Sobre o formalismo da escola

Fui chamada recentemente para uma reunião com a professora do meu filho, que tem 5 anos. Ela começou elogiando o desempenho acadêmico dele. Depois, disse que o menino não segura o lápis “adequadamente”, ou seja, como foi ensinado a segurar o suporte para lápis. Fiquei me perguntando que se não é muito cedo para exigir que o menino segure o lápis de certa maneira – e qual o efeito dessa habilidade dele para seu desempenho acadêmico futuro – mas achei melhor deixar prá lá.

Antes de terminar a reunião disse que ele também está trocando algumas letras, como por exemplo, o L pelo R. Aconselhou-me a procurar um fonoaudiólogo. A professora me perguntou o que eu achava disso – de procurar ajuda de uma fono –  e eu respondi que sinceramente achava que era muito cedo, haja vista que o menino acabara de fazer 5 anos.

Contei-lhe, brevemente, que a literatura sobre desenvolvimento infantil relata como normal criança na idade dele não conseguir distinguir sons e formas de letras semelhantes. 

 De qualquer forma, a professora insistiu que seria bom eu procurar orientação e até de propôs a fazer os exercícios que a fono eventualmente indicasse.  Ou seja, não adiantou o meu blá, blá, blá sobre os achados da literatura sobre o tema.

Eu estava numa fase muito corrida, mas depois de um mês mais ou menos resolvi enviar um e-mail para uma amiga que é fonoaudióloga relatado o caso e pedindo para marcar uma consulta com ela.

A fono me respondeu que eu estava certa: não haveria porque me preocupar com a troca de letras pelo menino porque são sons difíceis de discriminar, mas com o passar do tempo ele aprenderá a diferenciá-los. E se não aprender, ai sim, pode-se pensar numa intervenção.

 Eu já esperava esse tipo de reposta. Mas fico preocupada como a escola não preparar seus professores para saber que esse tipo confusão com as letras é normal, especialmente em crianças que ainda estão adquirindo repertórios básicos, como é o caso do meu filho. Imagine se eu fosse uma mãe que nunca tivesse lido sobre o assunto. O conselho da professora poderia ter sido fonte de grande preocupação para mim e até mudar minha forma de relação com meu filho.

Também me preocupa o fato de a escola – refiro-me à instituição de modo geral – ser excessivamente, a meu ver, preocupada com a forma – o pegar no lápis de maneira “correta”, treinar a escrita em quem ainda nem tem o repertório de escrever – no caso das lições com cadernos de caligrafia – e por ai vai. Pergunto-me qual a importante desses aspectos formais, por assim dizer, para o desenvolvimento da criança. É certo que esse tipo de atividade leva tempo. Pergunto-me se esse tempo não seria mais bem aproveitado se a escola programasse tarefas envolvendo leitura, contação de história e outras atividades que pudessem despertar na criança o gosto pela leitura, o gosto pela escrita. Atividades em que a criança não se sinta punida por não escrever de acordo com o padrão imposto pela própria escola. E quando falo em punição, estou supondo que, no mínimo, é desagradável para a criança, que ainda está adquirindo repertório de escrita, escrever seu nome meio torto e a professora exigir que ele o escreva dentro do padrão do caderno de caligrafia. Não acredito que corrigir a caligrafia da criança, nesse momento da vida acadêmica dela, possa aumentar a probabilidade de que a criança queira escrever novamente. Se escrever sistematicamente significa correção, é melhor se envolver em outras atividades cujo reforço é mais seguro, por exemplo, “não fazer nada” ou fazer muito pouco, só o mínimo necessário para não levar bronca da professora.

 

2 comentários sobre “Sobre o formalismo da escola

  1. Realmete preocupante. Concordo com você até nas entrelinhas. É um absurdo o quanto a instituição ainda cobra determinados “padrões de resposta”, por assim dizer, extremamente desnecessários nessa fase da vida de uma criança… Me lembro um pouco do quanto a escola ainda trabalha com a idéia de “normatização”; parece que vivemos no início do século passado…

    Quanto à professora, chega a ser triste. Acredito que ela tenha se preocupado com o desenvolvimento de seu filho, não a culpo; existe a probabilidade dessa profissional não ter estudado desenvolvimento infantil quando deveria, por uma falha de sua formação acadêmica. É triste pensar que existem vários desses rofissionais lecionando por aí. Me dá uma inquietação…

    Muito bom o blog!
    Abraços!

  2. Mainá,

    Gostei muito de seu comentário. Você deve ser educadora, não? Gostaria de saber mais sobre suas “inquietações”. Em geral, sou das poucas mães, entre muitas na escola do meu filho, que se preocupam com esse tipo de questão. É uma pena.

    Sua colaboração será sempre bem-vinda neste espaço.
    Abraço
    Maria

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