Interação entre jornalismo e psicologia

Sobre a importância da mídia em culturas contemporâneas – não há como escapar da mídia de massa. Conforme Mininni (2008):

Tudo o que nós sabemos do mundo e de nós mesmos (incluindo o fato que sabemos de saber e, ainda mais, o que ignoramos de ignorar) devemos à capacidade de interagir com os outros, capacidade essa que serve, de maneira cada vez mais intrincada, dos meios de comunicação de massa. (p.35)

“Não há cultura sem mídia, nem mídia sem cultura”, afirma (Kellner, 2001). Cultura e mídia, diz Kellner, são fenômenos indissociáveis.

Esta apresentação será baseada em Mininni (2008), que tratou da interação mídia-psicologia no livro Psicologia cultural da mídia, enfatizando três aspectos:

1)    Psicologia na mídia – a mídia como contexto em que psicólogos podem pôr em prática seu saber especializado;

2)    Psicologia para a mídia – a forma como a psicologia é tipicamente descrita/apresentada na/pela mídia.

3)    Psicologia da mídia – mídia como fonte, objeto de estudo da psicologia.

Mininni (2008) defende o fortalecimento de uma subárea na Psicologia que ampliar a compreensão das complexas relações envolvidas na manutenção da mídia com suas práticas. Mas admite que se trata de um projeto complexo.

A Psicologia da mídia teve, até agora (e continua a ter), pouco reconhecimento institucional, pois é difícil reproduzir em laboratório as condições para o controle experimental das hipóteses que poderiam explicar os fenômenos dos quais tende a tratar. A multiplicidade de dos paradigmas teóricos e o privilégio concedido ao método experimental favoreceram a validação da psicologia entre as ciências (humanas), mas lhe impediram de abordar alguns temas extremamente importantes como, justamente, o papel da mídia na vida cotidiana) … mesmo assim tende-se a atribuir à ação geral da mídia capacidade de intervir ‘nos processos de elaboração e estratégias cognitivas, nas representações de si mesmo, nas motivações e nas relações interpessoais’ … isto é, em todas as principais coordenadas da construção humana da realidade. Na verdade, a trama complexa de relações que os seres humanos instauram com a mídia interessa à psicologia, pois lhe oferece a oportunidade de controlar uma ampla gama de procedimentos com os quais eles tentam dar um sentido a sua experiência no mundo. (Mininni, 2008, p.14)

Psicologia na mídia – a mídia está interessada na Psicologia (Mininni, 2008): “A mídia está preocupada em apanhar as perguntas repletas de preocupação e de esperança que provêm do corpo social, em formulá-las em sua linguagem e tentar respondê-las, valendo-se de um saber específico”.

No mundo contemporâneo, diz Mininni, vale também o inverso: “O saber científico mede a força de seu prestígio mediante o grau de visibilidade que consegue obter graças a sua penetração na comunicação de massa” (p. 14).

Presença do psicólogo na mídia – conforme Mininni, a partir de 1980 aumenta a presença de psicólogos na mídia, especialmente nos EUA, mas também na Itália. E um indicador dessa tendência, diz, foi a criação de um módulo especial da Associação de Psicologia Americana, divisão 46, denominada inicialmente Association for media Psychology, e atualmente chamada Society for media Psychology and technology. Essa associação destina-se a pesquisadores, psicólogos e outros profissionais envolvidos com saúde mental, consultores, educadores e profissionais de comunicação ativamente envolvidos em formas tradicionais de comunicação, novas mídia, tecnologias emergentes. Conforme a APA: “A psicologia da mídia aplica-se a uma variedade de indústria e funções que envolvam o uso e desenvolvimento de comunicações mediadas e tecnologia da informação”. (APA, Society for media Psychology and technology).

Desafios para o psicólogo que atua na mídia – para Mininni, por mais atraente que a mídia possa ser para o exercício da psicologia, exige “insuperáveis processo de hibridação de identidade”. Atua como jornalista psicólogo ou psicólogo jornalista? Conforme Mininni, em alguma medida o psicólogo exerce ambas as funções:

“Quando é consultor de uma revista o psicólogo deve ser também (pelo menos um pouco) jornalista; quando participar de um talk show, o psicólogo é um hóspede que deve saber adaptar-se às técnicas alusivas a uma conversa superficial transmitidas na tela (ou saber adotá-las)”. Nessa dupla função, psicólogos que trabalham nos meios de comunicação enfrentam, normalmente, duplo ataque à própria imagem: dos acadêmicos e dos controladores da mídia.

