Alguns desafios para o estudo do comportamento verbal

Azrin, Holz, Ulrich e Goldiamond (1961/1973) replicaram um estudo realizado por Verplanck (1955), em que avaliaram a possibilidade de estudantes controlarem conversas casuais de outras pessoas por meio do reforçamento diferencial de certo tipo de opinião/afirmação e da extinção de todos os outros tipos de afirmação.

O estudo envolveu três experimentos, que foram aplicados em sala de aula. No primeiro experimento, 16 estudantes de pós-graduação foram especialmente preparados para aplicar o procedimento. A preparação incluiu o que os autores chamaram de instrução intensiva sobre condicionamento operante, seguida de uma verificação sobre os conhecimentos adquiridos pelos estudantes aceda do assunto ensinado. Os estudantes foram instruídos a ler o estudo de Verplanck (1955) e os conhecimentos deles sobre o referido estudo foram testados.

Metade dos estudantes conduziu um procedimento que consistia de 10 minutos de extinção, seguidos de 10 minutos de reforçamento, mais dez minutos de extinção. A outra metade aplicou procedimento reverso: reforçamento, extinção, reforçamento. Extinção foi caracterizada como o ouvinte (no caso, o estudante que estava no papel de experimentador) ficar em silêncio, ao passo que reforço foi definido como a concordância do ouvinte com as opiniões do participante.

De acordo com Azrin e cols., entre os estudantes que aplicaram o procedimento, 14 relataram maior frequência de opiniões durante o procedimento definido como reforçamento do que durante o procedimento de extinção (um “estudante-experimentador” não concluiu o experimento).  A frequência de outras afirmações, que não opiniões, não mudou muito (pp.187-188).

Os autores observam que nenhum dos estudantes que concluiu o experimento relatou dificuldades para aplicar o procedimento. No entanto, o estudante que desistiu da aplicação contou que achou difícil manter a conversação sem participar ativamente dela e também relatou ter achado difícil reconhecer opinião versus afirmação.

Apesar de os demais estudantes, em um primeiro momento, não relatarem semelhante dificuldade, em discussões posteriores um estudante contou que tinha gravado a aplicação do procedimento. Um segundo estudante analisou a gravação e admitiu ser difícil distinguir o período de reforçamento do de extinção. Os autores ficaram em dúvida se os estudantes tinham de fato se comportado perante seus ouvintes (os participantes) conforme determinava o procedimento: ou seja, ficar em silêncio na extinção e reforçar apenas as respostas-alvo.

No segundo experimento, o mesmo procedimento foi aplicado por estudantes universitários de outra sala de aula, sem que tivessem lido o estudo original ou fossem informados sobre a existência dele. Como no experimento anterior, os estudantes receberam instrução e tiveram seus conhecimentos sobre princípios de reforçamento operante testados. Os pesquisadores adotaram o mesmo procedimento do primeiro experimento, exceto pela extinção, que foi caracterizada como discordância, em vez de silêncio. De 12 estudantes que concluíram o estudo, 11 relataram que discordância produzia mais baixa frequência de opinião do que concordância. Novamente os estudantes não relataram dificuldade na aplicação do procedimento. Os autores estranharam o fato, porque apesar da aparente dificuldade em identificar afirmações e opiniões (relatada pelos estudantes do primeiro experimento) e de outras dificuldades referentes à aplicação do procedimento, todos os estudantes relataram que concordância com a opinião do falante produziu maior frequência do comportamento verbal dos participantes. Uma análise dos resultados desse estudo revelou aparente relação entre a compreensão dos princípios de reforçamento pelos estudantes e os resultados relatados por eles. (Estudantes com menor conhecimento sobre tais princípios geralmente relatavam menor efeito do reforçamento sobre as opiniões). Os autores supuseram que os estudantes ou não seguiram o procedimento apropriado ou não tinham expectativas seguras quanto aos resultados.

O terceiro experimento foi conduzido para testar a última hipótese. O procedimento foi aplicado por uma classe de estudantes universitários sem que eles tivessem lido o experimento original. Metade dos estudantes aplicou um procedimento que consistiu de dez minutos de reforçamento, seguidos de dez minutos de extinção e dez minutos de reforçamento.  A outra metade aplicou um procedimento de extinção-reforçamento-extinção. Reforçamento novamente foi definido como concordar com a opinião do outro e extinção, como manter-se em silêncio.

O experimento foi realizado durante e depois de os estudantes receberem instrução sobre princípios de reforçamento. O resultado foi semelhante ao dos experimentos anteriores: 44 de 47 estudantes relataram maior frequência de opinião durante as sessões de reforçamento (concordância com o falante) do que durante sessões de extinção.

Baseando-se nas discussões de Azrin e cols. pode-se inferir que os resultados desses três experimentos possivelmente tenham mais relação com o comportamento dos estudantes que aplicaram os procedimentos do que com o dos participantes – ou pelo menos tanto quanto. Tanto que os autores interpretaram seus resultados como indicativos da necessidade de se desenvolver mecanismos mais objetivos para o estudo do comportamento verbal. “Sem tal objetividade”, afirmam, “os resultados de estudos sobre condicionamento verbal podem refletir mais as expectativas e teorias do experimentador do que o comportamento dos participantes”.

Outro desafio importante para o estudo do comportamento verbal é o fato de ele poder se mantido sem que sejam produzidas consequências práticas. Por isso, como afirma Skinner (1957/1978): “pode libertar-se mais facilmente do controle de estímulos, porque por sua própria natureza não requer apoio ambiental: isto é, nenhum estímulo precisa estar presente para dirigi-lo ou formar importantes elos na cadeia de respostas” (pp. 68/47).

Some-se a isso, o fato de o comportamento verbal ser multideterminado. A noção da causalidade múltipla no comportamento permeia todo sistema explicativo da análise skinneriana. No que diz respeito ao comportamento verbal, embora Skinner trate dessa característica do comportamento desde o capítulo inicial de Verbal Behavior, dedicou um capítulo à parte para essa discussão, a qual Skinner resume assim:

Do nosso estudo sobre as relações funcionais do comportamento verbal emergem dois fatos: 1) a força [probabilidade] de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável; e 2) uma única variável costumar afetar mais de uma resposta. (Skinner, 1957/1978, p.273)

Referências

Azrin, N. H., Holz, W., Ulrich, R., e Goldiamond, I. (1973). The control of the content of conversation through reinforcement. Journal of Applied Behavior Analysis, 6, 186-192.

Skinner, B.F. (1978). O comportamento Verbal. São Paulo: Cultrix.

Skinner, B. F. (1957/1992). Verbal Behavior. Cambridge, Massachusetts: B. F. Skinner Foundation

Verplanck, W. S. (1955). The control of the content of conversation: reinforcement of statements of opinion. Journal of abnormal and Social Psychology, 55, 668-676.

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