Como o comportamento individual interfere em fenõmenos sociais e vice-versa

O trecho a seguir faz parte do livro Memórias póstumas de Brás Cubas, publicado originalmente em 1880. Vejam que análise requintada e esclarecedora de Machado de Assis, ao tentar demonstrar como comportamentos no nível individual podem afetar a vida do grupo e vice-versa. Acho que li este livro pela primeira vez quando me preparava para fazer vestibular. Claro está agora para mim que eu não dispunha de repertórios suficientes para compreender sofisticadas análise do autor sobre a complexidade da vida em sociedade. E disso que Rubem Alves trata ao afirmar, neste vídeo, que educar é ensinar a ver,  e palavras só têm sentido se nos ajudam a ver melhor o mundo ao redor.

O caso provável

Se esse mundo não fosse uma região de espíritos desatentos, era escusado lembrar ao leitor que eu só afirmo certas leis, quando as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me à admissão da probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitui o presente capítulo, cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo de fenômenos sociais. Segundo parece, e não é improvável, existe entre os fatos da vida pública e os da vida particular uma certa ação recíproca, regular, e talvez periódica, – ou para usar de uma imagem, há alguma coisa semelhante às marés da praia do Flamengo e de outras igualmente  marulhosas. Com efeito, quando a onda investe a praia, alaga-a a muitos palmos a dentro; mas essa mesma água toma ao mar, com variável força, e vai engrossar a onda que há de vir,  e que terá de tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a aplicação.

Deixei dito noutra página que o Lobos Neves, nomeado presidente da província, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era 13; ato grave, cuja consequência foi separar o ministério o marido de Virgília. Assim, o fato particular da ojeriza de um número produziu o fenômeno da dissidência política. Resta ver como, tempos depois, um ato político determinou na vida particular uma cessação de movimento. Não convindo ao método deste livro descrever imediatamente esse outro fenômeno, limito-me a dizer por ora que o Lobo Neves, quatro meses depois de nosso encontro no teatro, reconciliou-se com o ministério; fato que o leitor não deve perder de vista, se quiser penetrar a sutileza do meu pensamento.

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O trecho está na página 58 de Memórias póstumas, que pode ser lido integralmente aqui.

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