Sobre as declarações preconceituosas de Caetano Veloso

Em entrevista a Sonia Racy publicada no Caderno 2 do Estado de São Paulo (5/1/2009) Caetano Veloso afirmou:

“Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.”

O trecho aparece duas vezes no jornal, como se indicasse a intensidade da convicção de Caetano – ou da jornalista, que editou a entrevista – a respeito das críticas a Lula. No segundo momento em que o mesmo trecho aparece no jornal, foi precedido da seguinte frase de Caetano: “Pode botar ai”. É como se indicasse que não fora apenas uma declaração infeliz do artista.  E segue-se exatamente o mesmo trecho citado anteriormente.

Afirmações de Caetano não combinam com a história dele, com o ar de intelectual que ele parece exibir. Se ser intelectual é pensar desse jeito,  eu preferiria ser analfabeta. Principalmente se fosse uma “analfabeta” tipo Lula.  Mas para não ficar só no que penso, vamos a outras opiniões sobre a construção de conhecimento. Por que será que achamos que só obtemos conhecimentos por meio de canudos? Conhecimento, numa perspectiva analítico-comportamental, indica comportamento modelado pela relação direta do indivíduo com o ambiente físico ou modelado por um meio social (GUERIN, 1992). Em ambos os casos, conhecer é ser capaz de se comportar adequadamente, de forma verbal ou não verbal, em determinado contexto, com relação a determinados aspectos do mundo (SKINNER, 1957; GUERIN, 1992; TOURINHO, 2003).  Quantos alunos saem com diplomas de universidades prestigiosas e não são capaz de demonstrar conhecimento ou ser capaz de se comportar de acordo com a situação?

 Diz-se que uma criança se comporta de forma adequada diante, digamos, de um forno quente, quando, nessa situação, ela emitir comportamento adequado – não tocar o forno – ou quando for capaz de descrever a contingência de reforço –  afirmar, por exemplo, que tocar forno quente produz queimadura na pele. O estabelecimento desse comportamento pode ter ocorrido pela relação direta da criança com o ambiente – em dada ocasião ela tocou o forno quente e obteve como conseqüência uma estimulação aversiva típica. Nesse caso, afirma-se que a criança sabe como. A criança, porém, não terá de entrar em contato direto com o ambiente físico para saber que forno quente, em contato com a pele, produz estimulação aversiva particular. Ela pode chegar a esse mesmo conhecimento – saber que – pela instrução da comunidade verbal (GUERIN, 1992).

 Imaginemos, agora, quantas oportunidades o Lula tem tido de obter conhecimento seja pela relação direta dele com o ambiente físico – que faz com que ele saiba como é, por exemplo, o sertão nordestino ou Paris, e não apenas conheça esses locais pelo relato de outras pessoas – seja pelas relações sociais que ele, de modo particular porque escolheu a política como área de atuação, tem passado. É no mínimo ignorância – para não dizer preconceito – chamar o homem de analfabeto. 

Que Caetano critique o governo, certamente há muito que ser criticado. Mas que seja uma crítica honesta, baseada em fatos, e não apenas uma crítica que, como diria Claudio Lembo, remete apenas ao rancor da elite branca.

Cito um trecho de Pierre Lévy, autor que certamente não é desconhecido de Caetano Veloso. O trecho está no livro Inteligência Coletiva. Lévy afirma o seguinte (os grifos foram acrescentados):

“Competência, conhecimento e saber (que podem dizer respeito aos mesmo objetos) são três modos complementares do negócio cognitivo, e se transforma constantemente uns nos outros. Toda atividade, todo ato de comunicação, toda relação humana implica um aprendizado… Postulemos explícita, aberta e publicamente o aprendizado recíproco como mediação das relações entre os homens… As consequencias éticas dessa nova instituição da subjetividade são imensas: quem é o outro? É alguém que sabe. E que sabe as coisas que eu não sei. O outro não é mais um ser assustador, ameaçador: como eu, ele ignora bastante e domina alguns conhecimentos. Mas como nossas zonas de inexperiência não se justapõem ele representa uma fonte possível de enriquecimento de meus próprios saberes. Ele pode aumentar meu potencial de ser, e tanto mais quanto mais diferir de mim. Poderei associar minhas competências às suas, de tal modo que atuemos melhor juntos do que separados…Se os outros são fonte de conhecimento, a recíproca é imediata. Também eu, qualquer que seja minha provisória posição social, qualquer que seja a sentença que a instituição escolar tenha pronunciado a meu respeito, também sou para os outros uma oportunidade de aprendizado. Por meio de minha experiência de vida, de meu percurso profissional, de minhas práticas sociais e culturais, e dado que o saber é  co-extensivo à vida, ofereço recursos de conhecimento a uma comunidade.Mesmo que esteja desempregado, que não tenha dinheiro, não possua diploma, mesmo que more em um subúrbio, mesmo que não saiba ler, nem por isso sou ‘nulo’… Ninguém sabe tudo, todos sabem alguma coisa, todo o saber está na humanidade. Não existe nenhum reservatório de conhecimento transcendente… A luz do espírito brilha mesmo onde se tenta fazer crer que não existe inteligência: ‘fracasso escolar’, ‘execução simples’, ‘subdesenvolvimento’ etc. O juízo global de ignorância volta-se contra quem o pronuncia.

Atualizando

Caetano “esclarece” fala sobre Lula (Estadão, edição de hoje, 10/11/2009). Clique aqui.

Que falta nos faz Stanislaw Ponte Preta…

Aqui, leia artigo cortante de José Celso Martinez Corrêa sobre a polêmica envolvendo o tropicalista e o presidente.

Referências:

 GUERIN, B. Behavior Analysis and Social Construction of Knowledge. American Psychologist, Washington, DC, v. 47, n.11, p. 1423-1432. November, 1992.

Lévy, P. (1998).  A Inteligência Coletiva.  São Paulo, Edições Loyola.

Skinner, B.F. Verbal Behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957. 478p

TOURINHO, E.Z. A produção de conhecimento em Psicologia: A Análise do Comportamento. Psicologia Ciência e profissão, v.23, n. 2, 30-41. 2003.

 

Um comentário sobre “Sobre as declarações preconceituosas de Caetano Veloso

  1. Tenho até medo da sua inteligência!
    Sua mãe certamente se orgulharia muito da filha jornalista, futura doutora, crítica, justa….

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s