O que existe e o que não existe

Meu filho se queixa de um amigo que ele chama de “o do contra”. Diz que a tudo o amigo se opõe. Em uma conversa sobre dragões, exemplifica, o amigo se apressa em dizer que dragões não existem e fim de papo! Meu filho diz que existe sim: o dragão-de-komodo. Mas o amigo diz que esse não conta. E meu filho se diz inconformado.

Aproveito a oportunidade para dizer para meu filho que, sob alguns aspectos, a diferença entre fato e ficção é sutil mesmo. Não sei se existem pessoas que acreditam na existência de dragões. Mas o que são dragões?

Como sou mãe humana – e diz o Manuel Bandeira, que Diabo não há, existe é o homem humano – penso em ensinar uma forma de contra-controle ao meu filho, para a próxima ocasião e que a discussão sobre dragões vier à tona e o amigo dele tentar desestabilizá-la.

Sugiro que pergunte ao amigo se ele acredita em Deus. A resposta, diz meu filho, certamente será afirmativa. E você continua: pois bem, não existem provas científicas da existência de Deus, mas existem quem acredite em Deus, certo? Da mesma forma, não existem evidências sobre a existência de dragões, mas é possível afirmar, com toda segurança, que dragões não existem? Pela lógica de um religioso, não! Pela lógica científica, talvez sim.

Lembro que, em alguns casos, a diferença entre “fato”,  “mito” ou crença e história pode ser sutil mesmo. Pode ser histórica e variar conforme o grupo social. Uma coisa é explicar um fenômeno do ponto de vista religioso; outra diferente pode ser explicar o mesmo fenômeno do ponto de vista da ciência. Cito um exemplo clássico: criacionismo versus selecionismo (meu filho já está familiarizado com a diferença entre esse dois polos para explicar a existência da vida na terra).

Para levar a questão na esportiva, como se diz, convido meu filho a reler um livro paradidático, usado em sua classe este ano: Divinas Aventuras – histórias da Mitologia Grega, de Heloisa Prieto, e com belíssimas ilustrações de Maria Eugênia (Companhia das Letrinhas). E lembro de outro livro usado em cursos anteriores: Bichos que existem e bichos que não existem, de Arthur Nestrovski, também ilustrado por Maria Eugênia.

Para concluir a conversa com meu filho, digo-lhe que até entre adultos que estão no topo  a educação formal (ele e o amigo são alunos de 5º ano) nem sempre existe acordo sobre o que existe e o que não existe.

Transcrevo, a seguir, um trecho de Hobsbawm, retirado do livro Sobre história, em que o autor se opõe à onda pós-modernista que afirma que o que existe é apenas construto social. Diz Hobsbawm:

“Nas últimas décadas, tornou-se moda, principalmente entre pessoas que se julgam de esquerda, negar que a realidade objetiva seja acessível, uma vez o que chamamos de ‘fatos’ apenas existem como uma função de conceitos e problemas prévios formulados em termos dos mesmos. Esse constructo é, em princípio, tão válido quanto o outro, quer possa ser apoiado pela lógica e por evidências, quer não. Na medida em que constitui parte de um sistema de crenças emocionalmente fortes, não há, por assim dizer, nenhum modo de decidir, em princípio, se o relato bíblico da criação da terra é inferior ao proposto pelas ciências naturais: apenas são diferentes. Qualquer tendência a duvidar disso é ‘positivismo’, e nenhum termo desqualifica mais que este, exceto empirismo.

Em resumo, acredito que sem uma distinção entre o que é e o que não assim, não pode haver história. Roma derrotou e destruiu Cartago nas Guerras Púnicas, e não o contrário… Na verdade, poucos relativistas estão à altura plena de suas convicções, pelo menos quando se trata de responder, por exemplo, se o Holocausto de Hitler aconteceu ou não. Porém, seja como for, o relativismo não fará na história nada além do que faz nos tribunais. Se o acusado em um processo por assassinato é ou não culpado, depende da avaliação da velha evidência positivista, desde que se disponha de tal evidência. Qualquer leitor inocente que se encontrar no banco dos réus fará bem em recorrer a ela. São os advogados dos culpados que recorrem a linhas pós-modernas de defesa”.

 

Referência

Hobsbawm, E. J. (1998). Sobre história: São Paulo: Cia das Letras.

E para uma boa análise comportamental sobre crenças, leia o artigo Attitudes and beliefs as verbal behavior, de B. Guerin, tratado neste post.

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