Escrever e aparecer

Assisti a uma palestra no ano passado sobre a produção da escrita, na PUC-SP, apresentada pela professora Ana Luiza Marcondes Garcia, doutora em Lingüística pela Unicamp e professora da PUC-SP. A palestra foi intitulada A questão da autoria na escrita e a prática diarista.

 

Embora a professora tenha tratado da escrita acadêmica, as dicas dela podem ser válidas para outros gêneros. A seguir, destaco alguns pontos da palestra.

 

Angustia de escrever parte da angústia de escrever refere-se à dificuldade de se colocar como autor, dar espaço para a própria voz. Metade do que dizemos [muito possivelmente mais da metade] é palavras de outros. Para Ana Luiza, esse parece ser o principal problema para a dificuldade da escrita acadêmica.

Escrever é sofrido é mais transpiração do que inspiração. É mito achar que alguém tem – ou não tem – dom para a escrita. Escrever bem é resultado de trabalho duro.

Práticas que ajudam a revelar autoria na escrita:

– Anotações

– Escrever diários de pesquisa

– Escrever às margens dos livros

– Relacionar um autor com outro;

– Registra dúvidas, as próprias concordâncias ou discordância com determinado autor/aspecto da escrita desse autor.

– Contar com a intervenção de um orientador.

 

Para a professora, é possível que a dificuldade de escrever tenha relação com a forma como a escrita é ensinada. Escrever é revelar-se, diz a professora. Ao contrário da fala, a escrita fica registrada, sujeita considerações, reprovações. É possível que a dificuldade de escrever tenha a ver com práticas coercitivas na escola.

 

A propósito do tema, sugiro a leitura do texto Atrás do espelho, de Theodor Adorno, que está no livro Minima Moralia (Editora Ática). De modo geral, o autor trata da edição do texto. Aqui, pequeno trecho de Adorno retirado do referido texto:

 

 

A primeira medida de precação do escritor: verificar em cada texto, cada fragmento, cada parágrafo, se o tema central sobressai com nitidez. Quem quer expressar alguma coisa está de tal modo expressado por isso, que se deixa levar sem refletir. A pessoa está próxima demais de sua intenção, ‘perdida em seus pensamentos’, e esquece-se de dizer o que ela quer dizer. Nenhuma correção é demasiado pequena ou insignificante para que não se deva realizá-la. Em certas alterações, cada uma pode aparecer isoladamente como tola e pedante; juntas podem constituir um novo nível do texto.

Nunca se deve ser mesquinho nos cortes (…) A extensão não tem importância (…). Os textos bem elaborados são como teias de aranha:densos, concêntricos, transparentes, bem estruturados e sólidos.

 

 

E o autor continua com outras dicas importantes.

Este é um texto que, a meu ver, deveria ser posto numa moldura e disposto bem em nossa frente.

Na leitura de Adorno, novamente a noção de que escrever é mais transpiração do que inspiração.

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