Sobre a importância do comportamento verbal na política

Doris Graber (Verbal behavior and politics) caracteriza comportamento verbal na política, de forma simplista, como segue:

Quando A formula uma mensagem verbal e transmite-a a B, isso é comportamento verbal. Consciente ou subconscientemente, A seleciona ideias para verbalização. Mais ou menos deliberadamente escolheu palavras com as quais deseja expressar-se. A escolha de palavras pode ter sido orientada pelo desejo de evocar determinadas respostas cognitivas, apreciativas e efetivas no receptor da mensagem. Quando o comportamento verbal ocorre em um contexto com significância política, entra no escopo de estudo apresentada em Verbal Behavior and politics.

Á primeira vista, tem-se a impressão de que a afirmação anterior da autora é incompatível com as afirmações de Skinner (1957). Uma leitura mais cuidadosa do referido trecho pode sugerir que a autora, embora não tenha se expressado em termos comportamentais, apresenta alguns elementos encontrados nas formulações de Skinner (1957). Na caracterização do próprio objeto de estudo Graber destaca a necessidade de:

a) Existirem pelo menos duas pessoas envolvidas no processo verbal: falante (que ela chama de emissor) e ouvinte (receptor).

b) A “escolha” das palavras (seleção do repertório) pela audiência.

c) O contexto.

Graber (1976): comportamento verbal político é comportamento verbal que ocorre em cenário no qual a política é relevante. Por significância política a autora se refere a “estímulos verbais que contenham mensagens políticas que atinjam ou afetem grande número de pessoas – os produtos (outputs) da mídia de massa sobre políticas; mensagens políticas de atores políticos significantes como políticos de alto escalão; ou transações verbais em um encontro político aberto ou fechado tal como uma sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas ou um encontro de um comitê de congressistas.

Embora ela não escreva explicitamente, deu conta de descrever os elementos básicos da tríplice contingência. A) Uma situação de estimulação anterior (cenário de significância política); b) o comportamento; e c) as conseqüências do responder, que nas palavras da autora seria evocar determinada resposta no ouvinte (receptor).

Palavras e ordem social – “Palavras são combustíveis da política. Políticos usam palavras para relatar e exortar, barganhar e persuadir, para ameaçar e conciliar. Eles conversam com seus constituintes, negociam privadamente, argumentam em assembleias e comitês públicos, dão ordem que serão transformadas em outras ordens ou ação física. Políticos são julgados em parte por suas habilidades verbais. Sabem eles o que dizer e o que não dizer em determinado tempo? Sabem eles como organizar seus argumentos na mais persuasiva forma?. Grande cuidado é exigido ao selecionar-se a abordagem verbal mais efetiva para cada ocasião.

“No entanto, comunicações verbais por políticos são apenas uma parte pequena do comportamento verbal que modela políticos”. Mesmo na aera da televisão, informações relevantes para a massa da população vêem de descrições de eventos em vez de experiência direta. (p.4)

Questão (a): A afirmação anterior da autora é válida só para comportamento verbal na política? Não se pode afirmar o mesmo para comportamento verbal em geral? O que torna o comportamento verbal na política diferente de outras espécies de comportamento verbal, por exemplo, na propaganda?

Questão (b): A autora parece reconhecer aqui algumas das características do comportamento verbal conforme a definição de Skinner (1957): comportamento cujo reforço depende da mediação de outras pessoas, portanto pode ser mantido no nível meramente verbal.  A seguir, a autora discute a questão, diferenciando comportamento verbal de realidade. A afirmar, opondo-se a críticos de pesquisas baseadas em relatos verbais, que são dois fenômenos que merecem ser estudados por si só.

“Linguagem permite-nos generalizar, organizar ampla gama de experiência e comunicá-las a outros sem a necessidade de conduzir mudanças físicas e espaciais no mundo físico a nosso redor.

Fatos tais como ficções tornam-se base para ações sociais. “Isso torna palavras criativas no sentido verdadeiro. Elas criam situações em que não existem mais, ou que nunca existiram, e pessoas se comportam como se elas fossem real”. Bernard Berelson e Gary F. Steiner, em Human behavior: na inventory of scientific findings (664-665) aponta que homens acham difícil enfrentar conflito e ameaças do mundo real. Linguagem ajuda-os a manipular seus ambientes, tornando-o menos ameaçadores e mais toleráveis. “Palavra pode ser aplicada para encaixar-se na ocasião mais facilmente do que a ocasião ser modificada para encaixar na palavra. No fim, assim como no começo, está a palavra… homens vivem não apenas na realidade que confronta-lhe mas na realidade que eles constroem”.
“Homens não falam apenas para aliviar-lhes sentimentos ou para arejar sua visão, mas para despertar uma resposta em seus companheiros e influenciar suas atitudes e atos” (Grade A. De Laguna).

