Sobre a genialidade e humildade de Darwin

Os primeiros manuscritos de Charles Darwin e Alfred Wallace sobre a teoria de seleção natural das espécies foram lidos em público, dia 1º de julho de 1859, em reunião da Linnean Society de Londres, que era a principal instituição científica em história natural da Grã-Bretanha (ver Browne, 2006).

Em Obras Filosóficas (coleção Grandes Pensadores, Companhia Editora Nacional, 1969) Will Durant faz uma lista daqueles que a seu ver seriam os dez maiores pensadores da humanidade.  Eram os seguintes, segundo Durant:

  1. Confúcio
  2. Platão
  3. Aristóteles
  4. Tomás de Aquino
  5. Copérnico
  6. Bacon
  7. Newton
  8. Voltaire
  9. Kant
  10. 10 Darwin.

Sobre Darwin, Durant escreveu o seguinte:

Não podemos saber o que a obra de Darwin virá a significar na história do gênero humano. Talvez que no futuro seu nome brilhe como uma “virada” na marcha do desenvolvimento mental da civilização do Ocidente. Se ele estiver errado, o mundo o esquecerá, como já quase esqueceu Demócrito e Anaxágoras; se estiver certo, os homens datarão de 1859 o começo do pensamento moderno.

Porque, calmamente e com a maior humildade, Darwin ofereceu uma pintura do mundo totalmente diversa das que desde o começo vinham entretendo os olhos dos homens. Havíamos admitido que o mundo era de uma ordenação a mover-se sob o governo duma inteligência todo-poderosa, para um objetivo, uma perfeição, em que cada virtude encontraria afinal a sua recompensa. Mas, sem atacar nenhum credo, Darwin descreveu o que os seus olhos viram. E subitamente o mundo se tornou rubro, e a natureza, que parece tão bela sob as cores do outono, passou a mostrar-se feroz arena de luta, na qual o nascimento era um acidente e a morte a única certeza. “Natureza” era a “seleção natural”, isto é, a luta pela vida; e não só pela vida como pelo poder – uma impiedosa eliminação dos “inaptos”, das flores mais tenras, dos animais de maior delicadeza, dos homens de maior bondade. A superfície da terra enxameia de espécies e indivíduos belicosos, e cada organismo se torna a presa natural de algum mais forte; cada vida é vivida à custa de outra; grandes catástrofes “naturais” sobrevém, eras do gelo, terremotos, seca, tufões, pestes, fomes, guerras: milhões e milhões de vida são violenta ou lentamente eliminadas.  Algumas espécies sobrevivem por algum tempo. Isto é a evolução. Isto é a natureza. Isto é a realidade.

Copérnico reduziria a terra a grão de poeira entre as nuvens; Darwin reduziu o homem a um animal em luta para uma dominação do globo. Deixou o homem de ser filho de Deus; passou a filho da luta, com suas guerras crudelíssimas a espantarem os mais ferozes animais. A espécie humana não era mais a criação favorita duma deidade benevolente, e sim, uma espécie simiesca, que os azares da mutação e da seleção ergueram a precária dignidade, e que a seu turno está designada a ser superada e desaparecer. O homem não é imortal e está condenado a morrer desde a hora em que nasce.

Imagine-se a impressão destas ideias sobre a suave filosofia dos vossos anos verdes, e o esforço para adaptar-nos a sangrenta pintura do mundo darwiniano. Não admira que a velha fé as combatesse ferozmente e que durante uma geração o conflito entre religião e a ciência fosse mais amargo do que no tempo em que Galileu era forçado a retratar-se e Bruno morria na fogueira. E os vencedores, exaustos da peleja, sentam-se tristes em meio das ruínas, secretamente lamentando o próprio triunfo, secretamente chorando o velho mundo que a vitória destruiu.

 

A origem das espécies, segundo Janet Browne (Brawne, 2006):

 

“A origem das espécies, de Charles Darwin, é certamente um dos mais importantes livros científicos já escritos. No entanto, não se ajusta ao estereótipo comum do que entendemos hoje por ciência. Tem um estilo maravilhosamente pessoal, não possui gráficos ou fórmulas matemáticas, nenhuma referencia a figuras de jaleco branco num laboratório, sua linguagem não é especializada …A origem das espécies foi com certeza uma publicação capital, que alterou de maneira espetacular a natural da discussão sobre nossas origens. A influência recíproca entre um homem, um livro e as diversas cirscunstências sociais, religiosas, intelectuais e nacionais de suas audiências e as correntes mais amplas de mudança histórica fez da Origem das espécies de Darwin um fenômeno extraordinário em seu tempo – e permite que a obra continue a interessar e a instruir seus leitores ainda hoje”.

Da importância da diversidade na seleção natural, diz Darwin, citado por Browne:

“A seleção natural provavelmente favorecia aqueles animais e plantas que se diversificavam, exatamente como se a natureza fosse uma bancada de fábrica em que a produção tornava-se mais eficiente se os trabalhadores executassem tarefas díspares”.

Referências

 

Browne, J. (2006). A origem das espécies de Darwin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Durant, W. (1969). Os grandes pensadores. São Paulo: Companhia Editora Nacional (trad. edição impressa no Brasil em 1969)

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