Este mundo coercitivo

Este blog está prestes a mudar de rumo. Enquanto isso não ocorre, descrevo um caso particular, que mostra o quanto o conceito de liberdade é falho ou, sendo mais precisa, como as relações sociais são mantidas à base de coerção.

 

Meu marido recebeu um comunicado da Serasa, com data de 31 de outubro de 2008. O comunicado diz o seguinte, assim mesmo, em letras maiúsculas:

 

“PREZADO(A) SENHOR(A),

 

PARA A PRESERVAÇÃO DA QUALIDADE E DA SEGURANÇA DOS SERVIÇOS PRESTADOS A COMUNIDADE E O CUMPRIMENTO DO DISPOSTO NO ART. 43, PARÁGRAFO SEGUNDO, DA LEI NR. 8.078, DE 11 DE SETEMBRO DE 1990, COMUNICAMOS QUE RECEBEMOS QUE RECEBEMOS DA INSTITUIÇÃO CREDORA, PEDIDO DE INCLUSÃO EM NOSSOS REGISTROS DA(S) ANOTAÇÃO(OES) ABAIXO DISCRIMINADA(S)”.

 

Em seguida, vêm o nome e o CPF do meu marido, seguidos dos dados da instituição credora, a Eletropaulo. O comunicado da Serasa refere-se a uma conta de luz no valor de R$ 141,84, com vencimento dia 09/10/2008, que não foi paga na data porque não recebemos a referida fatura. Recebemos o comunicado da Serasa dia 05/11/2008, antes, portanto, de um mês de seu vencimento.

Imediatamente entrei no site da Eletropaulo, busquei a segunda via e paguei a conta. No dia seguinte, hoje, (06/11/2008), meu marido liga para a Eletropaulo (0800 723 2425) para avisar sobre o pagamento da referida conta. É atendido por uma secretária eletrônica que diz algo como “Senhor cliente, se você recebeu um comunicado da Serasa sobre um pagamento em atraso efetue o pagamento imediatamente e estará isento da negativação, sem a necessidade de retornar o contato à AES Eletropaulo”.

 

O comunicado  da Serasa termina com o seguinte slogan:

 

“SERASA S. A WWW.SERASA.COM.BR – SERVIÇOS À POPULAÇÃO”.

 

Será que a empresa que se presta a um serviço como este está mesmo a serviço da população?

 

Comento esse episódio porque ele é ilustrativo para as afirmações de Sidman em Coerção e suas implicações (Editora Livro Pleno). O segundo capítulo do livro é “Este mundo coercitivo”. Sidman mostra que o controle pela coerção tem subprodutos que são incompativeis com a sobrevivência da espécie. Mostra também alternativas de controle que não seja pela coerção.

Se nem em um episódio simples como este – uma conta de luz vencida há menos de um mês – conseguimos nos relacionar com o outro de uma forma que não seja pela punição ou pela ameaça de punição, o que será do futuro da nossa espécie?

 

Afinal, somos livres? O que me dizem os defensores do “livre arbítrio”?

Como disse, ao receber tal comunicado, a primeira coisa que fiz foi correr para a Internet e pagar a conta, para evitar possíveis conseqüências desagradáveis para meu marido. Meu comportamento muito possivelmente fortalece o comportamento dos gestores da Eletropaulo de continuar a adotar métodos como esses. De qualquer forma, preferi não correr o risco, até por se tratar de um serviço sem concorrência, portanto, a prestadora de serviço tem poder ABSOLUTO sobre seus consumidores.

 

Não me conformo, porém, que, no nível de desenvolvimento tecnológico atual, uma empresa séria ainda use métodos como esse em situações como essa na relação com seus consumidores. A continuar assim, não vejo futuro promissor para nossa espécie. E o Sidman também não vê.

2 comentários sobre “Este mundo coercitivo

  1. Angelo! É um bloguinho experimental, para as horas vagas. O problema é que tive poucas horas vagas nos últimos tempos, e quando as tinhas, precisava dedicá-las ao meu filho, então o blog nunca foi pra frente. Agora, com o doutorado, achei que, com pessoas como você, poderíamos crir um blog coletivo, para discutir textos de nossas pesquisas, e textos discutidos em aula. O que acha?

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