O artigo que ainda não escrevi

Defendi minha dissertação de mestrado no fim de abril e ainda não comecei a escrever o artigo sobre ela. De lá para cá, envolvi-me com alguns projetos que me exigiram tempo, é verdade. Mas não poderia atribuir à falta de tempo o fato de eu não ter iniciado a escrita de tal artigo. Fico a pensar sobre quais seriam as reais causas pelas quais ainda não me envolvi na tarefa. Digo causas porque o comportamento, especialmente o comportamento verbal, como é o caso da escrita, ocorre em função de múltiplas variáveis, como afirma Skinner: “A força [probabilidade] de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável e uma única variável costuma afetar mais de uma resposta”.  

Tenho algumas suposições sobre o porquê de eu ainda não ter me envolvido na tarefa.  Em primeiro lugar, devemos levar em conta os processos comportamentais que estão envolvidos na produção de uma dissertação. Não é tarefa simples, principalmente quando feita em outra área do conhecimento, diferente daquela em que o autor foi originalmente formado, como foi o meu caso.

Durante 2,5 anos de minha vida, não tive “vida social para além do grupo do mestrado (coloco entre aspas porque o termo tecnicamente está mal empregado). Quase não saia nem para um passeio no parque com meu filho. Meus fins de semanas se resumiam a leituras técnicas e preparo de trabalhos para o mestrado.

O mestrado era uma meta que eu tinha desde que terminei a faculdade, concretizada mais de dez anos depois de ter concluído minha graduação no ensino superior. Não queria fazê-lo de qualquer jeito, só para obter o título, por isso minha dedicação talvez acima da média. Some-se a isso o fato de eu estar em uma nova área, totalmente desconhecida por mim até iniciar o curso. Some-se a isso também a exigência dos professores do programa em que me inscrevi, para a formação de seus mestres. O fato é que nunca trabalhei tanto em minha vida – e nunca aprendi tanto também – em tão curto período de tempo.

É possível que esse trabalho árduo, que me privou de muitos contatos sociais, tenha algum efeito sobre mim e diminua a probabilidade de que eu me envolva em alguma atividade associada com a dissertação.

Há também a questão da pausa pós-reforço: logo depois de ser reforçado por uma atividade diminui a probabilidade de que um organismo volte a se empenhar na mesma atividade. Mas será que uma pausa pós-reforço duraria tanto tempo? Acho que não.

Que será que eu ganho não escrevendo o artigo? Certamente alguma coisa. Não sei o quê, ou quais são as variáveis críticas para eu não fazê-lo, pois se soubesse seria mais fácil lidar com a questão.

Pode ser um comportamento de esquiva: esquivo-me de escrever meu artigo para evitar possíveis conseqüências que a escrita pode produzir sobre mim. 

Essa é uma maneira grosseira de analisar meu comportamento. Não se pode analisar comportamentos tão complexos como os envolvidos na escrita de um texto acadêmico – e de qualquer texto – de forma simplista como essa. Mas é uma forma de pensar – e pensar é uma forma de comportamento – sobre as possíveis soluções para o problema, qual seja, o artigo que não escrevi. Acredito que escrever este post é, de certa forma, um jeito de tentar enfrentar o problema. Vamos ver se será. Enquanto o artigo não sai, aqui o link para a apresentação da pesquisa.

 

 

 

 

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