Das contingências do reforçamento comportamental

images_prof_alunoA professora perguntou a uma classe de aluno do ensino fundamental qual é a frase que eles mais ouviam no dia-a-dia deles. Um dos alunos disse achar que a frase mais comum ouvida em seu cotidiano era: “Fulano, se comporta!”

A professora, esperta em psicologia comportamental, orientou seu aluno a responder à mãe que comportamento é como o fluxo de águas de um Rio corrente: não para. Enquanto houver vida, há comportamento.

Na primeira vez em que a mãe mandou o filho se comportar, o filho respondeu: mãe, por acaso estou morto? Se não estou morto, estou me comportando. A professora disse que só não se comporta quem já morreu.

A mãe resolveu tirar a questão a limpo e marcou uma reunião com a professora.  Afinal, quem já viu mãe aceitar ter menos autoridade sobre o filho que a professora dele?

A professora, muito educadamente, ouviu a queixa da mãe. E aproveitou a oportunidade para ensinar a mãe como descrever melhor ao filho as contingências de reforço – ou as condições sob as quais uma classe de resposta produz certas consequências – a classe de respostas envolvidas em fazer as lições de casa, por exemplo.

Da próxima vez que seu filho exibir comportamento considerado inadequado, seja mais específica:  esclareça as contingências de reforço, ou seja,  descreva: (1) o comportamento desejado; (2) as consequências para o comportamento desejado.  Ou o contrário: comportamento indesejado e consequências para esse comportamento. Alertou que é preciso ser coerente e agir de acordo com o especificado. Citou como exemplo de descrição de contingência as condições para o filho brincar com os amigos na quadra do prédio quando restava uma lição de casa para entregar no dia seguinte.

Se o filho terminar a lição em dado tempo, com certa qualidade, poderá descer para a quadra e jogar com os amigos. A professora aconselhou a mãe a ser bastante específica, do contrário o filho poderia terminar a lição de qualquer jeito, fazer a lição ‘malfeita’, e correr para brincar com os amigos. Esse caso exemplifica uma contingência do tipo “se”….”então”… Em nossas relações no dia-a-dia muito frequentemente, porém, falta completar a descrição.

Regras, como as mencionadas, devem descrever as condições para se obter (ou livrar-se, escapar) de certas consequências.

Sobre o conceito de contingencia de reforço na Análise do comportamento, leia aqui artigo da professora Deisy das Graças de Souza, da UFSCar. E aqui, temos um artigo das professora Amalia Andery e Tereza Sério sobre definição de comportamento; comportamento e causalidade entre outros assuntos do gênero.

Boa leitura

Papel de falante e ouvinte no comportamento verbal

B. F. Skinner apresenta em sua obra seminal Verbal Behavior (traduzido para português como O comportamento verbal) uma proposta singular para estudo de fenômenos que são tradicionalmente referidos como linguagem. Inicia o livro caracterizando comportamento operante – comportamento que depende dos próprios efeitos para ser instalado e mantido no conjunto de repertórios de um indivíduo. Conforme Skinner (1957):“Os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação” (p.1). A seguir, Skinner nota que a ação do homem da qual emergem as consequências para seu comportamento pode ocorrer de forma direta – ele interage diretamente com o ambiente físico – e de forma indireta: as consequências finais de seu comportamento dependem do comportamento de outra pessoa. Alguém pode obter um copo d’água dirigindo-se a um bebedouro e pegando água ele próprio ou pode obter água pedindo um copo d’água a alguém. No primeiro caso, o efeito depende da interação com o mundo físico, direto; no segundo, depende-se de alguém que medeie o reforço. Para obter água no último caso o falante primeiro terá de afetar outra pessoa.

Skinner (1957) destaca, portanto, que o estudo do comportamento verbal exige a compreensão dos comportamentos de falante e ouvinte. Essa noção aparece de forma implícita ou explícita ao longo de Verbal Behavior (1957), a começar pelos dois capítulos iniciais do livro, quando o autor: a) apresenta comportamento verbal como comportamento operante cujo efeito depende do comportamento de outro indivíduo; b) apresenta uma síntese de seu programa de estudos, na qual afirma que o comportamento do ouvinte exige explicação, e que o ouvinte é estudado supondo-se o falante e vice-versa; c) descreve alguns problemas que terá de enfrentar para levar a cabo o próprio programa de estudo, um dos quais é justamente explicar o comportamento do ouvinte no episódio verbal, o que o autor começa a fazer no capítulo sobre mando e quando define, de forma mais apurada, o próprio objeto de estudo; d) e, ainda, quando descreve a comunidade verbal.

