Viver é inserção verbal:o resto é precorrência e decorrência

“O universo é feito de histórias, não de átomos”, disse a poetisa norte-americana Muriel Rukeyser, de forma semelhante ao evangelista João, que afirmou: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra é Deus”.

Partindo de perspectivas diferentes, Rukeyser e João sintetizam a importância da palavra na história humana e, consequentemente, a importância do outro na vida de cada um. A vida começa com a palavra e palavras só têm sentido na vida em grupo. É possível afirmar, portanto, que viver consiste em inserir-se verbalmente, consiste em exercer controle verbal. Parafraseando Isabel Allende, poderíamos dizer que a vida consiste em breves ruídos verbais característicos da relação falante-ouvinte. Sem a visibilidade a que o controle verbal proporciona, não passaríamos de fantasmas no mundo dos vivos.

Essa é uma de minhas interpretações do trecho que transcrevo a seguir, retirado de uma edição rara do romance Lições de Abismo, de Gustavo Corção, publicada pela Livraria Agir Editora (Rio de Janeiro), com ilustrações de Oswaldo Goeldi (edição de 1962, pp. 188-193).

Com os seguintes fragmentos, Corção ilustra o onipresente controle social, sobretudo controle verbal, por mais que não use esses termos. Com base em sua breve narrativa apresenta entrecortada a seguir, poderíamos concluir que não há vida sem inserção verbal. Nem para os fantasmas. Para citar o próprio Corção: “O homem precisa mais de assunto que de pão”. Viver é luta por inserção verbal: o resto é precorrência e decorrência da batalha diária para notar e se fazer notado, para aumentar o próprio poder de controle, o que, paradoxalmente, exige ficar sob controle do outro. Viver é interação mútua contínua. Só os mortos podem quebrar o controle recíproco e controlar sem ser controlados.

Vamos aos trechos de Lições de Abismo.

Minha cozinheira, rompendo hoje a reserva desconfiada (e diria até hostil), veio procurar-me para resolver um assunto de alta relevância: a sua folga nos dias de carnaval… Faltam dez dias… Com a robusta inconsciência das pessoas de sangue provisoriamente normal, Jandira conta empreender a mais estarrecedora das aventuras: o preparativo. Creio que já comprou os aviamentos da fantasia, e pelo que pude depreender, através da nevoa criada pelas considerações escatológicas, a minha boa cozinheira vai vestir-se de cossaco.

Ela irá ao carnaval. É indispensável que vá; que passe três dias dentro da indumentária abafada, e que, apesar de já não ser criança, obrigue sua corpulência às evoluções e às marchas forçadas que seriam capazes de derrear um fuzileiro naval. Mas irá; tem de ir; não pode deixar de ir.

Ora, eu não creio que seja simplesmente a atração do folguedo, como dizem, que incita a sisuda Jandira a trocar, durante três dias, a caçarola pelo pandeiro. Seus motivos são mais profundos. Em primeiro lugar, devemos considerar o justo sentimento de direito à extravagância, que no ambiente acanhado da cozinha não encontra oportunidades e espectadores. Todos nós temos um pouco de poeta, de doido e de palhaço. Ora, Jandira, vestida de cossaco realizará uma síntese dessas três vocações universais, o que não deixa de ser um apreciável resultado.

Mas o motivo principal, creio eu, é de outra ordem. Jandira, como todos nós, precisa achar apoio exterior para se livrar de suas angústias metafisicas. Precisa fugir do nada. Precisa sentir que existe. E para isso não há nada melhor do que a gente se inserir no coletivo, no conjunto que nos escore, no grupo que engrosse a espessura do ser.

Indo ao carnaval, Jandira estará solidamente inserida… Não indo, ainda que folgue as pernas, ela se sentirá excomungada; e até pior, desencarnada. Ora, ninguém quer ser fantasma; logo, é preciso inserir-se na grande sinfonia dos corpos. Andar, dançar, fazer em suma o que o mundo faz.

Além disso, cumpre notar que Jandira, como o viajante de que fala Pascal, que só viaja para capitaliza assunto, quer também conquistar o direito de dizer que foi, que andou, que dançou.

O importante, na vida, é estar presente; e depois é ter o direito de explorar essa simultaneidade e essa concomitância do corpo. O homem precisa mais de assunto que de pão…

Um incêndio é uma calamidade; mas ter visto um incêndio é uma satisfação. O home- que-viu-o-incêndio é o homem que desfruta um prestígio acalentador, embora efêmero. Hão de ouvi-lo. Nas rodas em que os outros estiverem discutindo a lamentável combustão o home-que-viu-o-incêndio fala de cadeira para o inferiorizado auditório que apenas soube da notícia, ou viu a fotografia, e que não tem outras alternativas além das conjecturas ou ideias universais sobre bombeiros e edifícios em chamas. Ele não: inserido no fato, saboreia o concreto, o prêmio tirado na loteria dos acontecimentos.

É por esses motivos transcendentais, creio eu, que a minha austera cozinheira está costurando a blusa de cossaco com o mesmo sorriso das noivas.

