Comportamento verbal na internet

A consequência para o comportamento de caminhar em direção a um copo de água geralmente é segura. Quando a mesma consequência – o copo de água – depende do comportamento de outra pessoa – de alguém se deslocar e pegar o copo de água para nós – a consequência não é inevitável como no primeiro exemplo. No primeiro caso, estamos falando de comportamento não-verbal. Ninguém depende necessariamente de linguagem para caminhar numa determinada direção e pegar um copo de água. No segundo caso, depende da linguagem. Depende de conseguir afetar o outro numa determinada direção. Dito isso, vamos a uma discussão proposta por Skinner (1957) sobre as diferenças de força do comportamento verbal e não-verbal. O autor destaca, entre outros pontos, que  embora as consequências do comportamento verbal sejam sempre atrasadas (já eu dependem do comportamento de outras pessoas) o reforço pode ser de grande magnitude. Segundo o autor:

“O fato de os efeitos do comportamento verbal podem multiplicar-se, expondo muitos ouvidos às mesmas ondas sonoras ou as mesmas páginas a muitos olhos, constitui de certa forma uma compensação para os efeitos enfraquecidos do reforço intermitente ou atrasado. Mesmo sem o auxílio do instrumental moderno, o comportamento verbal pode alcançar milhares de ouvintes ou de leitores ao mesmo tempo, e sobreviver durante séculos. O escritor pode não ser reforçado com freqüência ou de imediato, mas seu reforço pode ser grande. A condição final de força [do comportamento] será determinada por todos os fatores num dado caso. Nesse aspecto, a diferença entre o comportamento verbal e o não-verbal é reduzida, pois a tecnologia amplia e estende o âmbito do último” (B.F. Skinner, 1957/1978, p.247).

Cito o seguinte trecho de Skinner para mostrar o quanto o autor foi revolucionário em sua época. O livro Verbal Behavior foi escrito durante um período de mais de 20 anos. A primeira verão foi publicada em 1957 e o autor faz uma afirmação como essa.

Esse trecho de Skinner veio-me à tona (essa não é uma forma boa de introduzir a questão porque fica parecendo que o trecho da obra de Skinner está armazenado em algum lugar do meu corpo, quem sabe no cérebro, mas tanto isso não é verdade que precisei voltar à obra de Skinner para conferir a citação exata, página etc).  Mas como ia dizendo, um fato recente fez-me lembrar a afirmação anterior de Skinner. Trata-se da questão envolvendo a Folha de São Paulo e o jornalista Luis Nassif.

Nassif deu uma entrevista à Folha de São Paulo, que editou a entrevista do ex-colaborador de forma jornalisticamente questionável – para dizer o mínimo. É um típico caso da execução de uma pauta para fortalecer a hipótese do editor e os fatos que se danem. Ou pior: uma pauta com o objetivo explícito de desacreditar críticos do jornal e de seus afilhados políticos. Ou seja, não se trata de jornalismo e sim de política.

Nassif publicou um post em que rebate as crítica do repórter da Folha e no qual incluiu as perguntas do repórter e as próprias repostas a essas perguntas. Leia aqui a texto. Note o tom de interrogatório do repórter, que parece mais um delegado de polícia. Veja a seguir no link anterior a  matéria publicada pela Folha.

Agora faça uma busca na Internet com o título do post de Nassif – A escandalização da Folha e observe quantos sites reproduziram o texto de Luis Nassif. Além da repercussão na internet, considere que até por volta das 11h deste sábado (13/3) no blog de Nassif foram publicados quase mil e 100 comentários ao referido post. Quase todos apoiando o jornalista e criticando a FSP.

Agora volte à citação de Skinner. Se você tiver o livro do autor, leia o subtítulo completo do qual retirei a citação. E veja o quanto Skinner foi revolucionário, muito à frente de seu tempo. Se você nunca ouviu falar nesse livro, clique aqui para visitar o site da Fundação B.F. Skinner e conhecer mais sobre o autor.

A questão leva a outra discussão: põe em xeque o papel da chamada grande imprensa como agência de controle controle comportamental diante das novas tecnologias que permitem que qualquer cidadão possa disseminar o produto do próprio comportamento verbal, portanto, facilitam o contracontrole.

Essa discussão põe em chque também a função tradicional de emissor e receptor no discurso verbal, uma vez que emissor e receptor podem ocupar a mesma função quase simultaneamente.  E porque desde o início de nossas interações com o mundo fomos ensinados ora a ouvir ora a falar, participar de um processo de comunicação como este tende a ser mais reforçador, masi agradável e enriquecedor para o consumidor do conhecimento que é produzido socialmente do que em situações em que o consumidor apenas interage com o produto do comportamento de outras pessoas, sem poder colaborar com a construção desse produto.

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