Influências de Darwin sobre Skinner

 

 

 

Pesquisador da UFSCar  mostra como a teoria de seleção natural, de Darwin, influenciou Skinner na formulação do modelo de explicação comportamental baseado na seleção por consequência.

 

 

 

 

                                Skinner, Darwin e Dawkins: Encontros

                                        José Antônio Damásio Abib

                                Universidade Federal de São Carlos

 

            No Gênesis bíblico, Deus teria criado a diversidade dos seres vivos em sua forma atual. O criacionismo, esse mito da criação do mundo, da vida e da diversidade dos seres vivos, transfigura-se, tal qual camaleão, com terminologia científica, como ciência da criação, modelo da complexidade inicial e teoria do desígnio inteligente, com a finalidade de se legitimar e contestar a teoria da evolução de Charles Darwin, apresentada em seu clássico A origem das espécies, publicado no ano memorável de 1859. Darwin demonstra em A origem que os seres vivos se transformam, que não surgiram em sua forma atual, e fundamenta sua tese em dois processos, a variação casual, denominada de mutação aleatória no neodarwinismo, a combinação das leis da genética mendeliana com o darwinismo, e a seleção natural. As variações casuais entre os indivíduos de uma espécie, como no exemplo de Darwin das doze variedades de carvalho, que na época eram consideradas espécies diferentes, embora somente uma ou duas o fossem, fornecem omaterial para a seleção. As variações que propiciam a sobrevivência dos indivíduos no ambiente em que vivem são selecionadas e preservadas, as prejudiciais são eliminadas. A seleção é cumulativa e lenta e, com o tempo, um longo tempo, dá origem a novas espécies, sendo, portanto, criadora.  

Em sentido amplo, pode-se dizer que Skinner plasma o modelo de seleção por conseqüências no processo de seleção de Darwin e na lei do efeito de Thorndike, lei que, em grande parte, foi devida ao darwinismo. Na expressão ‘seleção por conseqüências’, ‘seleção’ deve-se ao processo de seleção, e ‘conseqüência’, à lei do efeito. Em seu elogio ao artigo de Skinner, Seleção por conseqüências, Richard Dawkins, o eminente neodarwinista, um dos intelectuais mais aclamados da atualidade, disse, em Replicadores, conseqüências e atividades de deslocamento, que o acha “admirável”. E disse mais: disse que a expressão ‘seleção por conseqüências’ é uma boa frase para caracterizar os processos darwinistas. Sendo assim, as variações selecionadas são as que produzem conseqüências com valor de sobrevivência para os indivíduos, como quer Darwin, ou, para os genes, como quer Dawkins. Já as prejudiciais produzem conseqüências sem valor de sobrevivência para os indivíduos ou genes.

Skinner explica a origem dos comportamentos com base no modelo de seleção por conseqüências e, conseqüentemente, polemiza com o modelo da Mente criativa, a versão semi-sagrada da Mente, humana, mas ainda de origem Divina, que, desde tempos remotos, ocupa o lugar dessa explicação. O modelo de seleção por conseqüências carrega consigo o conflito com o criacionismo e com a versão semi-sagrada da Mente. Se até hoje o darwinismo, um século e meio depois de seu aparecimento, é atacado por teólogos, religiosos e filósofos, por quantos séculos o modelo de seleção por conseqüências será submetido a ataques da mesma natureza? Com certeza não estaremos mais aqui para presenciar.

Mas, em que sentido Skinner critica o modelo da Mente criativa na explicação do comportamento? Darwin mostrara em A origem que o advento de novas espécies não obedece a nenhuma Causa Final, a nenhum Plano, Finalidade ou Propósito de um Criador. Não existe uma Mente Sagrada, a Mente do Criador, que teria criado as espécies de acordo com seu Propósito ou Finalidade. Dawkins disse em seu livro A escalada do monte improvável que a variação é aleatória, mas que a seleção é não-aleatória, e que, por essa razão, o darwinismo não pode ser compreendido somente como uma teoria de puro acaso. Isso quer dizer que é o processo de seleção que explica o curso da evolução, seu propósito ou finalidade. Não há, portanto, necessidade de se postular um Criador. Skinner apóia uma tese similar quando defende o processo de seleção contra a Mente criativa: não há nenhuma Causa Final, nenhum Plano, Finalidade ou Propósito de uma Mente criativa na explicação do comportamento. No entanto, nem por isso se deve pensar que ele tenha apoiado a explicação do comportamento baseada na causalidade mecânica (push-pull) da física do século XIX, que na psicologia é bem ilustrada, por exemplo, pelos conceitos de reflexo e fisiologia do reflexo e pela psicologia estímulo-resposta. O modelo de seleção por conseqüências refuta o modelo da Mente criativa por se opor, entre outras razões, às Causas Finais, sem que, por assim fazer, se comprometa com causas mecânicas. Nem o Teleologismo nem o mecanicismo encontram abrigo no modelo de seleção por conseqüências (em uma versão totalmente profana da mente, uma que inscreva sua origem completamente na natureza, deve-se escrever ‘mente’ e ‘teleologismo’, com iniciais minúsculas).

O modelo de seleção por conseqüências dá origem a novos comportamentos de modo similar àquele que o processo de seleção natural dá origem a novas espécies. Uma variação comportamental pode produzir uma conseqüência de valor para o organismo. Quando isso acontece, a variação é selecionada, podendo-se dizer que há um novo tipo de comportamento no mundo. Mas a variação oferece várias possibilidades de seleção. Por exemplo, pode-se ensinar uma criança a falar português, tupi-guarani, árabe, ou qualquer outra língua, selecionando-se variações de um amplo espectro de sons que ela é capaz de produzir desde os seus anos mais tenros. O modelo de seleção por conseqüências gera novas “espécies de comportamentos”. Por analogia, pode-se dizer que, se Darwin escreveu A origem das espécies, Skinner escreveu A origem dos comportamentos.