Mentiras, meias-verdades e outras distorções de realidade

(Tato ampliado/estendido/distorcido?)

“Meia-verdade e mentira são faladas mais do que os puritanos gostariam, mas menos do que afirmam muitos cínicos. A razão é simples: é difícil mentir de forma bem-sucedida em uma sociedade aberta e competitiva e isso geralmente produz mais males do que bem….(p.11-12).

Quando falta credibilidade torna-se difícil a comunicação e a negociação porque o outro lado não irá confiar em tratos verbais a menos que sejam acompanhados de evidências (p.12).

Mentira branca – exagero como parte do ritual de campanha (não pode ser julgado pelo critério de verdadeiro e falso).

O perigo para pareamento de credibilidade chega quando a falta de representação é estendida na interação política em que veracidade é tradicionalmente exigida. No entanto, a fronteira entre ambas as esferas em que a verdade é esperada e o tempering é aceitável é fluida e incerta, depende de diferenças culturais.

“Existem muitas oportunidades para mentira manipulando-se objetos físicos e transações” (p.15)

Referência explícita a Skinner (1957): A extensão pela qual comportamento verbal é um índice da vida mental ou meramente resposta condicionada que reflete reforçamento prévios em resposta a outputs verbais, continua tema de debate entre acadêmicos. Uma breve revisão do ponto de vista de B. F. Skinner, Noam Chomsky e outros participantes da batalha intelectual pode ser encontrado em W.C. Holz and N. H. Azrin: Conditioning human verbal behavior, in Werner K. Honing, Ed. Operant Behavior: área of research and application.

Áreas importantes no comportamento verbal

1) Ambiente verbal na qual a sociedade opera – A maioria das experiências em política envolve atividade verbal e imagens de realidade criadas verbalmente. “Mais que qualquer outro tipo de estímulo, estímulo verbal modela a vida política (p.17).

2) Estudo sobre a percepção e “projeção percebida” (perceptual projections) de atores políticos individuais.

3) Estudo de interações verbais em transações políticas. “Comunicação verbal entre atores políticos é um processo interativo: a mensagem enviada por A torna-se estímulo para resposta por B e C. Vários aspectos do estímulo, muitos sob controle do emissor determina a natureza das respostas.” (p. 17)

“Apesar das dificuldades, dado verbal continua a ser fonte mais profícua de informação sobre percepção. No entanto, como já discutido, quer informação sobre percepção seja deliberadamente distorcida e o fato poder ser estabelecido, a natureza da manipulação pode produzir informações importantes sobre motivações e percepção de atores políticos. (P.17)

 “O que é dito e como é dito é uma força crucial que modela a tomada de decisão. Além explicar eventos políticos, examinar processos de interações pode levar à descoberta de certas regularidades causa-efeito que pode permitir a construção de uma teoria e formulação de regras para interações políticas bem-sucedidas.

Numerosas dimensões do comportamento verbal valem a pena ser analisadas por sua relevância política. É possível distinguir análise do tema (o que é dito) da análise da maneira da verbalização (como é dito). O meio também é importante: “palavras chegam até de várias formas: escrita, em interações face a face, em grupos pequenos e grandes, por telefone, televisão, rádio” [e internet].

Três termos da contingência aparecem nesta síntese: Cenários verbais influenciam produtos da política e podem determiná-los. Comportamento verbal torna a existência social humana possível e determina como comunidades humanas conduzem seus negócios públicos…Uma vez que estudiosos de política (scholars of politics) concordam que comunicação verbal efetiva é essencial para o sucesso na política em qualquer nível social, parece imperativo aperfeiçoar análise do comportamento verbal. É necessário atenção particularmente para áreas negligenciadas tais como cenários verbais no quais a sociedade opera (1); (2) matriz de substância e razoabilidade/raciocínio da percepção verbalizada por atores políticos [comportamento verbal, produto do comportamento verbal]; (3) e processos de interações verbais entre elite política e sua audiência.


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