 Acadêmicos – mantém desconfiança generalizada em relação aos colegas que atuam na mídia – “não só porque preferem fazer parte do considerável grupo dos ‘apocalípticos’, mas também por que tendem a atribuir as motivações dos colegas a exageradas necessidades narcisistas”. Acadêmicos, em geral, acusam os colegas que atuam na mídia de vaidade, de deformar o saber psicológico.

Dos controladores da mídia – pressão para que o psicólogo se adapte às exigências do meio/produto jornalístico/comunicacional. Para Mininni a deformação do saber psicológico parece inevitável – efeito da pressão exercida sobre o psicólogo para facilitar a compreensão de questões complexas. Diante dessas e de outras exigências, o psicólogo tem de aceitar que sua atuação será limitada: não poderão ser precisos, rigorosos e completos como deveriam ao tratar de seus temas na mídia.

Problemas gerais da psicologia para a mídia

Reducionismo prático e teórico – apresenta a psicologia conforme o senso comum – uma saber classificatório inspirado essencialmente em interesses clínicos. Ocupa-se de determinar distúrbios (de personalidade) e oferecer remédio para tais distúrbios.

Unitariedade – mídia confirma o senso comum de que a psicologia é uma compacta de princípios partilhados – contrastando com o fato de que se trata de uma ciência plural e até mesmo dispersa em eixos epistemológicos divergentes.

Orientação consoladora-manipuladora – fortalece o senso comum segundo o qual “toda dificuldade pode ser superada; todo medo, vencido; todo sofrimento, aplacado”.

Psicologia da mídia – ou mídia como objeto de estudo – conforme Mininni (2008):

Psicologia da mídia – questiona como a mídia representa a psicologia e o papel do psicólogo em contribuir para moldar tal imagem. Conforme Mininni, a psicologia deve se interessar pela mídia por legítimo mecanismo de defesa: “Para melhor contrastar as estratégias de aproximação e de deformação praticadas pela mídia é indispensável procurar compreender as razões e as conveniências pelas quais a mídia difunde crenças parciais e tem comportamento inadequado em relação à psicologia”.

Para Mininni, uma saída é o psicólogo que decide colaborar com a mídia conhecer melhor o processo de produção envolvido no fazer jornalístico.

Se quer atuar da melhor maneira possível na mídia, desfrutando de suas melhores oportunidades sem trair demasiado as especificidades do próprio saber, a psicologia deve ocupar-se da mídia e da como ela organiza os complexos ambientes de sentido para as pessoas que a usam. Para estender a aplicabilidade das próprias técnicas nos contextos midiáticos, o psicólogo deve adquirir um conhecimento maior sobre a maneira pela qual as pessoas interagem com a mídia. (Mininni, 2008, p. 19)

Para Mininni, a psicologia da mídia deve contribuir para que não seja representada como “um saber esperado, destinado às pessoas em dificuldade”. Que saiba propor-se como “um saber interessado a promover a autonomia, a dignidade e cidadania das pessoas”.

Psicologia da mídia deve se organizar de forma ativa. Para Mininni (2008): Dificuldades de comunicação entre gerações dão-se, em parte, por viverem em “climas de mídia totalmente distintos e, consequentemente, estimularem diferentes procedimentos mentais de elaboração de significados”.

Com tantos problemas, parece mais fácil desistir da mídia – e é isso que muitos fazem – mas é difícil escapar dos efeitos da mídia. Como observou Kellner (2001), não há mídia sem cultura, nem cultura sem mídia. Em vez de desistir da mídia, psicólogos podem criar um plano de ação para orientar a própria interação (ou de seu grupo de trabalho) com a mídia.

Estratégia para interagir com a mídia – conhecer o modo de operação da mídia; normas explícitas ou implícitas envolvidas no fazer jornalístico seria uma forma de o psicólogo se prevenir ou amenizar eventuais problemas. Apresentam-se, a seguir, algumas estratégias (adaptadas de Mininni, 2008):

