Alguns problemas do controle aversivo

Revendo uma VL (verificação de leitura) de 2009 quando fazia o curso CIÊNCIA E COMPORTAMENTO HUMANO: UMA LEITURA CRÍTICA, com a Téia.

1. Como você entende a distinção entre “efeitos imediatos” e “efeitos duradouros” da punição?

Por “efeitos imediatos” da punição, Skinner (1953) parece referir-se à supressão momentânea do comportamento punido, pela emissão de respostas incompatíveis com esse comportamento. O autor cita como exemplo beliscar uma criança que ri na igreja. O beliscão elicia respostas que são incompatíveis com o riso. “Embora nossa ação possa ter outras consequências, podemos especificar o efeito competente das respostas eliciadas pelo estímulo punidor… o efeito vigente é simplesmente a eliciação de comportamento incompatível – respostas apropriadas, por exemplo, ao medo” (p.203).

Skinner esclarece o termo “os efeitos imediatos da punição” com dados de um experimento com procedimento de extinção, em que as primeiras respostas dos sujeitos foram punidas. O autor relata que, nesse experimento, embora a punição das primeiras respostas, no início da curva de extinção, reduzisse momentaneamente o responder, quando a punição era retirada o organismo voltava a responder conforme padrão típico de extinção. Ainda influenciado pelo conceito de reserva de resposta, Skinner concluiu que, “o efeito da punição foi uma supressão temporária do comportamento, mas não uma redução no número total de resposta.

Por efeitos duradouros da punição, Skinner (1953) parece referir-se a um conjunto de mudanças comportamentais produzidas por contingências aversivas típicas de punição. De forma genérica, esse conjunto de mudanças parece estabelecer: (1) o próprio comportamento punido como fonte de estimulação aversiva, que produz predisposições emocionais incompatíveis com a resposta originalmente punida; (2) condições aversivas que são evitadas por quaisquer comportamentos de “fazer qualquer outra coisa”, que seja diferente do comportamento que produziu punição.

Predisposições emocionais, produzidas pela punição, descritas usualmente como “culpa”, “vergonha” ou “sentimento de pecado”, não são produzidas apenas por comportamentos explicitamente punidos, como afirma Skinner, “mas por qualquer ocasião externa consistente com esse comportamento. O indivíduo pode se sentir culpado em uma situação na qual foi punido. Podemos controlá-lo pela introdução de estímulos que causem esse efeito“ (p.205).

No exemplo da criança, cujo riso na igreja foi punido com beliscões, o próprio comportamento de rir pode produzir estímulos condicionados que evocam respostas emocionais incompatíveis com o riso. A contingência pode ser descrita da seguinte forma:

Riso na igreja → beliscões → respostas incompatíveis com o rir. Nessas condições, o riso assume função de estímulo aversivo condicionado, e passa a eliciar, sem a necessidade dos beliscões, respostas incompatíveis com o rir.

Porque rir na igreja foi seguido de beliscões, qualquer comportamento incompatível com o riso tornar-se reforçador. Esse parece ser o terceiro efeito [duradouro] da punição, ou seja, a instalação de comportamentos que foram selecionados e são mantidos porque no passado evitaram a punição. Para Skinner, esse é o efeito mais importante da punição, ou seja, estabelecer quaisquer comportamento incompatíveis com o comportamento punido como reforçador.

 No entanto, se o comportamento for eficiente em evitar a punição, passa a se enfraquecer passo a passo até que perder sua efetividade.  A resposta anteriormente punida, cuja probabilidade continua alta, é emitida e o indivíduo entra em contato novamente com a punição, novamente o comportamento que se estabeleceu por evitar a punição se fortalece e o ciclo – chamado por Sidman (1989/2003) de paradoxo da esquiva – recomeça.

Comportamentos instalados e mantidos por contingências aversivas típicas da punição não são, necessariamente, mais “adequados” socialmente ou mais eficientes para o bem-estar do indivíduo, do que o comportamento originalmente punido. Como Skinner enfatizou, diante de uma contingência que sinaliza punição, estar seguro pode significa simplesmente “não fazer nada” (Skinner, 1953, p. 2006). A punição, como afirma o autor, no longo prazo traz “desvantagem tanto para o organismo punido quanto para a agência punidora” (p.199). Além de predisposições emocionais, Skinner cita predisposição para fugir, retrucar e ansiedades perturbadoras. Com base na afirmação de Matos (1982), a seguir, talvez seja possível acrescentar, na descrição de Skinner, mais um efeito da punição: a redução dos efeitos “agradáveis”dos reforçadores positivos.  Segundo Matos:

Embora eu possa planejar um mundo e uma série de opulências e riquezas a serem desfrutadas, embora eu possa planejar um novo sistema educacional relativamente perfeito, embora eu possa planejar até um homem novo e todo um esquema de interações pessoais, nada disso funcionará se eventos “desagradáveis” ocorrerem também… Se eventos desagradáveis ocorrerem nesse mundo, juntos com essas opulências e riquezas, ou após essa aprendizagem e desfruto, tudo seria como se esse fruto fosse amargo, como se a coisa aprendida não pudesse ser retida, como se a interação fosse um silêncio. (Matos, 1982, p.3)

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