Uma autocrítica dramática de Mario de Andrade

Em dois posts anteriores, transcrevi uma carta de Mario de Andrade em que ele fazia uma crítica a um dos romances (Duas cartas no meu destino, Guaira, 1941) e ao estilo literário, em geral, de Sergio Milliet. Qualificou Milliet como time reserva do time principal. Depois de pensar melhor, arrependeu-se profundamente de ter usado essa expressão para descrever as qualidades literárias do amigo. É o que mostra uma carta enviada a Sergio Milliet depois. O leitor que teve acesso apenas à carta anterior, com as duras críticas a Milliet, terá acesso a um quadro incompleto sobre essa história. Por isso resolvi compartilhar aqui essa segunda carta. E também para mostrar a beleza que é alguém reconhecer que errou principalmente quando não precisava reconhecer (a essa altura ele havia recebido a resposta de Milliet, que aparentemente encarara a crítica numa boa). Nessa carta Mario de Andrade faz severas críticas ao próprio comportamento. Referindo-se a si mesmo diz preferir o Mario de Andrade do início do modernismo, dos anos 1920, “em que não tinha ainda em mim a excessiva presença de mim mesmo, e só via gênios em torno”.

Leia abaixo a referida carta que faz parte do livro Mário de Andrade por ele mesmo, de Paulo Duarte (Edart, 1971, pp. 312-314).

Rio, 14-XII-38

Sergio,

é com assanhamento de namorado que lhe escrevo. Acabo de receber sua carta agorinha mesmo, e fiquei satisfeito por ver que você soube compreender, perdoar e levar a bom termo do sorriso final da carta, a minha infelicíssima expressão de “reserva” que lhe atirei sem a menor delicadeza intelectual. E principalmente sem verdade. Mandei a carta, uma coisa principiou roncando dentro de mim e de-noitinha, quando dou meu passeio costumeiro depois do jantar, sozinho, pela praia, reparei que tinha falado uma besteira. Fiquei completamente desgraçado. Naquela segurança muito positiva de que você não era segundo time, quis especificar de que forma você era primeiro time, e abusando da comparação achei uma terminologia desgraçada que inda piorou mais a coisa, porque a tornou degradante. Principalmente me veio súbito no espírito a verificação danada. Segundo time não corta a vasa do sujeito passar pro primeiro e consequentes ascensões, mas ser reserva do primeiro é justamente deixar o indivíduo incapaz de ir no escrache prá Europa, é cortar a vasa, e negar  qualquer possibilidade de ascensão, porque já situa o sujeito num máximo. Mas num máximo subalterno. E então, com a clarividência da notinha mansa, principiaram aparecendo os argumentos mais perfeitos. Ora do que eu me servi para botar as pessoas no primeiro time? Simplesmente de um critério, que poderá ser bom, mas não pode nem deve ser o único: o fato de ter escrito obras marcantes. Mas começaram a surgir em massa no meu espírito, criadores positivamente de primeiríssimo time e que não são marcantes, como Charles Péquin e Segonzac na pintura atual, ao passo que um “marcante” como Van Dongen por exemplo, ou Zuloaga são reverendas inferioridades. Repare Mario Puccini e Palazeschi, primeiro time na literatura italiana atual, e bem menos marcantes que Martinetti, uma besta. Jules Romains é outro, bem menos marcante (em qualquer sentido desta palavra) do que o autor de Fermé la Nuit que não me lembro o nome [é Paul Morand]. Por outro lado, estou lendo nas frinchas do tempo, que o trabalho agora é enorme na reta final dos cursos, estou lendo os Ensaios. E vendo o efeito que estão tendo. Positivamente os seus estudos sobre Gilberto Freyre são luminosos, talvez o que de mais livremente contemplativo e crítico já se tenha escrito sobre ele o Rosário Fusco, sem intriga, acha os seus artigos paus, mornos. É sempre a tal história: ausência do marcante. Positivamente, você raro empolga, mas inferir d’aí que é ruim, é estupidez. Pau, não direi, mas há em você aquela mesma mornidão, aquela mesma identidade, aquela mesma igualdade de atitude, de calma, de equilíbrio, que a gente encontra na obra de um Jules Romains, ou de um Proust. Fatiga. Mas Proust, pelas mesmíssimas razões também me fatiga e jamais pude ler dele mais de 50 páginas em seguida. E os poetas ingleses, a meu ver os mais grandes líricos, os que eu prefiro, também me fatigam enormemente e leio em gotas. Mas o pior é a reação que estão causando os seus malfadados artigos sobre literatura nordestina em comparação com a paulista. Estão dando uma raiva no pessoal que você nem imagina. Outro dia encontrei o próprio Graciliano, que não é nenhuma criança em idade, e é calmo de espírito, e cá pra nós, é um gostoso de rebaixar os outros nordestinos, para poder ficar de cima, e tem uma visível inquietação diante de Jorge Amado e Lins do Rego, pois encontrei o próprio Graciliano num tal e tão abespinhado estado de raivinha contra você que me diverti foi muito.

