O público, o particular e as contingências

O seguinte trecho da biografia de Roland Barthes ilustra o fato que a história é sempre influenciada pelo historiador ou, dito de outra forma, o comportamento verbal depende da história do falante e de contingências de reforço que predominaram/predominam nas comunidades verbais das quais faze parte.

Conta o biógrafo de Roland Barthes, Louis-Jean Calvet, que Barthes, em seu primeiro manuscrito, parodiando Platão, escreve:

Estando Sócrates na prisão, oferecem-lhe um apetitoso prato com figos. Tentado, interrompe no entanto, o gesto de pegar uma fruta, refletindo que de nada serviria, pois estava condenado a morte e não chegaria nem mesmo a digeri-la. Os amigos tenta, convencê-lo a fugir, seguindo os conselhos de Críton. Sócrates resiste,  e o prato de figos o tenta. Finalmente, decide-se, come um figo e acompanha os amigos na fuga. À noite, já embarcados no navio que os leva a Epidauro, um dos discípulos pergunta: “E a história”? Sócrates responde: “Platão dará um jeito!”

Ao se referir a essa paródia 40 anos depois, conta Calvet,  Barthes afirma que as mudanças introduzidas na histórias resultaram de três culturas diferentes que influenciaram o autor:

“A de um aluno de Liceu, que conhece apenas Gide na literatura contemporânea; a cultura de um bom aluno de letras clássicas, latim e grego e a cultura geral (…) por que figos? Confessa que destetava os que brotavam no jardim da família em Bayonne ‘pequenos violáceos, nunca suficientemente maduros ou sempre muito maduros”,  e revela que só descobriu o seu verdadeiro sabor no Marrocos ou ‘mais recentemente, no restaurante Voltaire, onde são servidos em grandes taças com creme’.

O seguinte trecho, “O caso provável”, retirado de Memórias Póstumas de Brás Cuba, de Machado de Assis, também ilustra interações mútuas entre cultura e comportamento individual. Escreveu Machado de Assis:

Se esse mundo não fosse uma região de espíritos desatentos, era escusado lembrar ao leitor que eu só afirmo certas leis, quando as possuo deveras; em relação a outras restrinjo-me à admissão da probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitui o presente capítulo, cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo dos fenômenos sociais. Segundo parece, e não é improvável, existe entre os fatos da vida pública e os da vida particular uma certa ação recíproca, regular, e talvez periódica, – ou, para usar de uma imagem, há alguma coisa semelhante às marés da praia do Flamengo e de outras igualmente marulhosas. Com efeito, quando a onda investe a praia, alaga-a muitos palmos a dentro; mas esta mesma água toma ao mar, com variável força, e vai engrossar a onda que há de vir, e que terá de tornar como a primeira. Esta é a imagem; vejamos a aplicação.

Deixei dito noutra página que Lobo Neves, nomeado presidente da província, recusou a nomeação por motivo da data do decreto, que era 13; ato grave, cuja consequência foi separar do ministério  o marido de Virgília. Assim, o fato particular de ojeriza a um número produziu o fenômeno da dissidência política. Resta ver como, tempos depois, um ato político determinou na vida particular uma cessação de movimento. ..

Não vou continuar a história de Machado, já que boa parte de sua obra está disponível gratuitamente na internet. Concluo, porém, parafraseando Manuel Bandeira, que Diabo não há; existem são contingências de reforço.

Se em momento de raiva quiser desabafar e mandar alguém ao inferno de Dante,  mande as contingências ao inverno, às favas, catar coquinhos. Mas tenha em vista que elas não serão afetadas dessas forma.

Clique aqui para ler um texto esclarecedor sobre contingência de reforço, da professora Deisy das Graças de Souza, da UFSCar.

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