Sobre a redação de relatórios de pesquisa

Compartilho aqui o texto A comunicação da pesquisa: redação do relatório/dissertação, de autoria da professora Maria Amalia Andery, da PUC-SP. Esse material costumava ser usado em disciplinas de Atividade de Pesquisa Supervisionada do Programa de Pós-graduação em Psicologia Experimental:Análise do comportamento da PUC-SP. As normas descritas pela professora Amalia referem-se, principalmente, a orientações do Manual de publicação da Associação Americana de Psicologia. Para obter mais informações sobre o estilo APA, clique aqui.

Transcrevo aqui o parágrafo inicial do referido texto, em que a professora deixa explícita a importância da redação do relatório de pesquisa. Segundo Andery (2005):

“A dissertação redigida é o equivalente de um relatório de pesquisa. Inicialmente, será o instrumento pelo qual seu trabalho de pesquisa será avaliado pela banca, na defesa. Depois da defesa – e isto freqüentemente é esquecido – será o relatório que,
depositado em biblioteca, servirá de fonte de referência para outros pesquisadores da área. É por meio de sua dissertação que seu trabalho de pesquisa é publicado – tornado público; é pela dissertação que o conhecimento produzido por você pode ser partilhado com outros membros da comunidade científica: sem este tipo de relato não seria possível acumular conhecimento. Por tudo isso é muito importante que se tome todo o cuidado na redação do relatório de pesquisa (dissertação); não se trata de simples purismo, de pura perda de tempo. Um texto mal organizado, pobremente redigido, sem informações suficientes, ou com demasiada informação irrelevante tornará difícil (ou até mesmo impedirá) duas coisas: que seu trabalho seja corretamente apreciado – louvado ou criticado – por aqueles que são seus pares na comunidade científica (e que deveriam ser seus interlocutores privilegiados, uma vez que se interessam pelo tema de sua dissertação) e que seu trabalho se torne, eventualmente, parte do processo de produção de conhecimento em ciência – porque é citado, replicado, estudado.”

Espero que façam bom proveito do material.

Sobre a importância da comunicação científica

“Writing, to me, is simply thinking through my fingers” (ISAAC ASIMOV)

Scott L. Montgomery, autor do Chicago Guide to Communicating Science, abre o guia com enfática defesa da comunicação científica.  Conforme Montgomery:

“Ciência existe porque cientistas são escritores e falantes…Como forma de compartilhamento de conhecimento, a compreensão científica é inseparável do mundo da escrita e da fala. Não existe fronteiras entre fazer ciência e comunicá-la…”

Para Montgomery , a  habilidade de escrever e falar de forma efetiva irá determinar a importância e validade do trabalho científico. Assim, a reputação do cientista dependerá, em larga medida, de sua habilidade de comunicação, que também é requisito para outras formas de atuação profissional.

Montgomery nota que comunicação eficiente exige trabalho. “Boa escrita raramente aparece fácil para qualquer um, em qualquer disciplina, seja mecânica quântica ou história da arte”. Considera que, ao contrário dos profissionais que atuam em humanidades, em que composição de textos, crítica, reescrita fazem parte do ensino formal, na comunidade científica o treinamento para comunicação normalmente não ocorre de forma explícita.

Para comunicar bem, afirma Montgomery, é necessário algum nível de controle sobre a língua com a qual se dará a comunicação. Para ajudar o escritor nesse aspecto há um conjunto de ferramentas preparadas pela comunidade verbal. Aqui vão algumas dicas:

Em inglês:

Em português:

Uso e abuso do termo enquanto

Não gosto da expressão “enquanto” no lugar de termos como “na qualidade de”, “como”. Para mim, como é mais econômico e menos formal. De qualquer forma, fiquei intrigada para saber a origem de minhas restrições ao emprego de “enquanto” como conjunção conformativa. Descobri que Napoleão Mendes de Almeida, com que iniciei um curso de português por correspondência nos anos 1990,  desaconselha o emprego de “enquanto” no lugar de “como”.

Conforme Almeida:

Todos sabem que enquanto significa “no tempo em que”, durante o tempo em que”, “quando”… O que nem todos sabem é que enquanto também significa  “ao passo que”, ou seja,  pode ser empregado como sentido adversativo…

Almeida recomenda também que não se use “que” depois de enquanto:

Joguem fora este que e passem a escrever como ficou exemplificado: Você se saiu bem, enquanto eu me sai muito mal.

Sobre o uso de enquanto no lugar de como, escreveu:

Ao leitor acostumado a ler bons escritores a declaração “digo isto enquanto mulher não tem sentido. Quer-nos parecer que a origem do erro “digo isso enquanto mulher” está no receio de alguma cacofonia ao redigir “digo isto como mulher”. Ou o erro está em confundir enquanto com conquanto. Sinônimo de embora,  conquanto é que é a conjunção concessiva para o caso.

