Papel de falante e ouvinte no comportamento verbal

B. F. Skinner apresenta em sua obra seminal Verbal Behavior (traduzido para português como O comportamento verbal) uma proposta singular para estudo de fenômenos que são tradicionalmente referidos como linguagem. Inicia o livro caracterizando comportamento operante – comportamento que depende dos próprios efeitos para ser instalado e mantido no conjunto de repertórios de um indivíduo. Conforme Skinner (1957):“Os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação” (p.1). A seguir, Skinner nota que a ação do homem da qual emergem as consequências para seu comportamento pode ocorrer de forma direta – ele interage diretamente com o ambiente físico – e de forma indireta: as consequências finais de seu comportamento dependem do comportamento de outra pessoa. Alguém pode obter um copo d’água dirigindo-se a um bebedouro e pegando água ele próprio ou pode obter água pedindo um copo d’água a alguém. No primeiro caso, o efeito depende da interação com o mundo físico, direto; no segundo, depende-se de alguém que medeie o reforço. Para obter água no último caso o falante primeiro terá de afetar outra pessoa.

Skinner (1957) destaca, portanto, que o estudo do comportamento verbal exige a compreensão dos comportamentos de falante e ouvinte. Essa noção aparece de forma implícita ou explícita ao longo de Verbal Behavior (1957), a começar pelos dois capítulos iniciais do livro, quando o autor: a) apresenta comportamento verbal como comportamento operante cujo efeito depende do comportamento de outro indivíduo; b) apresenta uma síntese de seu programa de estudos, na qual afirma que o comportamento do ouvinte exige explicação, e que o ouvinte é estudado supondo-se o falante e vice-versa; c) descreve alguns problemas que terá de enfrentar para levar a cabo o próprio programa de estudo, um dos quais é justamente explicar o comportamento do ouvinte no episódio verbal, o que o autor começa a fazer no capítulo sobre mando e quando define, de forma mais apurada, o próprio objeto de estudo; d) e, ainda, quando descreve a comunidade verbal.

É possível que a menção de Skinner de que está interessado no comportamento do falante individual leve à suposição de que o autor reduziu o papel do ouvinte nos fenômenos verbais. No entanto, a afirmação do autor parece apenas ser uma forma de mostrar a novidade de sua proposta: ele vai demonstrar que analisando o comportamento de dois indivíduos, um em relação ao outro, com base em uma história de reforçamento construída por uma comunidade verbal, é possível explicar fenômenos tradicionalmente referidos como linguagem. Não é necessário recorrer a fenômenos de grupo como se esses fenômenos tivessem “vida própria” e pudessem explicar a origem do comportamento. Para Skinner, o que torna o comportamento verbal um fenômeno dinâmico, talvez pudéssemos acrescentar, a ponto de parecer que constitui uma “entidade social” à parte, são as contingências de reforço que explicam o comportamento de falante e ouvinte numa dada comunidade verbal e diante de situações de estimulações/motivacionais específicas.

Mas se o alerta de Skinner, já no primeiro capítulo de Verbal Behavior, de que analisar comportamento verbal exige estudar o comportamento de falante e ouvinte passou despercebido pelo leitor, Skinner é enfático no último subtítulo do segundo capítulo do livro, denominado O OUVINTE E O ESPISÓDIO VERBAL TOTAL (assim mesmo em caixa alta). Note-se que no seguinte trecho do referido subtítulo Skinner sugere que a função de falante e ouvinte estão tão imbricadas entre si que não é possível separar uma da outra. O episódio verbal envolve o entrelaçamento de ambas as funções, na qual uma pessoa pode atuar ora como estímulo evocativo do comportamento (nessa função Skinner chamou o ouvinte de audiência), ora como mediador do reforço (ouvinte propriamente). Nos termos do autor:

