Sobre a originalidade da escrita

Para quem ainda acredita na originalidade da escrita, vale a pena rever o próprio conceito, tendo por base a opinião de quem é do ramo e afirma o contrário. De forma sintética pode-se dizer que Rachel de Queiroz afirma na seguinte crônica que talento para a escrita implica boa memória, ou, em termos comportamentais, implica bom controle intraverbal.

 

Memórias

 

Rachel de Queiroz

 

No sertão, memória significa talento. É como fala o contador:

 

Não homem como o rei,

Nem mulher como a rainha,

Nem santo como meu Deus,

Nem memória como a minha…

 

Quer dizer, não há também poeta igual a ele, com tanta memória, inspiração e verve. E a gente fica pensando se o talento não será memória mesmo, ou pelo menos fica a calcular quanto a memória não ajuda a empurrar o carro do talento. Explico-me: no complexo de elementos que constituem o talento literário, quanto haverá de simples recordação, e como é pequena a contribuição inventiva.

       Até no modo de falar – nós todos, que temos de falar gracioso porque esse é o nosso meio de vida, que temos de dizer de modo gentil o que os outros pensam mal ou dizem mal (e é isso o estilo) quanto haverá de originalidade no nosso estilo, ou simples repetição nas fórmulas que supomos inventar? Talvez o talento seja, em verdade, apenas a faculdade inconsciente de escolher entre a sucata que a memória armazenou. Ou, pior ainda, talvez o talento seja exclusivamente a memória, mais nada. Uma memória mais discriminativa que as outras, uma memória com bom gosto.

 

    Aliás é ponto pacífico a incapacidade de que padece o homem de conceber de conceber coisas fora de sua experiência. Essa incapacidade se mostra principalmente quando se procura atingir o fantástico, o futuro, o irreal, e não se pode fugir a combinações de formas conhecidas, e quantidades conhecidas. Os autores desses filmes de science-fiction que agora estão em moda, jamais conseguem sair dos caminhos trilhados pela natureza, ou por Deus Nosso Senhor, conforme se queira dizer. Eles apelam para marcianos e venusianos e selenitas, fazem anões, homúnculos, homens-aves, homens-peixe, homens-fera, homens-vegetais, mas são todos incapazes de imaginar um ser qualquer que não tenha forma antes inventada pela natureza. O melhor que se conseguem é uma cruza mais ou menos repulsiva de polvo com passarinho, ou um inseto pensante, ou um repolho inteligente – e nem Freud, nem Cristóvão Colombo, como dizia minha irmãzinha quando era menor, seriam capazes de fugir à batida rotina do já existente.

Isso tudo me ocorre a propósito de certa carta de um rapaz de província, muito jovem e inteligente, na qual me pede para lhe dizer o que é que “faz” o romancista. Eu deveria começar a lhe responder explicando que não sou propriamente uma romancista e, assim, não me sinto qualificada opinar. Ainda outro dia, num jornal de São Paulo, numa crítica que me pareceu muito lúcida e justa (e à qual sou bastante grata, pois a gente gosta de ser inteligentemente interpretada e classificada), disse Ruggero Jacobbi que eu, como ficcionista, sou “fragmentária, dispersiva e impressionista”, faltando-me “aquele impulso centralizador que faz o romance uma síntese compacta”.  E é assim mesmo, Por isso, justamente, nunca me considerei realmente uma romancista, e se tenho consentido que se ponha a palavra “romance” na capa de meus livros, é à falta de outra, ou, como ainda o diz Jacobbi, por “classificação editorial”.  Sempre senti que às minhas histórias falta essa coisa básica do romance que é o enredo. Um sistema compacto de narrativa, tal um rio no seu curso. Comigo é como uma paisagem de lagoas: poça de água aqui, poça de água ali, tudo salteado, descombinado, sem continuidade – e mormente sem a força de corrente que o rio tem. Água parada.

  Mas não era o que eu estava em discussão, era a arte de fazer romances. E opinando portanto “de fora”, e não “de dentro” , do romance , insisto em afirmar ao meu correspondente que creio realmente ser  uma boa memória a qualidade básica do romancista. Memória para fatos, memória para a vida, principalmente memória de si mesmo. Ir enrolando a meada enquanto vive, para a desenrolar enquanto escreve. Naturalmente que há o comentário pontuando as lembranças e há a escolha do que recordar. E há os disfarces mascarando as recordações. E há a linguagem, que é a mise-enscène. Mas memória, memória do consciente e do subconsciente, lembranças acumuladas, imagens, recordações – isso constitui a matéria-prima. Que seria de Proust, ou antes, existiria Proust, se não fossem as suas memórias.

  É esse o motivo de serem melhores os romances em que o autor, sob a capa de ficção, narra a sua própria experiência interior. Fora casos de intuição excepcional, sempre o escritor conta melhor quando se lembra. Por isso é que o romance “romântico” fala tão pouco à nossa alma, ao contar experiências imaginosas, todas fora da experiência do novelista. E também nos deixa frios o romance realista, reportagem que narra coisas vistas “de fora” e não “de dentro”. O escritor que vale, o que comove, o que impressiona, é o põe as próprias vísceras à mostra, das mais nobres às mais sórdidas – coração ou tripa – e conta como se portaram elas em tais e tais circunstâncias. O que se vira pelo avesso e se dá todo, sangrando, chorando. O que saqueia a infância, a adolescência, a força do homem, os seus mais sagrados santuários, revolve amores e ódios, a baixeza ou a pequena grandeza de que seja capaz, e atira isso tudo às feras, quero dizer, ao público, o grande canibal. Canibal que nos devora vivos e às vezes se sente indigesto com o mais fino dos nossos sonhos, ou atira fora, como caroços de azeitona, os pedaços mais rijos do nosso coração partido. Mas não era isso mesmo que nós queríamos?

 

Queiroz, R. (1993). Um alpendre, uma rede, um açude – 100 crônicas escolhidas.São Paulo: Editora Siciliano (pp. 128-131). Obra publicada originalmente em 1958.

 

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