Atitude e crença como construção social

No artigo Attitudes and beliefs as verbal behavior (Guerin, 1994), Guerin descreve a atitude e crença como comportamento verbal que pode ter a forma de tato, de intraverbal ou de mando. Para Guerin, o que, fundamentalmente, distingue atitude de crença são propriedades da conversação ou seus diferentes efeitos sobre o ouvinte. (Guerin, 2004, p. 213). Assim, verbalizações referidas como crenças podem servir como suporte ou justificativa para uma atitude declarada, mas apenas, diz Guerin, se a comunidade verbal estiver de acordo com a crença declarada.

Este exemplo pode esclarecer a suposta diferença entre atitude e crença. Uma pessoa afirma ser contra o uso de energia nuclear. Uma declaração como essa pode ser tomada como atitude dessa pessoa perante o tema “energia nuclear”. No entanto, apenas declarar ser contra o uso de energia nuclear pode não ser suficiente para a comunidade verbal reforçar o comportamento do falante. Assim, quem se diz contra o uso de energia nuclear poderá justificar sua atitude e afirmar que se baseia na crença de que energia nuclear tem subprodutos perigosos para a humanidade.

Ao analisar processos pelos quais a declaração de atitude é fortalecida pela comunidade verbal como se fosse tato, Guerin (1994) considera que comportamentos verbais descritos como atitude podem ter origem na generalização de tatos sobre o ambiente externo para tatos sobre o próprio comportamento, passando para tatos de atitude (atitudinal tacts). Cita como exemplo desse processo uma criança que relata a presença de um gato em uma árvore e é reforçada com consequências sociais generalizadas (a existência do gato nem sempre é pré-requisito para liberação de reforçadores sociais). Da mesma forma, a criança pode afirmar que resgatou um gato de uma árvore ou que gosta de gatos. Ainda que essa criança goste realmente de gatos, gostará de alguns gatos específicos e não de gatos de forma generalizada. Mesmo assim, a criança poderá ter seu comportamento verbal reforçado como se fosse tato ao afirmar “gosto de gatos” (p.156).

Para Guerin (1994), atitudes podem ser tratadas como comportamento intraverbal se o relato de atitude estiver sob controle de estímulos verbais em vez de sob controle do ambiente físico imediato. Esse efeito é um dos efeitos comuns, segundo Guerin, de conversações casuais, quando a manutenção da conversa é mais importante do que descrições de preferências ou descrições do ambiente imediato (p.158).  Trata-se daquilo que popularmente é chamado de jogar conversa fora”.

Guerin cita dois aspectos que fortalecem a suposição de que atitude pode ser descrita como comportamento intravebral: a) relatar preferências tende a ser reforçado quando essas preferências forem gerais – por exemplo, “gosto de gatos”; em vez de gosto do meu gato; b) muitas verbalizações de atitudes referem-se a eventos aos quais o falante nunca teve acesso diretamente – por exemplo, afirmações sobre mudanças climáticas ou sobre segurança ou insegurança da energia nuclear. No entanto, verbalizações desse tipo são frequentemente reforçadas pela comunidade como se fossem tatos (Guerin, 1994 p158).

Atitude pode ter, ainda, segundo Guerin (1994), a função de mando. Guerin cita, como exemplo, um chefe que afirma não gostar de pessoas que tomam café no trabalho. Essa declaração pode assumir a função do mando “não tome café enquanto estiver trabalhando” (p. 159), mas é apresentada como se fosse atitude.  Conforme sintetiza Guerin (1994):

As pessoas frequentemente afirmam que suas atitudes são baseadas em suas crenças e declaram atitude positiva ou negativa porque acreditam que há subprodutos positivos ou negativos envolvidos: “porque o risco de acidente nuclear é grande, não gosto do uso de energia nuclear”. . . .  apresentar, porém, uma crença para fortalecer uma declaração de atitude é, em si mesmo, um ato social de persuasão, que exige mais análises . . .; relatos de atitude podem ser reforçados se forem baseados em crenças, mas apenas se a comunidade verbal concordar com as crenças que dão suporte à atitude. (Guerin, 1994, p.160)

Guerin (1994a analisa também a relação entre atitude e comportamento verbal ou não verbal correspondente à atitude declarada. A esse respeito, argumenta que as mesmas contingências sociais que modelam correspondência entre dizer/fazer aplicam-se à afirmação de atitude seguida do comportamento correspondente à atitude declarada. Guerin nota que existe uma série de consequências aversivas para alguém que muda frequentemente: faz algo em um dia e, no dia seguinte, algo oposto ao feito no dia anterior. Agir conforme o declarado comumente é reforçado pela comunidade verbal. O mesmo pode ocorrer com a verbalização de atitude e o comportamento correspondente à verbalização.

Guerin ressalta, porém, que, dado o amplo repertório verbal de um indivíduo, os múltiplos controles envolvidos no comportamento e as múltiplas comunidades verbais existentes na sociedade moderna nas quais um indivíduo toma parte, inconsistências comportamentais – ou falta de correspondência entre dizer/fazer – podem tornar-se frequentes, especialmente quando se trata de comportamento verbal, que está sob controle direto do comportamento de outras pessoas. (Guerin, 1994, p. 162)

Conforme Guerin (2004), conversações podem ter três funções: levar o ouvinte a fazer algo; fazer o ouvinte acreditar em algo ou repetir algo; manter interações sociais (cuja função é manter o ouvinte predisposto a liberar reforçadores e manter o status do falante como integrante de um grupo). Para esse autor, entre as principais funções da conversação destacam-se as estratégias para modificar ou evitar consequências daquilo que foi dito (p.185). E fazem parte dessas estratégias, diz Guerin, apresentar um tópico com termos como atitude e crença.

Referências:

Guerin, B. (1994). Attitudes and beliefs as verbal behavior. The Behavior Analyst, 1, 17 (pp. 155-163).

Guerin, B. (2004). Handbook for analyzing the social strategies of everyday life. Reno, Nevada: Contexxt Press.

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