and verbal behavior. In:Readings for Strategies and Tactics of Behavioral Research. Hillsdale, N.Y, pp. 161-172.

 

Moore, J. (2008). Scientific Verbal Behavior: Explanations. In: Moore, J. (2008). Conceptual foundation of radical behaviorism.Cornwall-on-Hudson,NY: Sloan Publising, pp.289-312.

 

Schnaitter, R. (1980). Science and verbal behavior. Behaviorism, 2, 153-160.

 

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e Comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes (obra publicada originalmente em 1953).

 

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior.New York: Appleton-Century-Crofts.

 

Skinner, B. F. (1961). Cumulative Record.New York: Appleton-Century-Crofts.

 

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism.New York: Alfred A. Knopf.

 

Skinner, B. F. (1988). Are theories of learning necessary? In:Catania, C. (1988).The selection of behavior:  The operant behaviorism of B. F. Skinner: Coments and consequences.Cambridge:CambridgeUniversity Press, pp. 87-105.

 

 


[1] Sidman, M. (1960). Tactics of scientific research. New York: Basic Books

[2] Bailey, J. (1977). Handbook of research methods in applied behavior analysis. Tallahassee: Florida State University.

 

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