Conversando sobre ciência e comportamento com uma criança

Desde que meu filho tinha três anos, costumo levá-lo ao colégio a pé, com desejo de que nossas caminhadas tenham efeito pedagógico. Em primeiro lugar, tenho a esperança de que meu filho, quando estiver com 18 anos, não tire o carro da garagem para comprar pão na Padaria da esquina. Então, considerei que eu teria de fornecer modelos para ele. Além disso, a caminhada para o colégio servia para a gente conversar sobre assuntos diversos.

Meu filho está com 11 anos e já discutimos temas como fé; significado da vida; selecionismo versus criacionismo; relativismo; existência ou não de vida após a morte, política, seu dia-a-dia no colégio, entre outros. Mas meu tema predileto é ciência (e parece que é um dos dele também) sobretudo ciência do comportamento. Compartilho aqui uma síntese de uma de nossas conversas, que girou em torno de significado de palavras, definição de termos.  

Bons cientistas, disse eu, costumam definir seus termos. Logo, a primeira exigência para que você seja um bom leitor de ciência (e escritor também) é descobrir em que sentido dado termo é usado pelo autor.

Isso é bico, você deve estar pensando. Basta consultar um dicionário ou fazer uma pesquisa no Google. Mas não necessariamente, disse eu. Quando se trata de ciência nem sempre o dicionário será de grande utilidade para se descobrir o sentido de certas palavras, certos termos usados pelo cientista. Pode-se dizer, portanto, que cientistas têm linguagem própria, usualmente diferente da linguagem de leigos no assunto.

– Você deve estar se perguntando por que raios cientistas tratam de temas cotidianos – comportamento, por exemplo – em linguagem diferente da corriqueira. Se a ciência, de modo geral, procurar explicar eventos naturais – note que natural aqui é usado em oposição a sobrenatural, já falamos sobre isso – por que usar linguagem própria de um grupo, que torna difícil a compreensão de fenômenos científicos por pessoas leigas, não familiarizadas com o linguajar ou jargão técnico-cientifico? Cientistas, afinal, buscam explicar ou complicar seus objetos de estudo?

– Bem, você já deve ter notado que uma mesma palavra pode ter vários significados. Um mesmo objeto de estudo, comportamento, por exemplo, que é objeto de estudo dos analistas do comportamento, pode ter significados diferentes entre cientistas do comportamento e psicólogos em geral. O cientista, em geral, lida com uma parte pequena de um fenômeno maior. É importante que conte para o leitor de que perspectiva ele esta tratado o tema. Ele precisa tomar cuidado com a comunicação de suas descobertas, entre outras razões para não induzir o leitor a generalizações indevidas (lembra a nossa conversa sobre falácias, raciocínio circular?).  Generalização será tema de uma de nossas próximas conversas.

Mas vamos ao que interessa. Para falar de análise do comportamento em uma perspectiva científica, vamos agora definir os dois termos-chave de nossa expressão, quais sejam: análise e comportamento.

Se você fizer uma pesquisa no dicionário Michaelis, por exemplo, irá descobrir que analisar significa identificar os componentes ou elementos fundamentais de algum fenômeno, objeto, estado da natureza, para chegar a uma conclusão, resultado ou solução. (Note que nesse caso, o dicionário será fonte válida. É por isso que anteriormente afirmei nem sempre o dicionário será de grande utilidade…. não afirmei categoricamente que o dicionário é fonte inválida quando se trata de descobrir o que cientistas querem dizer com seus termos). Bons cientistas, em geral, evitam ser categóricos sobre suas descobertas. A ciência está sempre em construção. Cada cientista lidam com um pedaço muito pequeno do mundo. Por isso bons cientistas são parcimoniosos, cautelosos, termos contrários de categórico.

Voltando ao termo análise, quando vamos a um centro médico com algum problema de saúde, o médico normalmente mede pressão, temperatura, batimentos cardíacos, pede exames (sangue, urina, entre outros). Com base nos resultado desses exames – análise clínica e exame físico do paciente – o médico, normalmente, estará apto a se pronunciar sobre a saúde do paciente, isto é: dizer o que está provocando o mal-estar de seu paciente. Para isso ele se baseou em parâmetros de definidos pela comunidade médica.

Ao analisar um fenômeno, portanto, o analista estuda diferentes dimensões, diferentes medidas, de tal fenômeno. Com base nos dados de seu estudo o analista infere o todo. No exemplo aqui referido, com base nos resultados de exames físico e laboratoriais o médico chega a uma hipótese diagnóstica sobre o estado de saúde do paciente.

Agora que você já aprendeu o que é analisar, podemos passar para a segunda palavra-chave mais importante de nossa discussão: comportamento.

Na minha área de estudos, comportamento é definido como interação sujeito-ambiente. Estou falando, sobretudo, do comportamento operante, caracterizado por B. F. Skinner da seguinte forma: “Os homens agem sobre o mundo e modificam o mundo ao redor; por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação”.

Mas esse tema, o comportamento operante, será tema de um próximo post.

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