Mas o que acontece com a cozinheira acontece também com as patroas, embora com manifestações diferentes. Tempos atrás observei o auditório do Père Lebret, que por aqui andou pregando sua Economia e Humanismo. Ali estavam diversas senhoras atentas. Tinham ido à conferência do padre. Saboreavam agora a boa, a sólida conquista dessas duas horas bem etiquetadas (Conferência do Père Lebret). Mas a que ficou em casa, quando lhe disseram no dia seguinte que Dulce e Marta tinha ido à conferencia, sentir-se-á diminuída.

O conferencista que não se iluda: a maioria das pessoas ali presentes só quer de sua doutrina o mesmo que das cadeiras: um encosto, um contato, um remédio contra a solidão… O que importa, soberanamente, na conferência do Père Lebret, é o direito de dizer nos dias seguintes:

– Ontem, na conferência do Père Lebret…

Disse atrás que Pascal explica a maior parte das viagens pelo desejo de buscar assunto e alimento para a vaidade. Viaja-se para obter um diploma, como o de bacharel; ou para aumentar o reservatório de tema. Viaja-se para voltar com carimbos na mala, e com vulcões na memória. Posso imaginar o aventureiro retilíneo que faça exceção, mas não duvido que o caso geral seja este de quem parte para voltar, para trazer a personalidade engrossada …

Conheci um espírita que desmentia Pascal. Era um modesto funcionário dos Feitos da Fazenda, padrão L, que sonhava fazer uma viagem à Europa. Quando o conheci, já gastara nas rotinas da vida a última esperança de realizar o seu sonho; mas buscava nas teorias de Allan Kardec uma fonte de consolações e um derradeiro ideal.

Não iria à Europa agora, mas iria depois, isto é, faria sua viagem de recreio como alma-do-outro-mundo. Desembaraçado do espesso invólucro carnal que tão humilhantemente o trouxera cosido aos Feitos da Fazenda, seu perispírito em férias percorreria alegremente os museus de Paris e os palácios dos Doges de Veneza.

Por deficiência de memória ou de doutrina, não dizer se o homem, ou melhor, o meu fantasma voaria por cima dos mares ou se, apesar de desencarnado, ainda precisaria de uma embarcação. Firmo-me nesta última hipótese, mesmo porque uma boa viagem de recreio deve começar pelos chamados encantos da vida de bordo.

E da hipótese tiro as consequências. O finado, se tinha sobre os passageiros vulgares a vantagem da invisibilidade, que o liberta do preço da passagem e dos incômodos das alfandegas, tinha por isso mesmo o desconforto da incomunicabilidade. Dando mais razão a Pascal que ao funcionário dos Feitos da Fazenda, concluo que seria bem melancólico o recreio do fantasma. Vejo debruçado na amurada do navio, murcho e triste nos seus fluidos; de castigo na sua invisibilidade. Ou então, o que ainda é pior, eu o imagino, levado pela nostalgia, a tentar uma comunicação em estilo preternatural, com o desolador resultado de alargar ainda mais, em torno de si, a solidão do pavor.

Muito mais sensato do que o sonho do espírita é o ideal de minha cozinheira. Muito mais interessante do que o perispírito é a blusa de cetim azul com que pretende, apesar da corpulência, da cor, da idade e do sexo, contrafazer um cossaco.

Volto às minhas reflexões anteriores com mais esse documento que Jandira me fornece. A grande angústia de nosso tempo é um sentimento de excomunhão. Não sentindo em si mesmo uma existência própria, uma atividade própria, o homem precisa desesperadamente de um apoio exterior, muito mais, e muito mais nervosamente do que as exigências de sua natureza. Um andaime que lhe falte, ele logo se sente desvairadamente infeliz, como quem, num pesadelo, se achasse numa sala onde todo o mundo se diverte em chinês. É o relógio parado de Papini, que só está certo quando todos os outros fazem o favor de vir ao seu encontro; mas que logo fica para trás, morto, quando o alegre turbilhão de relógios vivos passa, seguindo a dança das horas. Desajustado, não compreendendo o chinês em que os outros riem e cantam, o excluído só pode fazer uma coisa que não exige sociabilidade: chorar. E olhe lá!

O resultado ai está: uma sociedade em pânico, que tudo aposta na estridência e na visibilidade; uma sociedade de aterrorizados que pisa os pobres, os pequeninos, os doentes, na fúria de atingir um estrado em praça, de onde possam fazer, uns aos outros, sinais febris e sem significação.

Para a moça que se debruça ansiosa sobre um figurino, a fim de saber o que deve fazer com seus próprios cabelos; para o jovem poeta que procura qual o nome em voga, o livro que deve ser lido e falado; para a patroa que vai à conferência; para a cozinheira que vai ao carnaval, o que importa, acima da realidade do cabelo, da poesia, do humanismo e do pandeiro, é entrar no grande palco iluminado, e pegar a deixa dos outros personagens desse drama confuso, que três bilhões de atores mal ensaiados representam, durante anos e anos, à luz da desdenhosa Aldebarã.

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