Mas como linguagem é interação, o uso de enquanto no lugar de como está registrado do Houaiss, conforme transcrição do verbete a seguir

Vou continuar seguindo a orientação de Napoleão Mendes de Almeida. Mas prometo ser mais tolerante com aqueles que usarem e abusarem de enquanto no lugar de como.

Enquanto

Datação

sXIII cf. FichIVPMAcepções
■ conjunção
1    introduz oração subord. adv., dando idéia de:
1.1    conjunção temporal
tempo: durante o tempo em que, no tempo em que, sempre que, quando
Ex.: <pensa nas horas de lazer, e. trabalha> <e. era estudante, nunca dormia tarde> <e. dorme bêbedo, ronca alto>
1.2    conjunção proporcional
proporção: ao passo que, à medida que
Ex.: cansava-se, e. subia
1.3    conjunção conformativa
conformidade: na qualidade de; como
Ex.: e. animal racional, não devia agir daquela maneira

Locuções
por e.conjunção conformativa
por agora
Ex.: por e., você não precisa ficar preocupado

Etimologia
comp. da prep. em + pron. quanto, do lat. quantus,a,um ‘quão grande, quão numeroso’; ver quant-

Referência:

Almeida, N.M. (1996). Dicionário de questões vernáculas.  São Paulo: Editora Ática

Bandeira sob controle de sua audiência

Leitores de Manuel Bandeira não o reconheceria neste fragmento de sua obra. Note que se trata de uma resenha de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Bandeira se apropria do estilo de linguagem dos personagens centrais da obra para escrever sobre ela, em um claro exemplo de controle pela audiência. E conclui caracterizando o homem de forma admirável, numa cpacidade de sintetizar temas complexos típica de bons poetas:

“Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe: O diabo não há! Existe é o homem humano.”

Manuel Bandeira: Grande Sertão: Veredas

AMIGO MEU, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar! Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo. Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá… Você sabe: a vida é um Itamarati – viver é muito dificultoso. Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques. Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra “vereda” com o significado que você mesmo define à página 74: “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda.” Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: “ciriri dos grilos”, “gugo da juriti” etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é “arga”, “suscenso”, “lugugem” e um desadôro de outras vozes dos gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será? Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que não ficou de fora nenhuma dicção de seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação lingüística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré. Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo. Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. Honni soit qui mal y pense, eu preferia Diadorim homem até o fim. Como você disfarçou bem! nunca que maldei nada. Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão?
O sertão é uma espera enorme.
E o silêncio?
O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo.
Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa’uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que
proseava gentil sobre as sérias imoralidades.
Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe:
O diabo não há! Existe é o homem humano.
Soscrevo. 13/03/1957BANDEIRA, M. “Grande sertão: veredas”. In: Poesia completa e prosa. 2 ed. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967. p.590-92.

Como estimular o próprio comportamento de escrever

Julie Vargas trata neste artigo da abordagem comportamental para o ensino de composição/redação. Afirma que a escrita pobre permeia a maioria das produções profissionais e isso se dá por falhas na forma com que composição é ensinada.

Neste texto, Skinner dá dicas de como estimular o comportamento de escrever. Conta como dispunha contingências para fortalecer o próprio comportamento verbal científico. Aqui,  versão em português do texto Skinner,  traduzido por mim,  com o título Como dizer o que você tem a dizer.

E aqui, Steve Aronson trata de estilo na escrita científica.

Boa leitura e bons escritos!

O controle do leitor

Na crônica de Rachel de Queiroz publicada anteriormente, ela questionou a originalidade da escrita. Põe-se tal originalidade em xeque também quando se constata que é a escrita é produto (depende) de muitas variáveis, entre elas, o público, como nota a escritora. 

 

O direito de escrever

 

Rachel de Queiroz

 

Quem mais sofre desse mal é o artista de cinema em Hollywood. A padronização do público, a opinião do público, a pressão do público. Deanna Durbin fracassou, por quê? Porque o público gostava da menina Deanna Durbin, magrinha e adolescente, cantando coisas ingênuas, por exemplo Noite feliz, no telefone, para o papai ouvir. Mas Deanna ficou mulher, quis ser cantora adulta, o público achou que estava sendo desconsiderado, refugou Deanna. Nós, que jamais gostamos de Deanna, menina, moça ou velha, não ligamos para a sentença do público; e por causa disso não percebemos a tragédia da rapariga. Mas tragédia houve, e dessas, por lá, estão acontecendo todo dia. O público gosta de receber aquilo a que está acostumado. E detesta que um camarada a quem se acostumou, mude de cara ou de sistema.