É possível que a menção de Skinner de que está interessado no comportamento do falante individual leve à suposição de que o autor reduziu o papel do ouvinte nos fenômenos verbais. No entanto, a afirmação do autor parece apenas ser uma forma de mostrar a novidade de sua proposta: ele vai demonstrar que analisando o comportamento de dois indivíduos, um em relação ao outro, com base em uma história de reforçamento construída por uma comunidade verbal, é possível explicar fenômenos tradicionalmente referidos como linguagem. Não é necessário recorrer a fenômenos de grupo como se esses fenômenos tivessem “vida própria” e pudessem explicar a origem do comportamento. Para Skinner, o que torna o comportamento verbal um fenômeno dinâmico, talvez pudéssemos acrescentar, a ponto de parecer que constitui uma “entidade social” à parte, são as contingências de reforço que explicam o comportamento de falante e ouvinte numa dada comunidade verbal e diante de situações de estimulações/motivacionais específicas.

Mas se o alerta de Skinner, já no primeiro capítulo de Verbal Behavior, de que analisar comportamento verbal exige estudar o comportamento de falante e ouvinte passou despercebido pelo leitor, Skinner é enfático no último subtítulo do segundo capítulo do livro, denominado O OUVINTE E O ESPISÓDIO VERBAL TOTAL (assim mesmo em caixa alta). Note-se que no seguinte trecho do referido subtítulo Skinner sugere que a função de falante e ouvinte estão tão imbricadas entre si que não é possível separar uma da outra. O episódio verbal envolve o entrelaçamento de ambas as funções, na qual uma pessoa pode atuar ora como estímulo evocativo do comportamento (nessa função Skinner chamou o ouvinte de audiência), ora como mediador do reforço (ouvinte propriamente). Nos termos do autor:

“Numa descrição completa de um episódio verbal precisamos mostrar que o comportamento do ouvinte proporciona de fato as condições que tínhamos suposto na explicação do comportamento do falante. Nós precisamos de descrições separadas, mas que se entrelacem, tanto do comportamento do ouvinte quanto do comportamento do falante se nossa explicação do comportamento verbal tiver de ser completa. [grifo acrescentado]. Na explicação do comportamento do falante, pressupomos um ouvinte que reforçara seu comportamento de determinadas maneiras. Na descrição do comportamento do ouvinte pressupomos um falante cujo comportamento tem certas relações com condições ambientais. As trocas entre eles devem explicar todas as condições assim supostas. A descrição de todo o episódio estará então completa”. (Skinner, 1957, p. 34).

Uma nova formulação – no roteiro de estudo do comportamento verbal, conforme Skinner (1957),  pode subdividir-se em quatro partes, descritas a seguir.

1º estágio: descritivo – tem-se de descrever a topografia, a forma do comportamento.

2º estágio: explicativo – descrever condições relevantes para a ocorrência do comportamento: identificar e analisar as variáveis da quais o comportamento é função.

3º estágio: identificar/explicar as características dinâmicas do comportamento verbal dentro de um quadro apropriado ao comportamento humano como um todo. E aqui, diz Skinner, é preciso considerar o comportamento do ouvinte. “Relacionando-o com o comportamento do falante, completamos nossa explicação do episódio verbal”.

4º estágio: prever e controlar o comportamento.

Um aspecto importante a ser considerado na análise do comportamento verbal refere-se à causação múltipla do comportamento, conforme esclarece Skinner neste trecho:

“O comportamento verbal é usualmente o efeito de múltiplas causas. Variáveis separadas combinam-se para ampliar seu controle funcional e novas formas de comportamento surgem da recombinação de velhos fragmentos. Tudo isso exerce influencia sobre o ouvinte, cujo comportamento, por sua vez, exige análise”. Esse tema é tão importante que mereceu um capitulo à parte em Verbal behavior, o qual Skinner inicia assim: “DOIS FATOS EMERGEM de nosso estudo sobre de relações funcionais do comportamento: 1) a força de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável e 2) uma única variável costuma afetar mais de uma resposta” (Skinner, 1957, p. 227).

