O controle do leitor

Na crônica de Rachel de Queiroz publicada anteriormente, ela questionou a originalidade da escrita. Põe-se tal originalidade em xeque também quando se constata que é a escrita é produto (depende) de muitas variáveis, entre elas, o público, como nota a escritora. 

 

O direito de escrever

 

Rachel de Queiroz

 

Quem mais sofre desse mal é o artista de cinema em Hollywood. A padronização do público, a opinião do público, a pressão do público. Deanna Durbin fracassou, por quê? Porque o público gostava da menina Deanna Durbin, magrinha e adolescente, cantando coisas ingênuas, por exemplo Noite feliz, no telefone, para o papai ouvir. Mas Deanna ficou mulher, quis ser cantora adulta, o público achou que estava sendo desconsiderado, refugou Deanna. Nós, que jamais gostamos de Deanna, menina, moça ou velha, não ligamos para a sentença do público; e por causa disso não percebemos a tragédia da rapariga. Mas tragédia houve, e dessas, por lá, estão acontecendo todo dia. O público gosta de receber aquilo a que está acostumado. E detesta que um camarada a quem se acostumou, mude de cara ou de sistema.

O sujeito escreve uma coisa de determinada maneira, ou apresenta certo tipo no palco, ou compõe uma música para ser cantada de madrugada, entre bêbados. O público gostou, aplaudiu. Nas águas do primeiro êxito o sujeito em questão – o escritor, poeta, ator ou músico – prepara nova obrinha parecida com a primeira. O público torna a aplaudir. Pronto, aí i pobre sujeito está perdido. Porque passou a pertencer ao seu êxito, fica escravo daquele sucesso (sei que é galicismo, obrigada; digo porque acho bonito, que é que tem?) – fica pois escravo daquele sucesso, e do trilho inicial não pode mais se afastar. Pode lhe vir inspiração em qualquer outro sentido. Pode ser ele tentado a seguir caminhos novos – mas é arriscadíssimo deixar-se cair em tentação. É quase certo que seu público não gostará. O público certamente achará péssimo. Se o cronista Rubem Braga, um dos amados do público, deixar de repente de fazer suas crônicas e passar a escrever poemas lindíssimos, tão lindíssimos quanto as crônicas, o público que até hoje o amou lerá os poemas com a sensação de que está sendo furtado; sim, furtado de todas aquelas crônicas que ele estava esperando e que, sub-repticiamente, às suas costas, sem o seu consentimento, foram viradas em poemas. E reclamará, e não comprará o livro de poesias como comprava o livro de crônicas, embora um seja tão bom quanto o outro; mas acontece que, com poemas, ele não está costumado.

Outro ponto a debater é a exigência de imparcialidade que ousam fazer à gente. Por que ser imparcial? Todo artista produz para externar suas paixões, seus recalques, seus conflitos íntimos. Então como é que pode ser imparcial? Por uma comparação: se eu faço uma crônica a favor do Flamengo, todo o mundo cai em cima de mim dizendo: “Ela só escreve isso e aquilo porque é Flamengo.” Ora, meu Deus do Céu, e haverá motivo mais legítimo para escrever pró-Flamengo – do que ser Flamengo? (que eu, aliás, sou Vasco, com muita honra!).

         Pessoas que escrevem, como as que pintam ou representam, são pessoas complicadas, parciais, cheia de personalismos, preferências, tais como as demais pessoas do mundo. E o público gosta da gente justamente quando lhe lisonjeamos as preferências e os personalismos. Aquele de nós que tem mais êxito é precisamente aquele cujas referidas paixões, personalismos, etc., melhor coincidem com os da maioria.

 

 

 De onde se conclui que, além de impraticável, é ingênua essa exigência de imparcialidade. Imparciais, impassíveis e frios são os compêndios de geometria. E que é que paga para ler um compêndio de geometria?

Não, a exigência da imparcialidade só aparece quando a gente está contrariando a opinião do leitor. Ele então, pensando que se mostra muito justo (mas está é danado da vida), vem logo com a história da imparcialidade. O que ele quer dizer porém é isto:”Já que você não concorda comigo, pelo menos não dê opinião – que eu assim tiro as conclusões que mais me agradem…” Pois eu me recuso. O distinto público desculpe, mas recuso. Não abro mão do direito de opinar, e opinar errado, inclusive. Se o distinto público acha ruim, paciência.  Sei que, como escribas assalariados, nós todos, para viver, dependemos do dinheiro do distinto público. Mas como é que dizia aquele boticário que vendeu o veneno a Romeu, no quinto ato da tragédia? “Tu compras a minha pobreza, mas não compras o meu consentimento.” A tradução é livre, mas a idéia é essa. O distinto público compra os nossos escritinhos. Paga às vezes mal, às vezes generosamente. Mas compra só o direito de ler. O resto é nosso. Goste ou jogue fora, não nos obrigue a cortejar as suas opiniões. Se eu sou Vasco, continuo Vasco, até o dia do juízo. Falo bem de quem quero. Falo mal de quem acho que devo. Amo, detesto, prezo, admiro, zombo de quem meu coração pede. E já que começamos com citações, citemos Marion de Lorme, sim, aquela moça heroína do drama de Victor Hugo – outro colega que também sofria da mania de ter opiniões próprias e pagou o diabo por isso. Sim, citemos Marion, logo no primeiro ato:

 

“Je fais ce que je veux, et je veux ce que je dois.

Je suis libre, monsieur!”

 

(Ilha, Janeiro de 1952)

 

Queiroz, R. (1993). Um alpendre, uma rede, um açude – 100 crônicas escolhidas. São Paulo: Siciliano (publicado originalmente em 1958).

 

 

 

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