Dissertação e tese são produções coletivas

Transcrevo, a seguir, os ‘agradecimentos’ da Téia Sério, publicados em sua tese de doutorado (1990).

O primeiro ponto que me chamou atenção foi a forma cuidadosa que Téia escreveu uma seção que, usualmente, é tratada de forma bastante descuidada. Pelo menos é o que acho (eu deveria ter lido seus agradecimentos antes de escrever os meus). Mas Téia não era de fazer nada pela metade.

O segundo aspecto que gostaria de destacar refere-se à forma de a autora descrever o caráter do empreendimento: produzir dissertação ou tese, diz Teia do começo ao fim, é trabalho coletivo. E ela soube descrever, de forma sucinta, clara, elegante, quais foram as principais contribuições – ou os suportes com os quais contou – para produzir a própria tese.

Destaco, ainda, do texto de Téia, um terceiro aspecto – pensando agora nas pessoas que estão, no momento, escrevendo sua dissertação ou tese: são tantas pessoas envolvidas direta ou indiretamente (pessoas muito boas, diz Téia), que simplesmente só existe uma possibilidade: terminar o trabalho!

Enfim, até nos agradecimentos da própria tese, Téia deu uma aula sobre cuidados necessários com quaisquer tipos de manuscrito. Uma aula sobre o caráter coletivo da produção científica e mais importante: uma aula sobre como reconhecer o trabalho de outros – intelectual ou afetivo – em ‘nosso’ trabalho. Para ler o texto completo, clique aqui.

 

Alguns comentários sobre os agradecimentos

Tereza Maria de Azevedo Pires Sério

Em geral, leio com alguma curiosidade os agradecimentos que são feitos no início de trabalhos de mestrado e doutorado e, já há algum tempo, venho achando que aí se apresenta uma face desses trabalhos que, aparentemente, eles parecem dever ocultar: por mais que o trabalho leve uma assinatura, ele não é um trabalho realizado individualmente; a sua realização, por mais que pareça ou por mais que seja individual, exige suportes. Suportes que são trabalhos de outras pessoas e de vários ‘tipos’: são necessários suportes intelectuais, suportes materiais e suportes afetivos. A ‘quantidade’ de suportes e o peso de cada um ‘tipos’ envolvidos em cada trabalho pode até variar; mas os três estarão sempre presentes. Pelo menos, é o que acho.

E, se eu ainda não achasse isso, com certeza passaria a fazê-lo agora. Se nunca antes tivesse reconhecido o caráter coletivo, mesmo do trabalho considerado intelectual e mesmo daquele que aparenta ser o mais individualista, esta teria sido uma boa oportunidade para passar a reconhecê-lo. Por isto, não estou propriamente agradecendo, mas tentando publicar o coletivo bem concreto que possibilitou o meu trabalho; que é meu, leva minha assinatura, porque nesta divisão (a que se refere especificamente ao produto que materializa o ‘trabalho feito’) a mim coube (ou, eu pude e quis) fazer mais.

Eu acredito que a realização deste trabalho dependeu de duas decisões: tomar o behaviorismo como objeto mais geral de análise e analisá-lo de uma determinada maneira.

Mais que a vontade, a própria possibilidade de tomar o behaviorismo como objeto de análise dependeu da produção intelectual que assume o desafio de compreender o behaviorismo e as consequências que tal compreensão acarreta: as dúvidas, as divergências, a necessidade de estudar mais e, até, a possibilidade de ter de começar tudo de novo. Por isso, a primeira decisão só foi possível graças ao trabalho da Loira, Sergio e Ziza: mais tarde, mas já há bastante tempo, também ao trabalho de Amália. Roberto e Regina, meus novos (agora já não tanto) ‘colegas’, em nenhum momento me afastaram dela.

A segunda decisão dependeu, em grande parte, de uma determinada maneira de entender a produção de conhecimento científico: aprender ‘esta maneira’ exigiu muito estudo, muito esforço e, até, muita briga. Tudo isto foi feito junto com Amália, Bari, Denize, Dinha, Marcia, Mare, Melania, Monica e Nilza.

Tomadas as decisões, eu tinha de fazer o trabalho. Durante sua realização contei com duas interlocutoras especiais: com elas eu podia ‘testar’ minhas idéias, ouvir outras, trocar dúvidas. O produto final reflete, eu acho, algumas de suas contribuições. Só alguns exemplos: Loira é responsável por qualquer preocupação com o leitor, que eventualmente aparecer neste trabalho; além disso, foi ela quem nunca me deixou esquecer que um trabalho só vale se for publicado, se puder se discutido. Ziza, pela preocupação com a ênfase que ‘o’ behaviorismo atribui aos procedimentos e suas possíveis consequências e pela preocupação com o conceito de reforçador condicionado.

E contei, ainda, com uma interlocutora especialíssima. Era para ser um projeto conjunto, quando toda exigência formal estava no individual. Foi um trabalho conjunto e não diluiu o individual: ao contrário, eu diria que possibilitou expressão individual. A pesquisa aqui relatada, desde o levantamento bibliográfico inicial até a revisão e impressão finais, tem muito trabalho junto com Amália e tem muito trabalho de Amália para o ‘meu’ trabalho. Amália é responsável, também, por algumas das ‘minhas descobertas’: do papel do estímulo reforçador na definição de condicionamento, dos artigos sobre os cinquenta anos de B.of.B. e, é claro, do Shaping. Mas é também pela mais importante: que só se ‘descobre’ realmente um autor se não se sucumbir ao fascínio de suas ideias e nem ao fascínio das ideias da gente. E isto pode (talvez deva) ser feito com muita emoção. Talvez eu nunca tivesse iniciado este projeto sem ajuda da Amália; com certeza, eu não teria concluído o trabalho sem ela.

Com tudo isso, ainda teria sido muito mais difícil fazer este trabalho sem o carinho e a compreensão de Palma e José, meus pais. Sem o afeto e a torcida do Guto, Su, Mariana,  Melissa e Flávio. Sem a presença amiga do Dárcio.

E, finalmente, teria sido impossível fazê-lo se as minhas duas Anas, a Luiza e a Cristina, não tivessem suportado com bravura esses ‘tempos de tese’. E elas suportaram na medida das minhas necessidades. Cris, agora eu também já posso querer ser moça ‘quando’ ficar velha. Lu, agora você já sabe o porquê alguém faz uma tese? Vai ver que é porque tem tanta gente (e boa) envolvida que a gente não tem vontade nem coragem de desistir.

A minha parte do trabalho é para estas pessoas.

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