Dilemas da humanidade

Transcrevo aqui o Epílogo do livro Sapiens – Uma breve história da Humanidade, de Yuval Noah Harari (editora LPM, 7ª edição).

A proposito do tema, divulga-se hoje notícia sobre a criação da humanoide Nadine, capaz de reconhecer pessoas e lembrar de conversas anteriores. Leia aqui. Vamos agora ao epílogo do livro.

O animal que se tornou um deus

Há 70 mil anos, o HOMO SAPIENS AINDA ERA UM ANIMAL INSIGNIFICANTE cuidando de sua própria vida em algum canto da África. Nos milênios seguintes, ele se transformou no senhor de todo o planeta e no terror do ecossistema. Hoje, está prestes a se tornar um deus, pronto para adquirir não só a juventude eterna como também as capacidades divinas de criação e destruição.

Infelizmente, até agora o regime dos sapiens sobre a Terra produziu poucas coisas das quais podemos nos orgulhar. Nós dominamos o meio à nossa volta, aumentamos a produção de alimentos, construímos cidades, fundamos impérios e criamos grandes redes de comércio. Mas diminuímos a quantidade de sofrimento no mundo? Repetidas vezes, os aumentos gigantescos na capacidade humana não necessariamente melhoraram o bem-estar dos sapiens como indivíduos e geralmente causaram enorme sofrimento a outros animais.

Nas últimas décadas, pelo menos fizemos algum progresso real no que concerne à condição humana, com a redução da fome, das pragas e das guerras. Mas a situação de outros animais está se deteriorando mais rapidamente do que nunca, e a melhoria no destino da humanidade ainda é muito frágil e recente para que possamos ter certeza dela.

Além disso, apesar das coisas impressionantes de que os humanos são capazes de fazer, nós continuamos sem saber ao certo quais são nossos objetivos e, ao que parece, estamos insatisfeitos como sempre. Avançamos de canoas e galés a navios a vapor e a naves espaciais – mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder. O que é ainda pior, os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses por mérito próprio, contando apenas com leis da física para nos fazer companhia, não prestamos conta a ninguém. Em consequência, estamos destruindo os outros animais e o ecossistema à nossa volta, visando a não muito mais do que o nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação.

Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?

Harari, Y.N. (2015). Sapiens – uma breve história da humanidade. Porto Alegre: LPM (trad. Janaina Marcoantonio)

Bill Bryson ensina como escrever sobre ciência para leigos

Em A Short History of Nearly Everything Bill Bryson oferece bons exemplos de como tratar de temas científicos complexos de forma que um leigo entenda.

O autor abre o livro com a seguinte citação:

The physicist Leo Szilard once announced to his friend Hans Bethe
that he was thinking of keeping a diary: “I don’t intend to publish. I
am merely going to record the facts for the information of God.”
“Don’t you think God knows the facts?” Bethe asked.
“Yes,” said Szilard.
“He knows the facts, but He does not know this version of the facts.”

-Hans Christian von Baeyer,
Taming the Atom

E aqui, transcrevo trechos da introdução.

“Welcome. And congratulations. I am delighted that you could make it. Getting here wasn’t
easy, I know. In fact, I suspect it was a little tougher than you realize. To begin with, for you to be here now trillions of drifting atoms had somehow to assemble in an intricate and intriguingly obliging manner to create you. It’s an arrangement so
specialized and particular that it has never been tried before and will only exist this once. For the next many years (we hope) these tiny particles will uncomplainingly engage in all the billions of deft, cooperative efforts necessary to keep you intact and let you experience the supremely agreeable but generally underappreciated state known as existence.”

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“Not only have you been lucky enough to be attached since time immemorial to a favored evolutionary line, but you have also been extremely-make that miraculously-fortunate in your personal ancestry. Consider the fact that for 3.8 billion years, a period of time older than the Earth’s mountains and rivers and oceans, every one of your forebears on both sides has been
attractive enough to find a mate, healthy enough to reproduce, and sufficiently blessed by fate and circumstances to live long enough to do so. Not one of your pertinent ancestors was squashed, devoured, drowned, starved, stranded, stuck fast, untimely wounded, or otherwise deflected from its life’s quest of delivering a tiny charge of genetic material to the right partner at the right moment in order to perpetuate the only possible sequence of hereditary combinations that could result-eventually, astoundingly, and all too briefly-in you.

This is a book about how it happened-in particular how we went from there being nothing at all to there being something, and then how a little of that something turned into us, and also some of what happened in between and since. That’s a great deal to cover, of course, which is why the book is called A Short History of Nearly Everything, even though it isn’t really. It couldn’t be. But with luck by the time we finish it will feel as if it is.”

O Livro de Todos

Li recentemente e indico o “Livro de Todos – o mistério do texto roubado”, publicado pela Imprensa Oficial

O livro é particularmente interessante porque foi a primeira obra escrita pela Internet, um trabalho colaborativo com dezenas de autores, entre eles, Moacyr Scliar, que escreveu o primeiro capítulo. Poderá inspirar outras produções colaborativas baseadas na web.