A marca do estudo do comportamento verbal em B. F. Skinner – estudar linguagem com base no comportamento individual (baseando-se na análise de um episódio verbal simples entre falante e ouvinte) é uma das principais marcas da proposta de Skinner para o estudo da linguagem. Isso não significa que Skinner não considere o efeito do grupo sobre falante e ouvinte individualmente. Tanto que reservou um apêndice em seu livro para tratar da comunidade verbal (pp. 461-470).  Outro aspecto importante é a preocupação do autor com questões de natureza prática. Conforme Skinner (1957):

“Um traço importante da análise que vamos empreender é que ela se volta para o comportamento do falante e do ouvinte individual; não recorreremos a conceitos estatísticos baseados em dados obtidos com grupos. A formulação será eminentemente prática e sugerirá aplicações tecnológicas imediatas. Apesar da ênfase não ser experimental nem estatística, o livro não é propriamente um livro teórico no sentido comum. Ele não recorre a entidades explicativas hipotéticas. O objetivo último é a previsão e o controle do comportamento verbal”.

Para quem estiver interessado em um texto básico sobre comportamento verbal, indico este, das professoras da PUC-SP Maria Amalia Andery e Tereza Sério e este, dessas mesmas autoras.

Para uma discussão específica sobre o ouvinte, indico este de Skinner.

Referências

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1978). O comportamento verbal. São Paulo: EDUSP

Skinner, B. F. (2002/1974). Sobre o behaviorismo. 7 ed. [Tradução de Maria da Penha Villalobos]. São Paulo: Cultrix (obra publicada originalmente em 1974).

Skinner, B. F. (2005). Questões recentes na análise comportamental. Campinas: Papirus Editora (Obra publicada originalmente em 1989).

O que existe e o que não existe

Meu filho se queixa de um amigo que ele chama de “o do contra”. Diz que a tudo o amigo se opõe. Em uma conversa sobre dragões, exemplifica, o amigo se apressa em dizer que dragões não existem e fim de papo! Meu filho diz que existe sim: o dragão-de-komodo. Mas o amigo diz que esse não conta. E meu filho se diz inconformado.

Aproveito a oportunidade para dizer para meu filho que, sob alguns aspectos, a diferença entre fato e ficção é sutil mesmo. Não sei se existem pessoas que acreditam na existência de dragões. Mas o que são dragões?

Como sou mãe humana – e diz o Manuel Bandeira, que Diabo não há, existe é o homem humano – penso em ensinar uma forma de contra-controle ao meu filho, para a próxima ocasião e que a discussão sobre dragões vier à tona e o amigo dele tentar desestabilizá-la.

Sugiro que pergunte ao amigo se ele acredita em Deus. A resposta, diz meu filho, certamente será afirmativa. E você continua: pois bem, não existem provas científicas da existência de Deus, mas existem quem acredite em Deus, certo? Da mesma forma, não existem evidências sobre a existência de dragões, mas é possível afirmar, com toda segurança, que dragões não existem? Pela lógica de um religioso, não! Pela lógica científica, talvez sim.

Lembro que, em alguns casos, a diferença entre “fato”,  “mito” ou crença e história pode ser sutil mesmo. Pode ser histórica e variar conforme o grupo social. Uma coisa é explicar um fenômeno do ponto de vista religioso; outra diferente pode ser explicar o mesmo fenômeno do ponto de vista da ciência. Cito um exemplo clássico: criacionismo versus selecionismo (meu filho já está familiarizado com a diferença entre esse dois polos para explicar a existência da vida na terra).

Para levar a questão na esportiva, como se diz, convido meu filho a reler um livro paradidático, usado em sua classe este ano: Divinas Aventuras – histórias da Mitologia Grega, de Heloisa Prieto, e com belíssimas ilustrações de Maria Eugênia (Companhia das Letrinhas). E lembro de outro livro usado em cursos anteriores: Bichos que existem e bichos que não existem, de Arthur Nestrovski, também ilustrado por Maria Eugênia.