O conceito de origem do comportamento tem um segundo significado. Uma coisa é explicar a origem de novos comportamentos com base na seleção de variações, outra é explicar a origem das variações que são o material da seleção. Aqui se destacam os conceitos de arranjos acidental e deliberado de condições. Skinner relembra-nos, por um lado, que o arranjo acidental de moléculas mais simples deu origem a moléculas mais complexas (as variações características da vida). Baseando-se no neodarwinismo, relembra-nos que o arranjo acidental de genes deu origem às variações fenotípicas dos organismos. Argumenta, então, que novos comportamentos podem ser gerados pelo arranjo acidental de contingências ambientais. O psicólogo americano diz, por outro lado, que os cientistas inventam novas moléculas, bem como alteram material genético, com o arranjo deliberado de condições que provavelmente não aconteceriam acidentalmente. E diz, enfim, que o arranjo deliberado de contingências ambientais pode gerar comportamentos novos que provavelmente também não ocorreriam por acidente. Mas, note-se bem, nos três casos, seja com arranjos acidentais ou deliberados, os resultados são imprevisíveis. Com efeito, pois se fossem previsíveis, seriam triviais, não seriam originais. Referindo-se ao comportamento, eis o que ele diz em Tecnologia do ensino: “não podemos ensinar comportamento original, desde que não seria original se fosse ensinado, mas podemos ensinar o estudante a arranjar ambientes que maximizem a probabilidade de que ocorram comportamentos originais” (1968, p. 180). A Mente do Criador sofre mais um golpe, agora, na explicação da vida, e a Mente criativa, atacada em seu último reduto, agoniza em seu dilaceramento mais profundo.

Em textos como Criando o artista criativo e Uma leitura sobre tendo (having) um poema, o pensador americano afirma que descobertas científicas e invenções artísticas e literárias podem ser explicadas em termos do arranjo acidental de contingências e vincula sua discussão sobre criatividade ao livro A origem das espécies que “é essencialmente um estudo sobre originalidade” (Criando, 1970/1999, p. 385). Em Tecnologia do ensino, descreve um arranjo deliberado de contingências ambientais que enfatiza a construção de metáforas, a leitura de um autor do ponto de vista do leitor, o afrouxamento da leitura precisa de textos, o afastamento de comportamentos reprodutivos e o envolvimento com ambientes e atividades plenos das finalidades imaginadas, por exemplo, se quiser ser músico, viva em ambientes musicais, ouça música, leia sobre música, fale sobre música, sonhe com música, transforme sua vida em música. Espera-se, evidentemente, que o arranjo deliberado dessas contingências propicie o advento de comportamentos originais. Porém, não é possível predizer quais serão esses comportamentos, pois pode ser, por exemplo, que a pessoa que respira música, ao final não aprenda sequer a assobiar! No entanto, caso apresente uma “variação comportamental musical”, sai-se bem no piano, na composição musical, ou na história de música, o processo de seleção pode entrar em cena. E, embora as variações estejam sempre à espreita, tornando impossível descartar completamente conseqüências imprevistas, efeitos perversos e possibilidades improváveis, pode-se, com alguma previsão e controle, modelar um comportamento original, cuja originalidade é, de início, fenômeno da variação, e depois, da seleção, e trazer ao mundo um compositor ou um historiador ou um pianista como nunca se viu!

É possível intervir no processo de seleção. Com efeito, nos casos dramáticos das práticas culturais atuais que levam à exaustão dos recursos naturais, ao aquecimento global, à poluição ambiental e superpopulação, bem como à ameaça sempre presente do holocausto nuclear, pode-se esperar que, por meio do arranjo deliberado de novos ambientes educacionais, surjam práticas culturais inéditas, sem previsão e controle de quais efetivamente sejam, que tenham condições de interferir no processo de seleção das práticas deletérias atuais. Mas, então, novamente o processo de seleção pode vir à cena para, em princípio, com previsão e controle, modelar e dar forma final às práticas que forem mais adequadas àquela finalidade. Evidentemente, pode-se também planejar práticas culturais e sugeri-las às comunidades interessadas como variações a serem submetidas ao processo de seleção com a finalidade de verificar se têm ou não valor no combate às atuais práticas nocivas às culturas.

A origem das espécies é um estudo sobre originalidade, foi o que Skinner disse. A obra de Skinner, A origem dos comportamentos, é também um estudo sobre originalidade. Um explica a criação de novas espécies, o outro explica a criação de novos comportamentos. Darwin e Skinner elaboraram teorias da criação, mas os agentes da criação são o acaso e a seleção. Como Dawkins ressaltou, o acaso é mutação aleatória, mas a seleção é não-aleatória. Há no modelo de seleção por conseqüências um elemento de desordem: o acaso criador. Mas há também um elemento de ordem: a seleção criadora do que tem valor, do que ajuda a sobreviver, do que é bom, e até do que inútil, o belo, que depende de nós. Se do acaso surgir Afrodite, por que não modelá-la? Os destinos do acaso dependem de mãos in totum mergulhadas em variações. Existe uma imprevisibilidade imanente no modelo de seleção por conseqüências.

 

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