Usei o poema Tecendo a Manhã, de João Cabral de Melo Neto, como epígrafe na minha dissertação de mestrado, que tratou de interações em redes sociais. Minha dissertação foi feita entre 2005 e 2007, em plena revolução das redes sociais. A escolha do poema de João Cabral de Melo Neto mostrou um pouco o meu deslumbramento com o fenômeno. Terminei a tese achando que a  web 2.0 era uma espécie de salvaguarda da democracia informativa diante da ‘ditadura’ de grandes grupos de comunicação.

                              

Tecendo a manhã

João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece a manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro: de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzam

os fios de sol de seus gritos de galo

para que a manhã, desde uma tela tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.

No doutorado, minha banca, além de Glenn, Habermas, o próprio Skinner, entre outros, assim como  meus dados, me ajudaram a colocar  os pés do chão. Exemplo disso foi a epígrafe da tese: escolhi  Manuel Bandeira. Mais especificamente, um trecho de uma carta de Bandeira a João Guimarães Rosa sobre o livro de Rosa Grande Sertão: veredas. O trecho é o seguinte:

 “Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe:

O diabo não há!

Existe é o homem humano.”

 Aqui, o texto completo de Bandeira, transcrito neste espaço em outra ocasião. Trata-se de uma resenha do livro de Rosa em forma de carta. Note-se que temos aqui um bom exemplo de controle pela audiência. Bandeira, dono de estilo formal, totalmente diferente do de Rosa, adota o estilo de Rosa.

Voltando à minha tese, não podemos desconsiderar o potencial para o enriquecimento das interações sociais que surgiu com a possibilidade de quase qualquer um poder compartilhar conteúdos pela internet. Mas uma coisa é o potencial e outra é fato, é a realização do potencial.  Com a citação de Bandeira, já na abertura da tese, relativizei a questão.

Parafraseando Manuel Bandeira, podemos afirmar: Diabo não há; existem são consequências comportamentais.

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