Para concluir a conversa com meu filho, digo-lhe que até entre adultos que estão no topo  a educação formal (ele e o amigo são alunos de 5º ano) nem sempre existe acordo sobre o que existe e o que não existe.

Transcrevo, a seguir, um trecho de Hobsbawm, retirado do livro Sobre história, em que o autor se opõe à onda pós-modernista que afirma que o que existe é apenas construto social. Diz Hobsbawm:

“Nas últimas décadas, tornou-se moda, principalmente entre pessoas que se julgam de esquerda, negar que a realidade objetiva seja acessível, uma vez o que chamamos de ‘fatos’ apenas existem como uma função de conceitos e problemas prévios formulados em termos dos mesmos. Esse constructo é, em princípio, tão válido quanto o outro, quer possa ser apoiado pela lógica e por evidências, quer não. Na medida em que constitui parte de um sistema de crenças emocionalmente fortes, não há, por assim dizer, nenhum modo de decidir, em princípio, se o relato bíblico da criação da terra é inferior ao proposto pelas ciências naturais: apenas são diferentes. Qualquer tendência a duvidar disso é ‘positivismo’, e nenhum termo desqualifica mais que este, exceto empirismo.

Em resumo, acredito que sem uma distinção entre o que é e o que não assim, não pode haver história. Roma derrotou e destruiu Cartago nas Guerras Púnicas, e não o contrário… Na verdade, poucos relativistas estão à altura plena de suas convicções, pelo menos quando se trata de responder, por exemplo, se o Holocausto de Hitler aconteceu ou não. Porém, seja como for, o relativismo não fará na história nada além do que faz nos tribunais. Se o acusado em um processo por assassinato é ou não culpado, depende da avaliação da velha evidência positivista, desde que se disponha de tal evidência. Qualquer leitor inocente que se encontrar no banco dos réus fará bem em recorrer a ela. São os advogados dos culpados que recorrem a linhas pós-modernas de defesa”.

 

Referência

Hobsbawm, E. J. (1998). Sobre história: São Paulo: Cia das Letras.

E para uma boa análise comportamental sobre crenças, leia o artigo Attitudes and beliefs as verbal behavior, de B. Guerin, tratado neste post.

Alguns desafios para o estudo do comportamento verbal

Azrin, Holz, Ulrich e Goldiamond (1961/1973) replicaram um estudo realizado por Verplanck (1955), em que avaliaram a possibilidade de estudantes controlarem conversas casuais de outras pessoas por meio do reforçamento diferencial de certo tipo de opinião/afirmação e da extinção de todos os outros tipos de afirmação.

O estudo envolveu três experimentos, que foram aplicados em sala de aula. No primeiro experimento, 16 estudantes de pós-graduação foram especialmente preparados para aplicar o procedimento. A preparação incluiu o que os autores chamaram de instrução intensiva sobre condicionamento operante, seguida de uma verificação sobre os conhecimentos adquiridos pelos estudantes aceda do assunto ensinado. Os estudantes foram instruídos a ler o estudo de Verplanck (1955) e os conhecimentos deles sobre o referido estudo foram testados.

Metade dos estudantes conduziu um procedimento que consistia de 10 minutos de extinção, seguidos de 10 minutos de reforçamento, mais dez minutos de extinção. A outra metade aplicou procedimento reverso: reforçamento, extinção, reforçamento. Extinção foi caracterizada como o ouvinte (no caso, o estudante que estava no papel de experimentador) ficar em silêncio, ao passo que reforço foi definido como a concordância do ouvinte com as opiniões do participante.

De acordo com Azrin e cols., entre os estudantes que aplicaram o procedimento, 14 relataram maior frequência de opiniões durante o procedimento definido como reforçamento do que durante o procedimento de extinção (um “estudante-experimentador” não concluiu o experimento).  A frequência de outras afirmações, que não opiniões, não mudou muito (pp.187-188).

