Análise do comportamento aplicada ao tratamento de autismo

Nas últimas semanas tem ocorrido na mídia tradicional e nas redes socais discussões sobre abordagens da Psicanálise e da Análise do comportamento para tratamento de pessoas diagnosticadas com autismo. Confesso que não tenho acompanhado o debate de forma sistemática. E digo também, de saída, que sou leiga no tema, embora tenha amigos próximos que são grandes especialistas no estudo e na aplicação da Análise do comportamento para o tratamento de pessoas com autismo e com outros problemas.

Em meio das discussões sobre o tema, casualmente tive acesso ao artigo Applied Behavior Analysis treatment of autism: the state of the art, de Richard M. Foxx, publicado no periódico Child and adolescent psychiatric clinics (edição 17, 2008, pp. 821-838).  Note-se que o artigo não foi publicado em periódico de Análise do comportamento, e sim em um periódico médico.

Gostei muito do artigo de Foxx pela clareza que trata do assunto. Considerei que compartilhar seu artigo neste espaço seria boa forma de colaborar com o debate atual sobre possibilidades de tratamento para pessoas diagnosticas com autismo.

Foxx inicia o artigo com afirmação chocante. Diz que “tratamento de indivíduos com autismo frequentemente envolvem práticas sem fundamentos científicos, embora se tenha disponível um tratamento validado cientificamente e altamente efetivo, a Análise aplicada do comportamento (ABA)”.

Fiquei me perguntando o que levaria mães, pais, instituições de saúde públicas ou privadas, a investirem tempo e dinheiro em métodos alternativos de tratamento quando existem sólidas evidências científicas sobre a eficácia de dado método. Mas não vou entrar nessa discussão.

Depois dessa afirmação contundente na abertura do artigo, Foxx nota que o tratamento ABA tem mostrado eficácia em várias áreas e cenários de aplicação. Conforme o autor:

“ABA, às vezes chamada de terapia comportamental ou modificação do comportamento, usa métodos derivados de princípios do comportamento estabelecidos cientificamente. ABA tem sido aplicada de forma bem-sucedida para uma gama de população e áreas, incluindo autismo, transtorno de desenvolvimento, educação em suas muitas formas, negócios, saúde mental, aconselhamento, aconselhamento conjugal, abuso infantil, só para citar algumas”.

Foxx sintetizou em uma tabela (Box 1, no artigo) um conjunto de evidências sobre a efetividade da ABA. Entre essas evidências, destaco as seguintes:

  • Indivíduos de todas as idades têm sido educados e tratados de forma bem-sucedida por mais de 40 anos (crianças por mais de 47 anos) com ABA
  • ABA foi indicada como tratamento de escolha para indivíduo com autismo no início dos anos 1980
  • Nenhuma outra abordagem educacional/tratamento para autismo conta com o apoio de instituições como o Departamento de Saúde do estado de Nova York e Cirurgião geral dos Estados unidos
  • O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) tem financiado pesquisa sobre o tratamento ABA para autismo nos últimos 40 anos
  • ABA é a única terapia reconhecida no tratamento de jovens com autismo
  • Nenhum programa educacional ou abordagem para o tratamento de autismo atinge os critérios científicos atingidos pela ABA.

Foxx resume, conforme descrito a seguir, diretrizes que orientam o tratamento ABA para autismo:

  • Intervenções devem começar o mais cedo possível
  • Intervenções têm de ser intensivas
  • Treinamento e apoio aos pais é ponto crucial da intervenção
  • Intervenções devem focar áreas de comunicação e de interação da criança
  • Tratamentos devem ser sistemáticos, individualizados, com objetivos definidos de acordo com as necessidades de cada criança
  • Intervenções efetivas têm de enfatizar generalizações (assegurar que a mudança de comportamento produzida na criança ocorra em diferentes contextos).

Foxx nota também que em um programa de intervenção ABA incorporam-se fatores que o Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos considera caracterizar uma intervenção eficiente. Além disso, tratamento ABA exige profissionais bem qualificados, com, no mínimo, nível de mestrado, e certificados por órgãos competentes para atuar como analistas do comportamento em intervenções comportamentais (não é qualquer analista do comportamento, mas analista do comportamento que recebeu treinamento específico para aplicação).

O autor descreve procedimentos básicos ABA para tratamento de autismo e para programas educacionais, assim como estratégias para assegurar a manutenção dos efeitos da intervenção.

Na conclusão do artigo, Foxx cita Metz e colaboradores, que afirmaram que as únicas intervenções que têm mostrados resultados finais compreensíveis no tratamento de autismo são aquelas baseadas nos princípios da ABA.

Aqui está o texto integral, em inglês, para quem quiser ler o original e checar as referências citadas pelo autor e algumas mencionadas no post.

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