ABPMC rebate críticas de Luciano Elia

Em janeiro, o professor Luciano Elia, da UERJ, divulgou uma carta aberta sobre o tratamento de autismo em que critica as práticas da psicologia comportamento no atendimento a pessoas com esse diagnótico. Com base nas críticas do professor, pode-se inferir, no mínimo, que ele não conhece as práticas da análise do comportamento tampouco os avanços da área nessa e em outras áreas do comportamento. A Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental (ABPMC) respondeu à carta do professor nos seguintes termos: 

 

“São Paulo, 12 de março de 2009.

Prezado Professor Luciano Elia,
Escrevo- lhe na qualidade de Presidente da Associação Brasileira de
Psicoterapia e Medicina Comportamental (ABPMC), fundada há dezoito anos,
com sede atual em Campinas, São Paulo, e também motivada por seu oportuno
convite ao debate acadêmico e científico sobre o tratamento ao autismo no
Brasil.
A ABPMC é um grande fórum científico e profissional de reunião e
discussão da abordagem comportamental no Brasil, solidamente instalado,
tendo
em seu banco de dados 4000 nomes de pessoas interessadas na abordagem
comportamental e com um quadro atual de sócios de 1800 pessoas, reunindo
pesquisadores, profissionais e alunos envolvidos com a prática e com a
produção
de conhecimento na abordagem comportamental (Análise do
Comportamento). Dentre eles, há inúmeros sócios, sejam pesquisadores ou
terapeutas, que atuam no atendimento a pessoas diagnosticadas como autistas,
no
desenvolvimento de programas eficazes, com fundamentação científica, que
ensinam múltiplas competências a estas pessoas, seja na esfera da linguagem,
seja
na esfera da socialização e outras.
Nesse sentido, vimos esclarecer que o tratamento comportamental a pessoas
com o diagnóstico de autismo é amplamente empregado no Brasil (e não apenas
no EUA, como apontado em sua carta), com resultados excelentes, no tocante à
melhoria na vida dessas pessoas. Obviamente que tais programas
comportamentais
são eficazes justamente porque não se restringem apenas ao ensino de AVD
(atividades de vida diária), tal como é injustamente apontado em sua carta,
indicando seu aparente desconhecimento do que se faz em autismo no Brasil na
abordagem comportamental.
O professor João Claudio Todorov, também membro do conselho diretor da
ABPMC, enviou-lhe recentemente uma carta e fazemos nossos os veementes
protestos por ele apresentados, “por algumas inverdades e alguns exageros de
suas
acusações à análise comportamental aplicada (ABA, do inglês Applied Behavior
Analysis)” e sobretudo pelo trecho em que o senhor caracteriza a abordagem
comportamental equivocadamente como o “reducionismo comportamentalista”
que “adestra crianças através de técnicas impositivas”. Tal como o professor
Todorov apontou, tal trecho de sua carta exibe um inaceitável conceito do
que se
faça na Análise do Comportamento em autismo,seja no Brasil, seja no mundo.
Inaceitável porque há um considerável volume de trabalhos publicados em
grandes
periódicos científicos, nacionais e internacionais, bem como livros,
demonstrando
a sustentabilidade científica e eficácia dos programas de intervenção
comportamental a pessoas com autismo (periódicos tais como o Journal of
Applied
Behavior Analysis, Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva,
Revista Brasileira de Análise do Comportamento, Coleção “Sobre Comportamento
e Cognição”, apenas para citar alguns). Mesmo uma breve leitura de nossos
trabalhos revelaria, rapidamente, a amplitude e o alcance social das
questões por
nós abordadas, bem como o profundo respeito que demonstramos, em cada
trabalho, à individualidade e singularidade do ser humano. Nossos programas
de
atendimento são, inclusive, abreviados por PEI ( Programas de Ensino
Individualizados). Tal como Todorov apontou, “o colega desconsidera o fato
de
que os Analistas de Comportamento brasileiros estão na linha de frente do
desenvolvimento da psicologia como ciência e profissão, destacando-se, entre
outras áreas de atuação, no trabalho com crianças autistas”.
Sendo assim, solicito-lhe que, em respeito à diversidade teórica, tão
apregoada em sua carta, com o que concordamos, que re- encaminhe sua carta
aberta para os meios em que ela circulou, fazendo as devidas correções
quando há
a menção à abordagem comportamental. Há termos que são, inclusive,
ofensivos,
tal como o verbo “adestrar”, inconcebível em um diálogo de alto nível
acadêmicocientífico
entre colegas (além de presidente da referida associação, ABPMC, sou
também professora do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade
de São Paulo, desenvolvo pesquisas e programas de inclusão social também de
crianças diagnosticadas com autismo e Coordenadora do Programa de Pós
Graduação em Psicologia Experimental da USP).
Afora este sério problema de equívoco na descrição da abordagem
comportamental ao tratamento do autismo, que precisa ser urgentemente
corrigido,
reiteramos nossa boa vontade em participar do Fórum sobre o autismo e nos
colocamos à disposição para futuros contatos.