“Numa descrição completa de um episódio verbal precisamos mostrar que o comportamento do ouvinte proporciona de fato as condições que tínhamos suposto na explicação do comportamento do falante. Nós precisamos de descrições separadas, mas que se entrelacem, tanto do comportamento do ouvinte quanto do comportamento do falante se nossa explicação do comportamento verbal tiver de ser completa. [grifo acrescentado]. Na explicação do comportamento do falante, pressupomos um ouvinte que reforçara seu comportamento de determinadas maneiras. Na descrição do comportamento do ouvinte pressupomos um falante cujo comportamento tem certas relações com condições ambientais. As trocas entre eles devem explicar todas as condições assim supostas. A descrição de todo o episódio estará então completa”. (Skinner, 1957, p. 34).

Uma nova formulação – no roteiro de estudo do comportamento verbal, conforme Skinner (1957),  pode subdividir-se em quatro partes, descritas a seguir.

1º estágio: descritivo – tem-se de descrever a topografia, a forma do comportamento.

2º estágio: explicativo – descrever condições relevantes para a ocorrência do comportamento: identificar e analisar as variáveis da quais o comportamento é função.

3º estágio: identificar/explicar as características dinâmicas do comportamento verbal dentro de um quadro apropriado ao comportamento humano como um todo. E aqui, diz Skinner, é preciso considerar o comportamento do ouvinte. “Relacionando-o com o comportamento do falante, completamos nossa explicação do episódio verbal”.

4º estágio: prever e controlar o comportamento.

Um aspecto importante a ser considerado na análise do comportamento verbal refere-se à causação múltipla do comportamento, conforme esclarece Skinner neste trecho:

“O comportamento verbal é usualmente o efeito de múltiplas causas. Variáveis separadas combinam-se para ampliar seu controle funcional e novas formas de comportamento surgem da recombinação de velhos fragmentos. Tudo isso exerce influencia sobre o ouvinte, cujo comportamento, por sua vez, exige análise”. Esse tema é tão importante que mereceu um capitulo à parte em Verbal behavior, o qual Skinner inicia assim: “DOIS FATOS EMERGEM de nosso estudo sobre de relações funcionais do comportamento: 1) a força de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável e 2) uma única variável costuma afetar mais de uma resposta” (Skinner, 1957, p. 227).

A marca do estudo do comportamento verbal em B. F. Skinner – estudar linguagem com base no comportamento individual (baseando-se na análise de um episódio verbal simples entre falante e ouvinte) é uma das principais marcas da proposta de Skinner para o estudo da linguagem. Isso não significa que Skinner não considere o efeito do grupo sobre falante e ouvinte individualmente. Tanto que reservou um apêndice em seu livro para tratar da comunidade verbal (pp. 461-470).  Outro aspecto importante é a preocupação do autor com questões de natureza prática. Conforme Skinner (1957):

“Um traço importante da análise que vamos empreender é que ela se volta para o comportamento do falante e do ouvinte individual; não recorreremos a conceitos estatísticos baseados em dados obtidos com grupos. A formulação será eminentemente prática e sugerirá aplicações tecnológicas imediatas. Apesar da ênfase não ser experimental nem estatística, o livro não é propriamente um livro teórico no sentido comum. Ele não recorre a entidades explicativas hipotéticas. O objetivo último é a previsão e o controle do comportamento verbal”.

Para quem estiver interessado em um texto básico sobre comportamento verbal, indico este, das professoras da PUC-SP Maria Amalia Andery e Tereza Sério e este, dessas mesmas autoras.

Para uma discussão específica sobre o ouvinte, indico este de Skinner.

Referências

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1978). O comportamento verbal. São Paulo: EDUSP

Skinner, B. F. (2002/1974). Sobre o behaviorismo. 7 ed. [Tradução de Maria da Penha Villalobos]. São Paulo: Cultrix (obra publicada originalmente em 1974).

Skinner, B. F. (2005). Questões recentes na análise comportamental. Campinas: Papirus Editora (Obra publicada originalmente em 1989).

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