Os autores observam que nenhum dos estudantes que concluiu o experimento relatou dificuldades para aplicar o procedimento. No entanto, o estudante que desistiu da aplicação contou que achou difícil manter a conversação sem participar ativamente dela e também relatou ter achado difícil reconhecer opinião versus afirmação.

Apesar de os demais estudantes, em um primeiro momento, não relatarem semelhante dificuldade, em discussões posteriores um estudante contou que tinha gravado a aplicação do procedimento. Um segundo estudante analisou a gravação e admitiu ser difícil distinguir o período de reforçamento do de extinção. Os autores ficaram em dúvida se os estudantes tinham de fato se comportado perante seus ouvintes (os participantes) conforme determinava o procedimento: ou seja, ficar em silêncio na extinção e reforçar apenas as respostas-alvo.

No segundo experimento, o mesmo procedimento foi aplicado por estudantes universitários de outra sala de aula, sem que tivessem lido o estudo original ou fossem informados sobre a existência dele. Como no experimento anterior, os estudantes receberam instrução e tiveram seus conhecimentos sobre princípios de reforçamento operante testados. Os pesquisadores adotaram o mesmo procedimento do primeiro experimento, exceto pela extinção, que foi caracterizada como discordância, em vez de silêncio. De 12 estudantes que concluíram o estudo, 11 relataram que discordância produzia mais baixa frequência de opinião do que concordância. Novamente os estudantes não relataram dificuldade na aplicação do procedimento. Os autores estranharam o fato, porque apesar da aparente dificuldade em identificar afirmações e opiniões (relatada pelos estudantes do primeiro experimento) e de outras dificuldades referentes à aplicação do procedimento, todos os estudantes relataram que concordância com a opinião do falante produziu maior frequência do comportamento verbal dos participantes. Uma análise dos resultados desse estudo revelou aparente relação entre a compreensão dos princípios de reforçamento pelos estudantes e os resultados relatados por eles. (Estudantes com menor conhecimento sobre tais princípios geralmente relatavam menor efeito do reforçamento sobre as opiniões). Os autores supuseram que os estudantes ou não seguiram o procedimento apropriado ou não tinham expectativas seguras quanto aos resultados.

O terceiro experimento foi conduzido para testar a última hipótese. O procedimento foi aplicado por uma classe de estudantes universitários sem que eles tivessem lido o experimento original. Metade dos estudantes aplicou um procedimento que consistiu de dez minutos de reforçamento, seguidos de dez minutos de extinção e dez minutos de reforçamento.  A outra metade aplicou um procedimento de extinção-reforçamento-extinção. Reforçamento novamente foi definido como concordar com a opinião do outro e extinção, como manter-se em silêncio.

O experimento foi realizado durante e depois de os estudantes receberem instrução sobre princípios de reforçamento. O resultado foi semelhante ao dos experimentos anteriores: 44 de 47 estudantes relataram maior frequência de opinião durante as sessões de reforçamento (concordância com o falante) do que durante sessões de extinção.

Baseando-se nas discussões de Azrin e cols. pode-se inferir que os resultados desses três experimentos possivelmente tenham mais relação com o comportamento dos estudantes que aplicaram os procedimentos do que com o dos participantes – ou pelo menos tanto quanto. Tanto que os autores interpretaram seus resultados como indicativos da necessidade de se desenvolver mecanismos mais objetivos para o estudo do comportamento verbal. “Sem tal objetividade”, afirmam, “os resultados de estudos sobre condicionamento verbal podem refletir mais as expectativas e teorias do experimentador do que o comportamento dos participantes”.

Outro desafio importante para o estudo do comportamento verbal é o fato de ele poder se mantido sem que sejam produzidas consequências práticas. Por isso, como afirma Skinner (1957/1978): “pode libertar-se mais facilmente do controle de estímulos, porque por sua própria natureza não requer apoio ambiental: isto é, nenhum estímulo precisa estar presente para dirigi-lo ou formar importantes elos na cadeia de respostas” (pp. 68/47).

