Controle comportamental pela mídia

Richard Laitinen e Richard Rakos discutem diversas formas de controle comportamental pela mídia no artigo “Controle corporativo da mídia e propaganda: uma análise comportamental” (Corporate control of media and propaganda: a behavior analysis). Discutem três transformações que consideram marcantes no mercado de comunicação de massa: (1)  mudança de função da propaganda; (2) o processo de fusão e aquisição pelo qual criaram-se grandes conglomerados mundiais; (3) o avanço da tecnologia que permitiu a transmissão de informações em nível mundial de forma instantânea.

Para os autores, antes de a informação se tornar uma “mercadoria eletrônica”, a mídia era composta, em primeiro lugar, por meios impressos, e em segundo lugar, pelo rádio e pela televisão. Nessa época, cada empresa controlava um meio específico (impresso, rádio ou TV) e existia competição entre elas. Cada meio, portanto, atuava dentro de certos limites (ver, a esse respeito, análise de Costa, 2005, sobre a propriedade de meios de comunicação no Brasil e as mudanças ocorridas no controle das empresas de comunicação, no país, com o advento da globalização). Conforme Laitinen e Rakos, antes “existia diversidade de estímulos e a mídia era incapaz de exercer controle sistemático sobre o comportamento de cidadãos” .

Laitinen e Rakos observam que hoje a mídia compõe-se de meios impressos, televisivos, canais de distribuição de informações a cabo, meios eletrônicos, controlados por conglomerados globais, que atuam em todos os processos de produção e de distribuição/disseminação de conteúdo. É o caso, citam eles, das organizações de Rupert Murdoch, que reúnem jornal, revista, rede de televisão, editora de livro, estúdio de cinema, produtora de vídeo, serviço de acesso à internet e atuam em cinco continentes. Consideram que sistemas de controle atuais, “atuando por meio de contingências econômicas e contingências políticas indiretas, constituem ameaça maior à diversidade comportamental do que formas de tiranias existentes no passado”. Porque, segundo esses autores, hoje o controle da informação é mais “sistemático, contínuo, consistente, discreto e, por último, mais poderoso”.

A seguinte pesquisa exemplifica como a mídia manipula informações para controlar o comportamento de seus consumidores em dada direção.Trata-se da forma como os Estados Unidos conseguiram apoio popular para invadir o Iraque. Laitinen e Rakos  relatam que o período que compreendeu seis meses e meio entre a invasão do Iraque ao Kuwait (1990) e os ataques dos EUA ao Iraque (1991) caracterizou-se por “uma campanha clássica, orquestrada pelo governo e pela propaganda produzida pela mídia” contra o governo do Iraque. Contam que o então presidente dos Estados Unidos, George Bush, argumentava que a invasão do Iraque ao Kuwait ameaçava interesses legítimos dos americanos. Bush alegava que a liberdade dos EUA, e de países amigos, correria risco se as maiores reservas de petróleo do mundo ficassem concentradas nas mãos de um único indivíduo, Saddam Hussein. Era necessária uma “resposta rápida e vigorosa dos EUA ao Iraque” .

Os autores notam, porém, que governo dos Estados Unidos não contava com apoio popular para invadir o Iraque, até porque, no passado, o povo americano tinha presenciado uma situação oposta: o Iraque era aliado dos EUA; e o Kuwait, se não era encarado como inimigo, tampouco estava na relação dos amigos do governo estadunidense. Para que a campanha do governo americano contra o Iraque fosse bem-sucedida, era preciso contar com apoio da população.

De acordo com Laitinen e Rakos, em agosto de 1990, a administração do presidente Bush iniciou uma campanha sistemática, com apoio da mídia, cujo objetivo era apresentar Saddam Hussein como representante do “mal” e o Kuwait como representante do “bem”. As estratégias do governo americano para obter apoio popular, executadas por meio da grande imprensa, foram analisadas por Rakos (1993), que pesquisou conteúdos referentes ao Iraque e ao governo dos EUA publicados no jornal The New York Times entre 2 de agosto de 1990 e 16 de janeiro de 1991.

Rakos (1993) identificou a manipulação de um conjunto de estímulos antecedentes na propaganda governamental dos Estados Unidos, que teriam levado a população americana a passar de uma posição anteriormente contrária à guerra contra o Iraque a, posteriormente, apoiar o conflito armado. Uma das medidas, segundo Rakos, foi apresentar ao público, aos poucos, a necessidade de confronto militar. Primeiramente, a imprensa destacou os “esforços” do governo americano para evitar a luta armada. Enquanto isso, Hussein era sistematicamente emparelhado a estímulos aversivos, como, por exemplo, a Hitler, de forma que aos poucos o líder iraquiano e seu país foram estabelecidos como “perigosos para a humanidade”.

Entre as estratégias adotadas pela propaganda governamental americana, para obter apoio da população à invasão do Iraque, incluíram-se também, segundo Rakos, restrição de informações, desinformação e assepsia de notícias sobre a guerra veiculadas pela imprensa. Com esta última estratégia,  governo e mídia evitavam produzir estímulos aversivos associados ao combate militar e buscavam garantir que notícias sobre o confronto fossem apresentadas sem sinais de violências.

A manipulação de operações como essas teria feito com que a população, de uma posição inicial contrária à intervenção militar no território iraquiano, não só passasse a apoiar o conflito armado, como declarações de apoio à guerra passaram a ser reforçadas socialmente entre americanos que se envolviam em conversas sobre a guerra. Segundo Laitinen e Rakos: ”A propaganda militar, promulgada via meios de comunicação de massa, transformou a Guerra do Golfo de uma batalha defensiva em entretenimento no horário nobre” .

Referência:

LAITINEN, R.; RAKOS, R.F. Corporate control of media and propaganda: A behavior analysis. In P.A. Lamal (Org.), Cultural contingencies: Behavior analytic perspectives on cultural practices. p. 237-267. Westport, CT: Praeger. 1997.

RAKOS, R.F (1993).Propaganda as Stimulus Control: The Case of the Iraqi Invasion of Kuwait. Behavior and Social Issues, Double Issue 1993, V 3, No. 1 and 2

Para ler o texto de Rakos (1993) integralmente, em inglês, clique aqui.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s