Prof. Dra Maria Martha Costa Hübner
Presidente da ABPMC
Biênio 2008 a 2009″

5 comentários sobre “ABPMC rebate críticas de Luciano Elia

  1. Olá Maria, primeiro quero te dar os parabéns por ter coragem de encarar novos horizontes acadêmicos. A análise do comportamento é inspiradora e me identifico com você quando diz que nunca aprendeu tanto em tão pouco tempo. Sou psicóloga, pós-graduanda em Análise Comportamental Clínica e já trabalhei com crianças autistas. Gostei muito de ler seu blog e de poder encontrar aqui esse “debate” iniciado pelo Luciano Elia. Discutir AC é importante para nós…precisamos parar de falar para nós mesmos! Alguém de outra área que resolve estudar ciência do comportamento contribui bastante para mudar a visão pobre de que “adestramos” pessoas. Forte abraço!

  2. Parabéns. Gostaria de acrescentar que não apenas no trabalho relacionado ao autismo, como também em QUALQUER área de atuação, o objetivo da Análise do Comportamento nunca foi, nem será, “adestrar” pessoas. Estamos falando de seres humanos, e esta abordagem trata o ser humano como um todo, olhando para cada indivíduo como um ser único, com suas peculiaridades. As críticas de que a A.C. é “reducionista” já está no mínimo fora de moda… seria muito bom que professores como este estudassem mais sobre a FILOSOFIA do Behaviorismo e a história de sua evolução como CIÊNCIA antes de pautar suas críticas em “achismos”… Proveniente de um integrante do meio acadêmico, trata-se de algo muito desagradável, eu diria inaceitável. Para não falar simploriamente que: falar assim é feio, professor…. Novamente, meus parabéns à réplica da Prof. Dr. Martha Hübner, cujo trabalho tem se demonstrado brilhante.

  3. Sinceramente Dra Maria senti falta na sua carta-resposta de uma argumentação um pouco mais explicativa de porque não é adestramento e das técnicas e efeitos da cognitivo comportamental nestes casos. Não basta dizer que não é assim ou que isso ou aquilo é ofensivo , mas responder evidenciando e argumentando, do contrário ficamos numa troca de contestações sem fundamento. Mas, sinceramente, tenho curiosidade por sua experiência e argumentação, ao menos iniciais a esse debate. Luiz Felipe

    1. Apenas quero dizer que concordo com o Luiz Felipe. Acho que sem mais esclarecimentos fica difícil entender a análise do comportamento. Não são “achismos” como diz a colega, são críticas que vemos e escutamos todo tempo de vários profissionais da saúde. Embora eu ache o método eficaz, não o acho “digno”, ao que me parece, e não é só minha opinião, esse médoto não inclui, em hipótese alguma, a individualidade e singularidade da criança com autismo. Se não me falha a memória, em uma instituição muito conhecida e reconhecida por seu método comportamental, ela utiliza, por exemplo, o “brincar” como recompensa para a criança que realiza sem falhas uma atividade repetida dez vezes pelo menos. Depois vocês ainda dizem que não é “adestramento”? Engraçado, o que isso diferencia do método que uso com meu cachorro? Pois, se quero que ele pegue a bola, repito isso dez vezes e se ele o fizer eu lhe dou um chocolatinho. Meu cachorro esté condicionado à algo que eu provoquei, o mesmo posso dizer da criança com autismo que vivencia o método comportamental. Muda algo? Porque se é diferente, Sra. Maria, é melhor você explicar mais cientificamente não acha? Do contrário, como pensar diferente não é mesmo? Beatriz S. S. Braga.

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