Uma crítica de Mario de Andrade

No post anterior,  Mais vale uma crítica de Mario de Andrade que mil elogios, transcrevi a primeira parte de uma carta de Mario de Andrade a Sergio Milliet em que Mario faz comentários gerais acerca do estilo literário de Milliet (ver Mario de Andrade por ele mesmo, de Paulo Duarte, Edart, 1971, pp. 306-312). Na segunda parte da referida carta, Mario de Andrade faz comentários específicos indicando páginas onde ele encontrou problemas e sugerindo encaminhamentos para esses problemas. Compartilho aqui porque novamente acho que é um modelo de uma leitura cuidadosa e comprometida em tornar melhor o trabalho do amigo. Restringi-me a transcrever trechos relacionados com a obra de Milliet. Lembremos que se tratava de correspondência de 1938, que ficaria só entre os dois, que veio a público depois da morte de ambos os escritores. Aparentemente Mario de Andrade ficou inicialmente sob controle da forma e à medida que sua leitura prosseguia a história em si foi assumindo maior controle. Minha interpretação se baseia no fato de ele só inicialmente notar  problemas como ele mencionou. É pouco provável que não houvesse problema do gênero ao longo do texto. O controle d narrativa superou o da forma.

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Diz Mario de Andrade:

Tomei a liberdade de ir corrigindo no correr da leitura os erros notórios de datilografia. Agora passo em revista as poucas notas que tomei e que preciso consultar você sobre:

  1. 1 – “Hoje em dia as cenas todas se recortam nitidamente em minha memória. Com um relevo que me parece até SENTIR dentro da cabeça.” – Não me parece que seja o momento de aplicar o “hoje em dia” que neste caso me parece um galicismo inútil. Você quer exatamente dizer que agora, atualmente, “hoje” as cenas etc. Há uma subtileza de sentido no “hoje em dia” em nossa língua, pela qual a atualidade a que ele corresponde significa “época”, a “atualidade”. “Hoje em dia” abrange pois uma quantidade qualificativa de tempo, que não implica apenas o passar do tempo, (no seu caso o descororamento fatal com que os fatos se enfraquecem em nossa memória) mas uma transformação radical de caráter de uma face para outra. “Em criança eu chorava diante da morte, hoje em dia ela apenas me faz sorrir”. “No romantismo os homens é que defloravam as mulheres, mas hoje em dia elas é que defloram os homens”. “Você não imagina como eu sofri com isso ontem, mas hoje estou mais consolado”. “Há dois anos que busco uma consolação, mas hoje desisti de quaisquer consolo”. Na segunda frase citada, você põe “sentir” onde eu escreveria “sentí-lo”, o relevo. Fica mais claro, de maior facilidade de compreensão imediata. Consulte o Leo que sabe muito mais destas coisas que eu.
  2. 2 – “Ninguém milhor DO que ela pra colocar ventosas. E a vaidade de LHE ouvir elogiarem os predicados…” Eu evitaria o “do” que me parece inútil pro rítmo da frase. E na segunda frase mudava o “lhe” de posição. “E a vaidade de ouvir lhe elogiarem os predicados compensava-lhe as noites passadas em claro”.
  3. 5 – “Você compreende QUANTO essa exibição involuntária da doente querida a estranhos comporta de diminuição, de humilhação, é A PALAVRA, para o amante”. Eu poria “você compreende O quanto essa exibição etc. E não consigo entender o que é “a palavra”, do fim da frase.
  4. 12 – “As confidências tinham aproximado-nos mais”. Positivamente não. Ou “as confidências nos tinham aproximado mais” à portuguesa, ou “as confidências tinham nos aproximado mais” à brasileira.
  5. 16 – “Como eu sinto, longe de SI, esse seu drama”. É “longe de você” que se deverá dizer em boa linguagem.
  6. 17 – Numa das vezes em que você persegue ou imagina perseguir a amazona, você comenta: “O segundo de indecisão que me reteve foi bastante para não descobri-la de novo. Podia ter tomado um bonde, entrado nalgum ARMAZEM”. Você não acha que há uma tal ou qual impropriedade em fazer uma “amazona” a quem se persegue liricamente, entrar num armazém? Fica pau, assim. A não ser que se queira tirar justo um efeito de contraste (e não é o caso), há que ter sempre em conta a gradação de valor lírico das palavras. Porque entrar num armazém, e não numa loja, numa casa de modas, numa casa de chá? ou “entrando em qualquer parte”. Também na primeira frase do citado percebo agora uma leve impropriedade, preferiria “foi bastante pra que eu não a descobrisse de novo”.
  7. 17 – “Desde sempre se lamentam sobre o número dois aqueles que SABEM, meu Deus, dentre os teus filhos”. ´É exatamente assim esse verso de Werfel?
  8. 22 – “Quis beijá-la e ela virou o rosto de modo a entregar-me a fronte descoberta”. É a “fronte” ou a “nunca” que você quer dizer?
  9. 28 – A última frase do cap X acaba textualmente assim; “Mas era uma luta desigual essa em que todas as armas da outra só podia opor seu encanto sexual, sua fatalidade, seu “E fica nisso, arre, que até é pornografia, mas da grossa!” “Seu” o que?
  10. 74 – “…em tudo isso eu só vejo, só sinto, só penso em Ana Maria”. Há exemplos, ou milhor cochilos desses nos maiores clássicos, mas não será preferível escrever bem certinhamente: “Em tudo isso eu só vejo, só sinto Ana Maria, só penso nela”. Ou, com coragem mais brasileira: “em tudo isso eu só vejo, só sinto, só imagino Ana Maria”.

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