Em tudo isto, Sergio, o que mais me inquieta sou eu mesmo. O que há de mais perfeito em mim, de mais digno de ser posto à mostra dos outros seres, meu Deus! Ando perfeitamente infeliz nas minhas expressões e atitudes, é o diabo? E começo a pensar. Até que ponto foi maldade não consciente a expressão estúpida que usei com você e que se não feriu foi mesmo por exclusiva superioridade sua? Mas em compensação outros amigos, se têm ultimamente ferido com expressões minhas. Mas não é só ultimamente, sempre. Tenho uma grosseria interior desgraçada. Se lembre que principiando por brincadeira e verdadeiro, sim, sincero interesse de amigo, a bancar o advogado do diabo contra o livro do Paulo Duarte, se lembre que chegou um momento naquela desgraçada noite da leitura do meu escrito, em que houve em toda a gente um verdadeiro malestar. Principalmente em mim. É que eu tinha desenvolvido uma faculdade tão diabólica de ferir e atacar, que a coisas estava, sob aspeto de brincadeira, ferindo de verdade. Teve um momento em que senti o Paulo perfeitamente antagonista, a voz dele vibrou daquele jeito cortante e ácido que toma quando ele está nas grandes ocasiões de antagonismo. Até hoje me maldigo do que fiz. Deve haver em mim, inadvertido até agora, mas de agora em diante imperdoável, um enorme despeito, uma visão muito grave de inferioridade pessoal, que me leva a essas diabólicas “vinganças” contra mesmo aqueles que incontestavelmente mais estimo, mais quero bem. E esta inferioridade eu não quero ter.

Este ano, bem entendido, as coisas se justificam mais. Sofri e sofro por demais ainda. Agora então, a possibilidade de ida de meu irmão também, em exílio, para a Europa, coisa de que fomos secretamente avisados, coisa que virá, se acontecer, desnortear moral e financeira completamente a família, você imagine como tenho vivido sobre brasas. Não gasto um tostão, não compro uma laranja para me alimentar, sem lembrar dele, e que o terei de sustentar na Europa. O resultado mais curioso de tanto sofrimento íntimo, é o estado de negativismo em que estou. Sempre fui um otimista. Mas agora, já na aula inaugural demonstrara vago o meu negativismo, sem querer, subrepticiamente, o que me movia em meus cursos era uma verdadeira intenção de solapar intelectualmente meus alunos. Na intenção maldosa, cheguei mesmo a dar aulas brilhantes, os alunos ficavam presos, todos ficaram meus amigos, todos me querem muito bem, mas, como me disse uma das minhas alunas mais inteligentes, “minhas aulas faziam mal”, havia momentos em que ela tinha um verdadeiro malestar (sic). Só então entrei em mim, e isto fazem apenas três aulas, e mudei de rumo, porque no fundo do fundo sou bom. Abandonei a ironia, abandonei o sarcasmo com que às vezes durante quinze minutos afirmava e definitivamente provava uma afirmativa, pra depois de um golpe, destruí-la, abandonei a impassibilidade de não dar opinião, e foi um esplendor. Tenho outra aluna, que dizem meio amalucada, pelo jeito abrupto dela, filha do Macedo Soares, jornalista, senti por ela o que estou agora causando de útil. Estava um grupo conversando de alunas, as telas por ali, comentando as aulas novas, passei, ela me puxou pelo braço, levou pro meio delas e “Estávamos comentando suas aulas. Estas últimas estão, estiveram desacatantes”. E o riso de simpatia de todas concordava. Sou por demais sensível e apaixonado. Vem brisa e me modifica todinho. Isto não é ser professor, nem é ser nada. Só me gosto mesmo, é naqueles primeiros tempos de modernismo, até 25 talvez, em que não tinha ainda em mim a excessiva presença de mim mesmo, e só via gênios em torno. É possível que eu estivesse errado então, mas tinha comigo o que me parece mais sublime no espírito, a generosidade.

Bom, desculpe estas confidências. Desculpe tudo e publique o seu livro. Se quiser pensar um bocado mais sobre ele, retocá-lo mais, contra isso não serei, porque retocar sempre é possível. Mas publique que é muito bom.

***

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