Solidão como problema de saúde pública

Indico aqui esta matéria, Loneliness Epidemic Growing into Biggest Threat to Public Health, de Janice Wood, descrevendo pesquisas indicando que solidão e isolamento social podem se tornar um problema de saúde pública maior que obesidade. Nos EUA, afeta mais de 42 milhões de pessoas acima de 45 anos. Para enfrentar o problema, a professora de Psicologia Julianne Holt-Lunstad (Brigham Young University), especialista no tema, ouvida para a matéria, sugere ampliar esforços para pesquisa e também para intervenções, tais como:

  • Oferecer treinamento de habilidades sociais para crianças nas escolas.
  • Incluir conexões sociais em prescrições médicas de pessoas que sofrem do problema.
  • Preparar estratégias para lidar com a redução de contatos sociais, típica após a aposentadoria.
  • Dispor espaços comunitários compartilhados para estimular interação e recreação.

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As paixões de Bertrand Russell

Bertie

A autobiografia do matemático e filósofo Bertrand Russell (1872-1970), publicada originalmente em 1967, compõe-se de três volumes. No Prólogo do primeiro volume, Russell descreve três grandes norteadores da própria vida: amor, conhecimento e compaixão. É espantoso que tenham se passado 50 anos desde a publicação da autobiografia de Bertie e os males que causavam compaixão ao filósofo continuam a assombrar a humanidade.

Diz Russell:

TRÊS PAIXÕES, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram minha vida: o anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa compaixão pelo sofrimento da humanidade.  Essas paixões, como grandes vendavais, empurram-me para aqui e acolá, em curso instável, sobre um oceano profundo de angústia, chegando às raias do desespero.

Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase – êxtase tão grande que, não raro, eu teria sacrificado todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Procurei-o, ainda, porque o amor nos liberta da solidão – essa solidão terrível pela qual nossa trêmula consciência observa, além dos limites do mundo, esse abismo frio e desalentador. Busquei-o, finalmente, porque vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que os santos e os poetas imaginavam do céu. Eis o que busquei e, embora isso possa parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que – afinal – encontrei.

Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração dos homens. Gostaria de saber por que cintilam as estrelas. E procurei apreender a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos acontecimentos. Um pouco disso, mas não muito, eu o consegui.  Amor e conhecimento, até ao ponto em que são possíveis, conduzem para o alto, rumo ao céu. Mas a compaixão [Russell usou o termo pity, que preferi traduzir para compaixão, que acho mais preciso para um defensor da liberdade e militante da igualdade social, como ele foi] como sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de dor ecoavam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desvalidos transformados em fardo para seus filhos, e todo o mundo de solidão, pobreza e sofrimento, convertem em escárnio o que deveria ser vida humana. Anseio por aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.

Essa tem sido a minha vida. Achei que valeu a pena viver e, de bom grado, tornaria a vivê-la, se tivesse a oportunidade de fazê-lo.

Russell, B. (1967). The autobiography of Bertrand Russell – 1872-1914 – London: George Allen and Unwin (p. 13).

Avanços da IA: ameaças e oportunidades

Reboot for the AI revolution: Ótimo artigo de Yuval Noah Harari  – autor de “SAPIENS:Uma breve história da humanidade” – sobre oportunidades e desafios do desenvolvimento das inteligências artificiais.

Em geral, as pessoas se dividem, nesse tema, entre as que encaram essas novas tecnologias com entusiasmo, acreditando que proporcionarão avanços sociais significativos; as céticas, que acreditam que os robôs vão aprofundar as desigualdades sociais; e as catastróficas, que acreditam que os super-robôs vão colocar em risco a a sobrevivência da humanidade.

Quem leu “Uma breve história” sabe que Harari mostra-se bastante cético sobre o futuro da humanidade. No entanto, parece menos cético sobre os avanços da IA. Veja como ele termina o referido artigo:

“Os desafios colocados no século XXI pela fusão de infotecnologia e biotecnologia são, provavelmente, maiores do que os lançados por máquinas a vapor, ferrovias, eletricidade e combustíveis fósseis. Dado o imenso poder destrutivo de nossa civilização moderna, não podemos suportar mais modelos fracassados, guerras mundiais e revoluções sangrentas. Temos de fazer melhor desta vez”.