O sujeito escreve uma coisa de determinada maneira, ou apresenta certo tipo no palco, ou compõe uma música para ser cantada de madrugada, entre bêbados. O público gostou, aplaudiu. Nas águas do primeiro êxito o sujeito em questão – o escritor, poeta, ator ou músico – prepara nova obrinha parecida com a primeira. O público torna a aplaudir. Pronto, aí i pobre sujeito está perdido. Porque passou a pertencer ao seu êxito, fica escravo daquele sucesso (sei que é galicismo, obrigada; digo porque acho bonito, que é que tem?) – fica pois escravo daquele sucesso, e do trilho inicial não pode mais se afastar. Pode lhe vir inspiração em qualquer outro sentido. Pode ser ele tentado a seguir caminhos novos – mas é arriscadíssimo deixar-se cair em tentação. É quase certo que seu público não gostará. O público certamente achará péssimo. Se o cronista Rubem Braga, um dos amados do público, deixar de repente de fazer suas crônicas e passar a escrever poemas lindíssimos, tão lindíssimos quanto as crônicas, o público que até hoje o amou lerá os poemas com a sensação de que está sendo furtado; sim, furtado de todas aquelas crônicas que ele estava esperando e que, sub-repticiamente, às suas costas, sem o seu consentimento, foram viradas em poemas. E reclamará, e não comprará o livro de poesias como comprava o livro de crônicas, embora um seja tão bom quanto o outro; mas acontece que, com poemas, ele não está costumado.

Outro ponto a debater é a exigência de imparcialidade que ousam fazer à gente. Por que ser imparcial? Todo artista produz para externar suas paixões, seus recalques, seus conflitos íntimos. Então como é que pode ser imparcial? Por uma comparação: se eu faço uma crônica a favor do Flamengo, todo o mundo cai em cima de mim dizendo: “Ela só escreve isso e aquilo porque é Flamengo.” Ora, meu Deus do Céu, e haverá motivo mais legítimo para escrever pró-Flamengo – do que ser Flamengo? (que eu, aliás, sou Vasco, com muita honra!).

         Pessoas que escrevem, como as que pintam ou representam, são pessoas complicadas, parciais, cheia de personalismos, preferências, tais como as demais pessoas do mundo. E o público gosta da gente justamente quando lhe lisonjeamos as preferências e os personalismos. Aquele de nós que tem mais êxito é precisamente aquele cujas referidas paixões, personalismos, etc., melhor coincidem com os da maioria.

 

 

 De onde se conclui que, além de impraticável, é ingênua essa exigência de imparcialidade. Imparciais, impassíveis e frios são os compêndios de geometria. E que é que paga para ler um compêndio de geometria?

Não, a exigência da imparcialidade só aparece quando a gente está contrariando a opinião do leitor. Ele então, pensando que se mostra muito justo (mas está é danado da vida), vem logo com a história da imparcialidade. O que ele quer dizer porém é isto:”Já que você não concorda comigo, pelo menos não dê opinião – que eu assim tiro as conclusões que mais me agradem…” Pois eu me recuso. O distinto público desculpe, mas recuso. Não abro mão do direito de opinar, e opinar errado, inclusive. Se o distinto público acha ruim, paciência.  Sei que, como escribas assalariados, nós todos, para viver, dependemos do dinheiro do distinto público. Mas como é que dizia aquele boticário que vendeu o veneno a Romeu, no quinto ato da tragédia? “Tu compras a minha pobreza, mas não compras o meu consentimento.” A tradução é livre, mas a idéia é essa. O distinto público compra os nossos escritinhos. Paga às vezes mal, às vezes generosamente. Mas compra só o direito de ler. O resto é nosso. Goste ou jogue fora, não nos obrigue a cortejar as suas opiniões. Se eu sou Vasco, continuo Vasco, até o dia do juízo. Falo bem de quem quero. Falo mal de quem acho que devo. Amo, detesto, prezo, admiro, zombo de quem meu coração pede. E já que começamos com citações, citemos Marion de Lorme, sim, aquela moça heroína do drama de Victor Hugo – outro colega que também sofria da mania de ter opiniões próprias e pagou o diabo por isso. Sim, citemos Marion, logo no primeiro ato:

 

“Je fais ce que je veux, et je veux ce que je dois.

Je suis libre, monsieur!”

 

(Ilha, Janeiro de 1952)

 

Queiroz, R. (1993). Um alpendre, uma rede, um açude – 100 crônicas escolhidas. São Paulo: Siciliano (publicado originalmente em 1958).