Duvide sempre do que você ouve, lê, vê

Em 1957, Skinner apresenta em seu livro Verbal Behavior proposta singular para o estudo dos fenômenos tradicionalmente descritos sob o título de linguagem. Inicia sua obra, traduzida em português como O Comportamento Verbal (1978), caracterizando comportamento operante: “Os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez são modificados pelas conseqüências de sua ação” (Skinner, 1957/1978, p.15). Quer dizer: os homens interagem com seu ambiente e, ao fazê-lo, produzem certas conseqüências, que retornam a seus agentes e modificam-nos no sentido de aumentar ou diminuir a probabilidade de que eles voltem a se comportar de modo semelhante. Skinner ressalta, porém, que nem sempre as conseqüências finais que mantêm o indivíduo se comportando de determinada maneira são obtidas pela relação direta desse indivíduo com seu ambiente físico. Muito freqüentemente essas conseqüências são obtidas pela mediação de outro indivíduo.

Ao iniciar seu livro caracterizando comportamento operante, o autor explicita a tônica de sua proposta: linguagem, ou comportamento verbal, como prefere denominar tal fenômeno, é comportamento operante, logo, será tratada como comportamento selecionado e mantido por suas conseqüências. Assim, de saída Skinner rejeita explicações vigentes sobre os fenômenos da linguagem, freqüentemente restritas à descrição do que é falado ou escrito, à noção de significado (idéia, conceito), significante (forma), sem levar em conta as condições em que esses fenômenos ocorreram e continuam a ocorrer.  

Ao contrário das formulações tradicionais, Skinner propõe que o estudo do comportamento verbal seja baseado na análise da relação funcional entre o comportamento e as variáveis do ambiente em que o indivíduo está inserido. É nessa relação que se encontram explicações sobre porque falantes e ouvintes ou escritores e leitores se comportam como o fazem.

Sendo o comportamento verbal comportamento cujo efeito depende do comportamento de outro indivíduo e comportamento resultado de múltiplas causas, ouvintes/leitores/telespectadores deveriam sempre duvidar de seus interlocutores. 

Embora a noção de múltipla causalidade do comportamento esteja explícita desde o início de O Comportamento Verbal,  Skinner dedicou um capítulo do livro ao tema. Ele iniciou o referido capítulo da seguinte forma:

 

“De nosso estudo sobre as relações funcionais do comportamento verbal emergem dois fatos: 1) a força [probabilidade] de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável e 2) uma única variável costuma afetar mais de uma resposta.” Skinner (1957/1978, p.273)

 

Ou seja, duvide sempre daquilo que você vê, lê, ouve. Como disse o próprio Skinner (1957) em Ciência e Comportamento Humano, “A narrativa é apenas um pedacinho da história”.

 

 

Referências:

 

Skinner, B. F. (1957/1978). O comportamento Verbal. São Paulo: Cultrix.

 

Skinner, B.F. (1953/20003). Ciência e Comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes

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