Sobre o comportamentalismo de Mauro Chaves

As crônicas, cujos trechos compartilho a seguir, foram publicadas em 1959 no livro 3 contos artificiais, de Mauro R. F. Chaves, com prefácio de Celso Lafer e ilustração de Silvio Oppenheim.

Chamou-me a atenção o comportamentalismo do então muito jovem Mauro Chaves (ele publicou o referido livro antes dos 30 anos) ao tratar de temas como conhecimento e inteligência. No primeiro conto, Teoria do suicídio, Chaves faz uma crítica à razão. Sugere  que seria melhor equilibrar teoria e prática. Introduz o conto assim:

“Há o modo de ser-se condor nas idéias e viver-se nos ares longínquos da teoria pura; há o outro, de ser-se réptil e esfregar-se pelos poucos escorregadios chãos da pura prática; mas há também aquela maneira de transformar-se num equdina, voar e ser terrícola, vir dos ares aos chãos, quiçá portando novos pólens… Assim vivem os teóricos-práticos, os filosofantes dinâmicos, dos quais nosso mundo atual, cada vez mais chão, não está cheio”.

O trecho a seguir faz parte do conto O pracista e os objetos, em que satiriza o conceito de genialidade, a tradição pela tradição. Trata genialidade como produto da história, como relação comportamental (embora sem usar esses termos). Diferencia conhecimento construído socialmente de conhecimento pela relação direta com as contingências, embora, novamente, não use esses termos. Critica a História por enfatizar o conhecimento acadêmico, por assim dizer, em detrimento do conhecimento construído pela relação direta com o mundo. Escreveu Mauro Chaves na introdução do referido conto:

“O fenômeno do conhecimento pode ser considerado como a luta estafante que se trata entre o sujeito pensante e o objeto impassível, o qual se constitui óbice à inteligência. Da vitória de um depende a Sabedoria. Da do outro, a Ignorância. Vez por outra, aparece um indivíduo superforte, quase invulnerável, que pouco sente os efeitos da terrível contenda. Mais forte do que o objeto, destroça-lhe o obstáculo e, vitorioso, pisando por sobre os entulhos, penetra-lhe as essências. A esses a humanidade chama ‘gênios’. Em sua maioria, são também cunhados de ‘artistas’. Todos eles são os verdadeiros amigos dos homens. E dentre ele há até os chamados ‘filósofos’, isto é, amigos da sabedoria. Porém, deve haver outra categoria de homens que não lutam contra o objeto, não obedecendo às leis do conhecimento. Para estes não existem as barreiras do objeto. Têm livre acesso às essências. São os verdadeiros amigos das coisas, conhecendo-lhe pelo amor, os princípios intrínsecos. Logicamente eles são por total ignorados pela interesseira História, visto que nada roubam às coisas porque as amam e daí nada deixam ou divulgam para os homens”.

Aqui, critica o altruísmo, que seria apenas uma forma refinada de egoísmo.

“Quanto mais culto é o homem, mais ele é, ao um só tempo, egoísta e altruísta. Mais ele é possuído desses dois imensos vícios humanos, que, na verdade, não passam de um só: o egoísmo é o amor extremado ao próprio indivíduo; o altruísmo é o mesmo amor à própria espécie. O segundo não deixa de ser o reflexo do primeiro, se considerarmos que amamos nosso semelhante porque ele é humano e nós também o somos. Da mesma forma o amamos, para que, unidos e fortes pelo amor, a nós seja mais fácil vencer o mundo dos objetos não humanos. Assim é que os gênios ousam despudoradamente levantar o véu dos objetos e mostrar sua nudez aos homens, adquirindo por isso o amor destes”.

A passagem a seguir foi retirada do conto A estranha história dos monges sócios de inteligência. O autor critica a noção de inteligência mensurável, predominante aceita, como destaca Lafer no prefácio. “Costitui [o conto] sátira às pretensões de inteligência que nos sugere Swift e Chesterton”. O conto se refere a cinco monges que resolveram associar as próprias inteligências em busca da Verdade (assim, com inicial maiúscula). Não eram monges propriamente, diz Chaves, pois “eram todos apóstatas…até excomungados. Haviam desprezado os dogmas de todas a Igrejas e desconsiderado a sapiência das Escrituras”. Os monges abandonaram os respectivos nomes de batismo e autodenominaram Primus, Secundus, Tertius, Quartus e Quintus. Escreveu Mauro Chaves:

“Pela história das dialéticas, sabemos que, desde as mais priscas eras, o anseio da Verdade é constante do homem. E por isso que há as filosofias, as ciências e as artes. Por meio destas, pretende a criatura humana indicar ao semelhante até que ponto conseguiu chegar sua inteligência, na corrida de tropeços através das entulhentas sendas da Verdade. São pois. Essas culturas, simples marcos, mero símbolos, pelos quais é possível saber-se de onde começar, aproveitando-se o que já foi percorrido anterior. Isto prova que até, até nas peregrinações em busca da Verdade, procuram os homens associar-se. Constituem-se, porém, uma sociedade por demais imperfeita, visto que baseada e delimitada por meros símbolos ou simples marcos, como o são essas culturas…”

“Era como dizia Quintus: – ‘O objetivo supremo dos homens não deve ser buscado de maneira tão bisonha, como tem sido feito desde os primórdios dos séculos…’E Quartus continuavam: — ‘A inteligência de cada homem é limitada e mensurável. Como tal, pode ela ser somada ou associada à de outro homem. E seus limites se distanciarão ainda mais, desde que outras inteligências a ela possa ser acrescentadas…’Era quando Tertitus opinava: – Então a inteligência humana será maior; será gigantesca e tenderá ao incomensurável…’. Também Secundos costumava bem frisar: – ‘E com essa inteligência imensa será possível ao homem alcançar a Verdade. Ver-lhe-á então a face incógnita e tão falsamente imaginada… Deixava-se a Primus a conclusão: – E então o homem já não precisará associar-se as culturas, meros símbolos malcolocados, deixados pelos que não conseguiram encontrar melhores demarcações. Haverá uma associação direta e dinâmica de inteligências. E com esta conseguiremos para sempre a Suprema Verdade”.

Os monges decidiram medir as próprias inteligências, alargar a inteligência dos menos favorecidos mas não chegaram a um consenso. E embora trabalhassem arduamente, seu empreendimento acabou fracassado. Transformaram-se em ‘dementados’, nos termos de Lafer.

O próprio Celso Lafer era muito jovem quando escreveu o prefácio da obra de Chaves. Parece que Lafer não ficou satisfeito com o desfecho do conto. Fala de uma Inteligência aparentemente sobrenatural, como o trecho seguinte do prefácio sugere:

“Entretanto, A INTELIGÊNCIA transcende às preocupações humanas. Ela não cuidará da verdade dos homens, – que conhece, – mas da sua própria – que desconhece. Incapaz de atingi-las destrói-se e, consequentemente, as dos próprios monges, que se transformam em ‘dementados'”.

Fiquei pensando que faltou incluir no time dos monges um Manoel Bandeira. Manuel Bandeira que, ao ler Grande sertão: Vereda, concluiu:

Diabo não há; existe é o homem humano.

Mas logo recuperei o senso. Teriam os monges conseguido seu intento se tivessem maior compreensão de comportamento humano? Possivelmente não, pois compreender não é agir de acordo com o compreendido.

Concluo, pois, dando razão a Guimarães Rosa: viver é muito perigoso. 

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