Criatividade e comunicação científica

Esta semana discutimos em uma das aulas do PEXP criatividade no pesquisar científico. Concluiu-se que não é possível definir comportamento criativo porque criatividade envolve muitos comportamentos diferentes estudados por diversas áreas dentro da análise do comportamento (variabilidade, solução de problemas, comportamento novo, insight) e fora da área.

No entanto, seja qual for a noção de “criatividade” adotada na atividade de pesquisa, penso que ela terá de envolver, em alguma medida, escrita, comunicação e difusão do conhecimento produzido.  A meu ver o pesquisador que recebe o rótulo de criativo deveria se comprometer com comunicação e difusão do conhecimento que produz ou deveria contar com pessoas especialmente preparadas para ajudá-los nessa tarefa. Em vez de esperar que a sociedade vá até o cientista para descobrir o que ele está descobrindo, o cientista deveria ter compromisso formal de levar ao público (não apenas aos pares) suas descobertas.  

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Pesquisa indica que a linguagem da comunidade científica anda cada dia mais inacessível (clique aqui para ler uma pesquisa sobre a inacessibilidade da ciência). Qual será a origem do problema? Será que não faltam a cientistas treino formal para aprender a difundir de forma eficiente (de forma a afetar o ouvinte) o connhecimento que produz?

Para refletir sobre essa questão cito dois trechos de Robert Barrass, autor do livro Os Cientistas Precisam Escrever.  Barrass considera que falta treino formal para a escrita científica:

“Escrever é parte da ciência. Não obstante, muitos cientistas deixam de receber treinamento da arte de escrever. Há uma certa ironia no fato de ensinarmos nossos cientistas e engenheiros a utilizarem instrumentos e técnicas, muitas das quais jamais utilizarão em sua vida profissional, e, no entanto, não os ensinamos  a escrever. Escrever é o que eles precisarão fazer todos os dias…  Escrever ajuda a  lembra, a observar, a pensar”.

Sobre a popularização da ciência, Barrass afirma:

“Os cientistas devem escrever relatos formais de seu trabalho para publicação em revistas lidas especializadas mas devem se preocupar com a compreensão de seus trabalhos por leitores leigos no tema. “Se não nos preocuparmos com a divulgação da ciência, ou com o debate  sobre o impacto da ciência na sociedade, não deveremos nos surpreender se a ciência e a tecnologia permanecerem um livro fechado….Escrever bons livros para os jovens é uma das mais importantes obrigações de cada geração de cientista…(Barrass, 1979,p.29).

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Marcelo Gleiser, em A Dança do Universo – Dos mitos de Criação ao Big-Bang afirma o seguinte:

“Gosto de comparar o cientista que escreve sobre ciência para o público em geral como um tradutor tentando encontrar modos para descrever certas imagens e idéias em uma nova língua que talvez não seja tão adequada quanto a língua original, no caso a matemática. Inevitavelmente, algo será sempre perdido na tradução, certas idéias e imagens terão seus significado obscurecidos ao serem expressas dentro de outra estrutura lingüística. Como solução, frequentemente apelarei para sua imaginação, invocando as imagens da vida diária que irão ajudar na elucidação de certos aspectos mais técnicos. Assim como em música não é necessário saber ler uma partitura para poder apreciar a beleza de uma sinfonia, em física tampouco se precisa saber resolver uma equação para apreciar a beleza de uma teoria”… A ciência vai muito além de sua mera prática. Por trás das fórmulas complicadas, das tabelas de dados experimentais e da linguagem técnica, encontra-se uma pessoa tentando transcender as barreiras imediatas da vida diária, guiada por uma insaciável desejo de adquirir um nível mais profundo de conhecimento e de realização própria. Sob esse prisma, o processo criativo científico não é assim tão diferente do processo criativo nas artes, isto é, um veículo de autodescoberta que se manifesta ao tentarmos capturar nossa essência e o lugar no universo.  (pp.13-17).

No caso da análise do comportamento, quais seriam desafios e possibilidades para a difusão da área?

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