 

 

Aqui, a síntese preparada pela editora:

 

 

 

O escritor Moacyr Scliar fez o primeiro capítulo desta obra coletiva, posteriormente desenvolvida, via internet, por outros escritores renomados e também por colaboradores anônimos. Surgiu assim o Livro de Todos, um projeto inédito que resultou da parceria entre a Imprensa Oficial, a agência de publicidade DM9DDB e a Câmara Brasileira do Livro(CBL). Coube à Imprensa Oficial a coordenação editorial e a edição da seleção das colaborações literárias dos internautas. Sob a supervisão do jornalista e escritor Almyr Gajardoni, uma equipe selecionava-as e inseria-as diariamente no site http://www.livrodetodos.com.br, demarcando o ponto com o qual as novas colaborações deveriam se conectar. Este trabalho foi feito de 16 de maio a 16 de junho de 2008. Por fim, a equipe de Gajardoni deu forma final aos textos, reunindo-os numa sequência homogênea e coerente. a ilustração da capa é do desenhista Maurício de Souza e o projeto gráfico é assinado por Guen Yokoyama. Agora, com o livro concluído, a união das duas mídias – eletrônica e impressa – se completa. O Livro de Todos foi preparado especialmente para a 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

Perigos do controle aversivo

Gostaria de indicar aqui neste espaço um livro que deveria ser obra de cabeceira para mães, pais, professores, legisladores e todas as pessoas com poder de controle sobre o outro. Trata-se de Coerção e suas implicações, de Murray Sidman (Editora Livro Pleno, http://www.editoralivropleno.com.br.

 Ante de entrar na discussão de Sidman sobre controle aversivo, relembremos uma citação de Skinner, em um post anterior: “O que é o Amor se não outro nome para reforçamento positivo?”

Em nossas interações sociais, talvez seja impossível chagarmos ao nível de Sidman ou de Skinner. Mas pelo menos saberemos que existe um modelo: este modelo é amplamente descrito por Sidman em Coerção e suas implicações e por Skinner em várias de suas obras. Lembremos também de uma citação de Lula, a qual está totalmente de acordo com os achados da análise experimental do comportamento:

 “Se porrada educasse as pessoas, bandido saía da cadeia santo”.

 A seguir, alguns trechos de Coerção e suas implicações (do inglês Coercion and its fallout). Às vezes, as citações aparecem na íntegra, às vezes, parafraseadas e às vezes, ainda, com alguns comentários ou grifos meus.  

Coerção e futuro da espécie Eu escrevi este livro para dizer algumas coisas que há muito pensava que precisavam ser ditas, não apenas para colegas profissionais mas para todas as pessoas que estão preocupadas com nosso futuro como espécie. Aqui, um indício de quão grave é o problema da coerção ou do controle por meios aversivos.

Que acontece à conduta que é punida?

Os dados de laboratório sustentam fortemente a posição de que a punição, embora claramente efetiva no controle do comportamento, tem séria desvantagens, e que nós precisamos desesperadamente de alternativas.

Que é coerção Por coerção eu me refiro a nosso uso da punição e da ameaça da punição para conseguir que os outros sejam como nós gostaríamos e à nossa prática de recompensar pessoas deixando-as escapar de nossas punições e ameaças. Precisamos saber mais sobre coerção porque é como a maioria das pessoas tenta controlar uns aos outros: “Torça-o até que ele faça certo”, ou  “Dê-lhe um doce, mas se ele não fizer o que você quer, tire-o”.

 Aplicação de punição produz pessoas punitivas Já devemos ter ouvido o ditado: “O uso do cachimbo faz a boca torta. Veja o que afirma Sidman a esse respeito:

 O uso bem-sucedido de um aguilhão de gado [ferramenta para marcar gado] produzirá mais uso e ninguém, nem mesmo o terapeuta, saberá se ele ou ela está usando choque porque nada mais funcionará ou porque isto funcionou antes em circunstancias que podem bem ter sido diferentes. Terapia coercitiva produz terapeutas coercitivos.

 Que quer dizer comporte-se O significado comum de “comporte-se” é “faça o que eu quero que você faça”. Coação, punição – ameaça de punição ou perda ou verbalizações sobre o que temos de fazer para fugir de, ou evitar punição ou perda – é a técnica predominante para nos levar a “comportarmo-nos”.

 A comunidade hostil Desde a escola primária e durante todo o caminho, passando pelo colegial, professores preocupam-se mais com técnicas coercitivas para manter a disciplina do que com métodos efetivos de instrução. A coerção social é aceita como natural.

Punimos crianças e criminosos na esperança de impedir repetições de condutas inaceitáveis.

Embora pessoas influenciem uma às outras de muitas maneiras, elas recorrem mais rapidamente a meio coercitivos para produzir resultados do que a outros meios.

 Por que punimos/ O que queremos obter? A principal razão é controlar outras pessoas. Punimos as pessoas baseados na crença de que as levaremos a agir diferentemente. Em geral, queremos parar ou evitar ações particulares. Queremos colocar um fim à conduta indesejável. Algumas vezes punimos usando a remoção de reforçadores positivos [Por exemplo, colocar a criança de castigo por dois minutos. Em um ambiente isolado, privamos a criança de um ambiente social em que estariam disponíveis reforçadores].

Que dizem as pesquisas Os dados de laboratório sustentam fortemente a posição de que a punição, embora claramente efetiva no controle do comportamento, tem sérias desvantagens, e que nós precisamos desesperadamente de alternativas.

De que mais trata o livro Este livro fala também sobre o predomínio da coerção em nossas vidas, descreve os efeitos colaterais desastrosos da coerção e, até mesmo, alerta sobre a catástrofe, se fracassarmos na eliminação ou redução de nossas práticas coercitivas; o livro em si mesmo pode ser considerado, tecnicamente, um exemplo de coerção. Entretanto, ele não é apenas ameaça. Ele também fornece princípios norteadores – em alguns casos cursos específicos de ação – que nos permitiriam aplicar técnicas não-coercitivas em vez de recorrer às “soluções” de coerção quando quiséssemos ou tivéssemos de influenciar os outros. Porque muito freqüentemente coagimos uns aos outros, muitos de nós consideramos a punição como ponto pacífico: não reconhecemos o imenso papel que ela desempenha em nossas interações.