Questões de ciência e de aplicação do conhecimento científico

No início de 2009, já como aluna de doutorado, tive a honra de fazer a disciplina Ciência e comportamento humano: uma leitura crítica, com a professora Tereza Sério (Téia). Tratou-se de uma leitura crítica do livro Ciência e Comportamento humano (CCH), de B.F. Skinner. As discussões em sala de aula, como característico do PEXP e sobretudo nas aulas de Téia, eram antecedidas pela leitura de textos a ser discutidos. Nesse caso, eram capítulos de CCH. Antes ou no fim de cada aula o aluno respondia a questões de avaliação (chamadas no PEXP de verificação de leitura, ou simplesmente VL). Transcrevo, a seguir, a primeira VL do curso.

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM PSICOLOGIA EXPERIMENTAL: ANÁLISE DO COMPORTAMENTO

CIÊNCIA E COMPORTAMENTO HUMANO: UMA LEITURA CRÍTICA 2009 Avaliação 1

ALUNA: Maria de Lima Wang data: 23/03/2009

1. Considerando o que discutimos sobre a primeira parte de CCH (a possibilidade de uma ciência do comportamento humano), apresente dois aspectos que marcam a concepção de Skinner sobre a produção de conhecimento científico.

Em primeiro lugar, destacaria a concepção do autor de que a produção de conhecimento não pode ser dissociada da aplicação desse conhecimento. Embora algumas de suas afirmações iniciais possam sugerir que ele defenda posição contrária a essa, quando afirma, por exemplo: “Talvez não seja a ciência que está errada, mas sua aplicação” (p.5), à frente fica clara sua visão de que não se pode separar a produção de conhecimento da aplicação deste conhecimento. Esta passagem exemplifica a posição do autor: “… As teorias afetam a prática. Uma concepção cientifica do comportamento humano dita uma prática, a doutrina da liberdade pessoal, outra. Confusão na teoria significa confusão na prática.” (p. 10)

Skinner rejeita a suposição de que a ciência é neutra. A própria visão de mundo do autor, a forma como descreve o homem na natureza, a afirmação de que comportamento é determinado, afastam qualquer possibilidade de ele se confundido como defensor da neutralidade da ciência. Ser favorável ao discurso da neutralidade científica seria contrapor-se às próprias formulações sobre comportamento. Para Skinner, o conhecimento, como qualquer produto do comportamento, não é livre.

Outro aspecto marcante, a meu ver, na concepção de Skinner sobre a produção de conhecimento científico refere-se a sua postura sobre as funções da ciência. Para a Skinner, cabe a ciência do comportamento descrever seu objeto de estudo, prever e controlar. Segundo Skinner (1953/2005):

A ciência não só descreve, ela prevê. Trata não só do passado, mas do futuro. Nem é previsão sua última palavra: desde que as condições relevantes possam ser alteradas, ou de algum modo controladas, o futuro pode ser manipulado. (p.7)

Para Skinner, portanto, não se pode separar produção da aplicação do conhecimento científico; não existe neutralidade na ciência, e o papel da ciência vai além da mera contemplação, a ciência não é passiva. Conforme o autor: “Quando já tivermos descoberto as leis em um sistema, estaremos então preparados para lidar eficientemente com esta parte do mundo”. (p.15)

 

A propósito dessa discussão, sugiro a leitura do artigo Faith, Fact, and Behaviorism, de J. E. R. Staddon.Faith_fact_and_behaviorism

Referência: Skinner, B.F. (2003). Ciência e Comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes (Obra publicada originalmente em 1953 como Science and human behavior, tradução para português por João Claudio Todorov).

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