  • Ficar atento às exigências da mídia de generalização e simplificação
  • Desenvolver habilidade para ilustrar o assunto tratado, considerando um público-alvo com diferentes (ou quase nenhum) graus de familiaridade com o tema.
  • Evitar falar sobre assuntos que desconheça
  • Recusar convite para resolver casos ao vivo
  • Negociar com antecedência condições de participação (entrevista ao vivo ou gravada; por escrito)
  • Saber antecipadamente se haverá outras participações (com diferente abordagem, por exemplo), especialmente em programas ao vivo.
  • Preparar um plano para cada participação – com possíveis. Criar série de frases de efeito que ajudem a conduzir a atenção do ouvinte para os objetivos da apresentação.
  • Pensar em formas de lidar com eventuais armadilhas que o obrigue a falar de tema sobre os quais não tem domínio ou para os quais não haja dados científicos (evite usar o termo “não sei” – verdadeiro tabu no jornalismo).
  • Gravar a própria participação e, se possível, publicá-la integralmente em site pessoal/institucional, a exemplo de Fatos e dados, da Petrobrás.

Para aumentar a probabilidade de ter um artigo publicado na mídia ajudaria adaptar a linguagem para cada meio (lembre-se: “o meio é mensagem”, McLuhan, 1967). Nesse aspecto, será útil consultar manuais de publicação de estilo jornalístico, como, por exemplo, Manual da Folha de São Paulo (Folha de S; Paulo, 2001); Manual do Estadão (Martins, 1997); Manual de Jornalismo da Radiobrás (Nucci, s/d).

Ficar atento, ainda, a normas não explícitas, por exemplo:

  • Não confundir jornalismo com publicidade, propaganda, marketing (do mesmo jeito que  jornalistas erram ao falar de psicologia, psicólogos erram ao falar de jornalismo)
  • Não pedir para ler texto do jornalista antes de ser publicado. Você é a fonte, mas o jornalista é que é autor do texto.

Qualquer plano de interação com a mídia não deve deixar de fora as redes sociais. Em uma matéria publicada no Wall Street Journal, Chao (2013) descreve o Brasil como “capital mundial das redes sociais”. Conforme Chao, o Brasil tem a segunda maior comunidade de usuários Facebook, com 65 milhões de pessoas. Fica atrás apenas dos Estados Unidos. O Brasil é também a segunda maior comunidade internacional em número de visitantes únicos ao YouTube e está entre os cinco maiores usuários do Twitter.

Plano de comunicação para mídia sociais

  • Planejar atualizações desses espaços
  • Decidir como irá separar (se for) questões pessoais de questões profissionais e em que medida (às vezes usar seu prestígio para divulgar informações relevantes para dado público pode justificar referências a aspectos pessoais).
  • Adotar diferentes formatos para páginas pessoais e institucionais.
  • Ter clareza de que não existe privacidade nas redes sociais
  • Ser rigoroso ao compartilhar conteúdos (próprios ou de terceiros). Ao compartilhar você estará endossado o que foi dito, a menos que se oponha ao conteúdo de forma geral ou específica.
  • Pensar sobre a função das informações que vão aparecer na sua linha do tempo. Não transforme sua linha do tempo em uma espécie de Primeira Mão (jornal dedicado a publicação de anúncio de produtos e serviços os mais diversos possíveis).
  • Não use sua linha do tempo só para falar de ações de suas instituições (use-a para compartilhar informações de outras instituições que possam ser úteis para seus fãs/seguidores/amigos.
  • Por mais íntimo que seja um amigo seu que está no Facebook, o conteúdo que ele compartilha pode não ser do seu interesse. Seja rigoroso ao assinar feeds até de seus amigos.
  • Cuidado com as configurações de privacidade e de segurança de sua conta. Se você tiver muitos amigos no Facebook, de repente vale a pena permitir que só você publique na própria linha do tempo e aprovar antecipadamente conteúdos em que você for marcado antes de publicá-los em sua página.

Referências:

American Psychological Association. (s/d). Society for media Psychology and technology.  http://www.apa.org/divisions/div46/

Chao, L. (2013, fevereiro, 4). Brazil: The Social Media Capital of the Universe. The Wall Street Journal. Recuperado de http://online.wsj.com/article/SB10001424127887323301104578257950857891898.html

Folha de S. Paulo. (2001). Manual de Redação. São Paulo: Publifolha.

Kellner, D. (2001). A cultura da mídia. Bauru: EDUSC.

Martins, E. (1997). Manual de redação e estilo. São Paulo: editora Moderna.

Mininni, G. (2008). Psicologia Cultural da mídia. São Paulo: Edições SESC SP.

Nucci, C. (s/d). Manual de jornalismo da Radiobrás. Recuperado de http://www.jornalismodigital.org/wp-content/uploads/2010/05/Manual-de-Jornalismo-Radiobras.pdf

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