Quem seleciona, pouco ensina

 

Minha amiga pergunta qual minha opinião sobre um texto em que o autor se manifesta contra a inclusão de disciplinas como direito e educação ambiental no currículo escolar. Eu poderia contestar cada trecho do manifesto do autor, mas o que me chamou mais atenção foi este, em que o autor afirma:

“Não é possível ensinar filosofia, sociologia, Direito, História ou Geografia a jovens semiletrados.”

 

Respondi para minha amiga não concordo que não seja possível ensinar essas  disciplinas a estudantes com baixo repertório acadêmico. Meu filho, de cinco anos, tem uma boa noção sobre:

– preservação ambiental: é capaz descrever – e ajuda a fazê-lo – como reciclar o lixo que produzimos em casa;

– direito – sabe que não pode trazer o carrinho do colega, sem o consentimento desse colega, para casa;

– sociologia – entende que as pessoas são diferentes – seja na cor de suas peles, no rendimento familiar, no tipo de trabalho que executam para ganhar a vida.

 

Esse é apenas um exemplo para mostra minhas razões pelas quais não acredito que seja necessário repertórios sofisticados para ensinar filosofia, sociologia, direito entre outras disciplinas a alunos com déficit de repertório ou semiletrados, como afirmou o articulista.

 

O problema é que não é aumentando o número de disciplina que a escola vai se redimir dos fracassos retumbantes que ela tem produzido, mas dedicando-se a ensinar, de fato – o que para Skinner resume a dispor contingências de reforços para facilitar aprendizagem.

Um bom começo seria a escola se dedicar a ensinar aqueles que mais precisam ser ensinados.

Gostaria de referir aqui um trecho de Hobsbawm (1998) já mencionado neste espaço. Ele conversava com estudantes, futuros professores e afirmou:

 

“O que eu quero lembrar a vocês é algo que me disseram quando comecei a lecionar em uma universidade. ‘As pessoas em função das quais você está lá’, disse meu professor, ‘não são estudantes brilhantes como você. São estudantes comuns com opiniões maçantes, que obtêm graus medíocres na faixa inferior das notas baixas, e cujas respostas nos exames são quase iguais. Os que obtêm melhores notas cuidarão de si mesmos, ainda que seja para eles que você gostará de lecionar. Os outros são os únicos que precisam de você’”.

 

Ou, como diria Skinner, qual será o mérito da escola se ela ensinar só quem já aprendeu a aprender? Quando a escola seleciona só os melhores, diz Skinner, ela abdica de ensinar. O desafio é ensinar quem de fato precisa ser ensinado. O desafio é ensinar filosofia, sociologia, direito, história ou geografia a jovens “semiletrados”, como referido pelo autor. E para isso, convenhamos, não basta apenas incluir mais disciplinas no currículo. É o processo de ensino que tem de ser revisto.

 

Referências:

 

Skinner, B. F. (1972). Tecnologia do Ensino. São Paulo: EPU

 

Hobsbawm, E. (1998). Sobre História. São Paulo: Cia das Letras.

 

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