Natal e exclusão social

Transcrevo aqui trechos do capítulo 23 de dezembro do livro Lições de abismo, de Gustavo Corção, publicado em 1962 (edição especial, ilustrada por Oswald Goeldi). Não concordo com tudo o que diz o autor.  Mas seu texto serve para discutir origem, evolução e função de certas práticas culturais. No caso do Natal, essas práticas parecem ter pouca semelhança com aquelas de suas origens.

Bom Natal a todos!

Estamos em véspera de Natal. O movimento das ruas dobrou; triplicou. Os automóveis buzinam, imobilizados nas esquinas entupidas; as lojas regurgitam; os vendedores não têm mãos a medir; e as pessoas, os clientes, entram, saem, escolhem, regateiam, comprimem-se, acotovelam-se, mas sorriem, sim, sorriem – porque parece que todo o mundo está muito contente.

Todo o mundo, menos o velho Scrooge [personagem principal da história Conto de Natal, de Charles Dickens]. O amargo e triste usuário só pensa em si mesmo, e não lhe sobram ouvidos para as vozes cordiais que cruzam os ares com votos de Natal venturoso. Christmas! Merry, merry Christmas!

 Todo o mundo parece alegre. Todo o mundo parece ter na alma hinos e luzes. Todo o mundo, menos o velho Scrooge, que vê com olho mau e oblíquo essa inconveniente profusão de gastos inúteis.

….

Mas será mesmo verdade, ó amável Dickens, que todo o mundo esteja contente? … Embora mesquinho, ele ao menos compreende uma coisa de capital importância: que é muito difícil dar. É a última coisa que se aprende; e é a primeira que se exige para um mundo habitável. E é por isso que eu vejo com melancolia essa procissão de equívocos embrulhados. Quem terá o coração tão duro que dê uma pedra ao filho que pediu um peixe? Mas a dificuldade se resolve desde que se embrulhe a pedra em papéis festivos … É isso que dói, e como dói! A alegria falsificada, a alegria que virou matéria plástica.

Não digo que seja impossível uma alegria verdadeira, uma alegria de criança, com um brinquedo truncado e pobre. Não. É claro que uma alegria de criança pode nascer à toa; é claro que um pedaço desconjuntado de celuloide pode fazer feliz uma criança; é claríssimo que que ainda não conseguiram secar, por mais que tentem, as fontes vivas da infância, as riquezas de um coração menino que com pouco se contenta. Não. Continuem assim, por séculos e séculos a enganar as crianças e os pobres. Sempre haverá pobres; sempre haverá crianças. Mas não é isso que me aflige. É também evidente que escolheram o dia do nascimento de Jesus para infligir uma festiva humilhação à pobreza. Basta pensar no Natal dos pobres. As ruas se enchem de miseráveis em filas nos portões dos palácios. Se chove, fica ainda mais perfeito o espetáculo. Mas não é isso, ó Dickens, que mais me dói.

O que me dói é a falsificação, é o espírito de praxe que preside as tristes festividades dos homens. É dia de dar. A folhinha marcou o dia de comprar presentes. A vizinha da direita comprou, a vizinha da esquerda comprou. É preciso comprar. É praxe. É uso. É costume. E todo o mundo fica contente de entrar na equação de um uso, de um costume. Da praxe.

Que Natal é esse que acentua as injustiças, que exasperas as paixões, que alarga os equívocos. Admitamos a festa da cidade, do país, do gênero humano. Admitamos a celebração de algum feito que a todos interesse. Admitamos que depois de amanhã o mundo se lembre da natividade do Salvador, que nasceu de uma Virgem, na gruta de Belém, porque não havia lugar para eles nas hospedarias.  Mas nesse caso, meu caro Dickens, eu exijo, em nome da mesma lógica que mata, que a alegria seja de uma outra ordem, e que não dependa assim, em primeira linha, dos cálculos e dos orçamentos. Há alegria e alegria; há graus de alegria; espécie de alegria: desde a cócega no pé da criança até a paz que nasce de uma concórdia perfeita…

Exijo uma outra alegria, apoiada sem dúvida nas coisas visíveis… porque os homens vivem de sinais visíveis. Mas apoiada de leve, como convém às coisas do puro amor. Não é assim que fazem as namoradas quando guardam pequeninas lembranças. Não seria melhor dar de presente pétalas de rosas, leve pétalas, levíssimas hóstias de amizade perfeita?

Chamou-me a atenção o diálogo travado à porta de uma casa de brinquedos. A dama de azul, majestosa e autoritária, discutia com o vendedor obsequioso, que já dava mostras de impaciência. Passando de uma para outro, ora nas mãos profissionais do vendedor, ora nas mãos finas e cheias de anéis da abastada freguesa, uma bonequinha preta de olho arregalado, e com uma cestinha de banana na cabeça, parecia alheia à discussão:

– É muito cara.

– Foi remarcada, madame. A senhora não encontrará uma boneca destas por menos de cem cruzeiros… Mas se a senhora quiser temos bonecas mais baratas. Qual é o seu orçamento, madame?

A dama de azul franziu ligeiramente os sobrolhos.

– É para uma menina pobre. A filha da empregada.

Ela não podia, evidentemente, marcar em cem cruzeiros o limite de “seu orçamento” como queria o desajeitado vendedor; assim, dizendo que era para uma menina pobre, explicava-se melhor. Não era para ela, para a filha dela, para a sobrinha dela, para alguma criança de sua espécie,  dela, de sua qualidade, de sua classe, de sua condição: era para a filha da criada.

O vendedor compreendeu logo que o problema se deslocava para um novo sistema de micro-unidades. Ninguém, evidentemente, mede em quilômetros o diâmetro de um glóbulo de sangue, nem mede em milímetros a distância de Sírius. Tudo tem suas dimensões, suas escalas adequadas, neste harmonioso universo.

A propósito do tema, indico aqui o filme Um conto de Natal.

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