Sobre amizade e altos e baixos da vida

Neste artigo, publicado em livro didático de 1952, Arlindo Drummond Costa trata de amizade e dos altos e baixo da vida. Vale a pena a leitura.

Amigos

Arlindo Drummond Costa

Sejamos cautelosos na escolha dos amigos, que dele depende, em grande parte, o nosso conceito e a nossa felicidade.

Não consideraremos como tais os que, tão só, nos acompanham aos divertimentos; conosco se amesendam nos bródios, para regalo de suas libações e apetites intemperantes, ou nos fazem depositários de balofas confidências.

Não merece a doce invocação de amigo, no significado justo do termo que só nos procura nas ocasiões em que a ventura nos sorri, ou singularmente, de nós se avizinha quando necessidade tem de mendigar a nossa ajuda prestimosa, cevando-se no celeiro de nossa bondade, no antegozo calculista de empanturrar o bandulho ou satisfazer o que lhe aguça os desejos. Amigos, assim, sejam catalogados na farândola que  acaricia, para arranhar; abraça, para esmagar e beija para morder!

Amigo, verdadeiramente amigo, é aquele que se identifica sinceramente com conosco,  na próspera e sombra contingência, aconselhando-nos o bem, compelindo-nos ao dever e à virtude, afastando-nos na trilha do mal e da borda, não pressentida e real, do perigo.

Provera a Deus pudéssemos cantar as aleluias perenes dos nossos entusiasmos, na eclosão primaveril das risonhas perspectivas!

A vida humana, contudo,  se desenvolve através de contraditórias ocorrências (1). Como a natureza, ela timbra na predileção teimosa dos contrastes. Se no mundo físico verificamos atitudes descomedidas, projetadas para o azul, como que ávidas do infinito, também percebemos as vertiginosas fundezas, infensas à luz das madrugadas; se nele presenciamos os crepúsculos, por igual, assistimos às auroras, consteladas de belezas, gárrulas de harmonias…De modo semelhante, a nossa existência transcorre por entre as alternativas filigranadas nos risos e lágrimas, alegrias e dores, desilusões e esperanças, virtudes e falhas, transvios e redenções, arrebatamentos e tibiezas, facilidades e obstáculos…. Que diríamos do nauta que abandonasse o governo do leme, sob o pretexto de se agitarem os maroiços e de colmar-se o céu de plúmbeas nuvens, horrenda tempestade prenunciando?

Força é lutar!

Quando os fados conspirarem contra a nossa felicidade, lembremo-nos de que todos sofrem e de que se o bem não perdura, o mal não dura; quando a insônia dos reveses nos fustigarem a alma, fazendo a mágoa porejar, segundo as necessidades fortuitas (2) das circunstâncias, ergamos o luzeiro da nossa fé, recorramos à força da energia pessoal, que se abate pelo desânimo, nem sucumbe pelo desespero.

Como quer que seja, evitemos o costume injustificável e contraproducente de maldizermos da sorte e de tecermos lamúrias em torno da dor que nos oprime.

A volúpia de seu reclame,  via de regra, em nada nos trará proveito: não diminuiremos a sua extensão, nem abrandaremos a sua intensidade.

Assim fazendo, tornamo-la mais cobiçada por outrem?

Os cireneus de hoje arrepender-se-iam de subir o Calvário dos nossos infortúnios, sopesando uma cruz, que a nós mesmos devemos suportar.

 

Vocabulário

Amesendar-se (v) – sentar-se à mesa, compartilhar das refeições de outrem. Diz-se também amesendrar-se.

Ávida (adj.) – Desejosa, sequiosa.

Balofa (adj.) – Fofa, vazia, oca.

Bandulho (adj.) – Ventre, barriga, estômago.

Bródios (subj.). – comezainas, comedorias, majares, do italiano, brodo, sopa.

Cirineu (subj.) – Quem nos ajuda, nos auxilia, conforta; amigo, companheiro.

Colmar-se (v.) – Encher-se, transbordar-se, trasvasar-se.

Eclosão (subj.) – Desabrocho, abrir-se das pétalas, desabrochar

Farândula (subj.) – Dança, grupo, rancho, bando, magote.

Filigramar (v.) – Bordar, entrançar, entretecer, fazer trabalhos delicados e artísticos.

Gárrula (adj.) – Tagarela, falante, verbosa.

Lamúria (sub.) – Queixa, pranto, lamentação.

Libação (subj.) – Beberagem,  beberete, embriaguez.

Maroiço (sub.) – Ondas, vagas, encapelamento do mar, mar agitado.

Nauta (subj.) – Marinheiro, navegante, homem do mar, mareante.

Plúmblea (adj.) – De chumbo, pesada, escura.

Tibieza (subj.) – Frouxidão, desânimo, pouco entusiasmo, desfalecimento.

Transvio (sub.) –  Desvio, extravio, erro, pecado,  crime, sair da reta normal de procedimento.

 Referência

 

Costa, A. D. (1952. Amigos, em Bueno, F. S. (1952). Páginas Floridas. (pp. 103-104). São Paulo: Saraiva.

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