Some-se a isso, o fato de o comportamento verbal ser multideterminado. A noção da causalidade múltipla no comportamento permeia todo sistema explicativo da análise skinneriana. No que diz respeito ao comportamento verbal, embora Skinner trate dessa característica do comportamento desde o capítulo inicial de Verbal Behavior, dedicou um capítulo à parte para essa discussão, a qual Skinner resume assim:

Do nosso estudo sobre as relações funcionais do comportamento verbal emergem dois fatos: 1) a força [probabilidade] de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável; e 2) uma única variável costumar afetar mais de uma resposta. (Skinner, 1957/1978, p.273)

Referências

Azrin, N. H., Holz, W., Ulrich, R., e Goldiamond, I. (1973). The control of the content of conversation through reinforcement. Journal of Applied Behavior Analysis, 6, 186-192.

Skinner, B.F. (1978). O comportamento Verbal. São Paulo: Cultrix.

Skinner, B. F. (1957/1992). Verbal Behavior. Cambridge, Massachusetts: B. F. Skinner Foundation

Verplanck, W. S. (1955). The control of the content of conversation: reinforcement of statements of opinion. Journal of abnormal and Social Psychology, 55, 668-676.

Análise do comportamento aplicada ao tratamento de autismo

Nas últimas semanas tem ocorrido na mídia tradicional e nas redes socais discussões sobre abordagens da Psicanálise e da Análise do comportamento para tratamento de pessoas diagnosticadas com autismo. Confesso que não tenho acompanhado o debate de forma sistemática. E digo também, de saída, que sou leiga no tema, embora tenha amigos próximos que são grandes especialistas no estudo e na aplicação da Análise do comportamento para o tratamento de pessoas com autismo e com outros problemas.

Em meio das discussões sobre o tema, casualmente tive acesso ao artigo Applied Behavior Analysis treatment of autism: the state of the art, de Richard M. Foxx, publicado no periódico Child and adolescent psychiatric clinics (edição 17, 2008, pp. 821-838).  Note-se que o artigo não foi publicado em periódico de Análise do comportamento, e sim em um periódico médico.

Gostei muito do artigo de Foxx pela clareza que trata do assunto. Considerei que compartilhar seu artigo neste espaço seria boa forma de colaborar com o debate atual sobre possibilidades de tratamento para pessoas diagnosticas com autismo.

Foxx inicia o artigo com afirmação chocante. Diz que “tratamento de indivíduos com autismo frequentemente envolvem práticas sem fundamentos científicos, embora se tenha disponível um tratamento validado cientificamente e altamente efetivo, a Análise aplicada do comportamento (ABA)”.

Fiquei me perguntando o que levaria mães, pais, instituições de saúde públicas ou privadas, a investirem tempo e dinheiro em métodos alternativos de tratamento quando existem sólidas evidências científicas sobre a eficácia de dado método. Mas não vou entrar nessa discussão.

Depois dessa afirmação contundente na abertura do artigo, Foxx nota que o tratamento ABA tem mostrado eficácia em várias áreas e cenários de aplicação. Conforme o autor:

“ABA, às vezes chamada de terapia comportamental ou modificação do comportamento, usa métodos derivados de princípios do comportamento estabelecidos cientificamente. ABA tem sido aplicada de forma bem-sucedida para uma gama de população e áreas, incluindo autismo, transtorno de desenvolvimento, educação em suas muitas formas, negócios, saúde mental, aconselhamento, aconselhamento conjugal, abuso infantil, só para citar algumas”.

Foxx sintetizou em uma tabela (Box 1, no artigo) um conjunto de evidências sobre a efetividade da ABA. Entre essas evidências, destaco as seguintes:

  • Indivíduos de todas as idades têm sido educados e tratados de forma bem-sucedida por mais de 40 anos (crianças por mais de 47 anos) com ABA
  • ABA foi indicada como tratamento de escolha para indivíduo com autismo no início dos anos 1980
  • Nenhuma outra abordagem educacional/tratamento para autismo conta com o apoio de instituições como o Departamento de Saúde do estado de Nova York e Cirurgião geral dos Estados unidos
  • O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) tem financiado pesquisa sobre o tratamento ABA para autismo nos últimos 40 anos
  • ABA é a única terapia reconhecida no tratamento de jovens com autismo
  • Nenhum programa educacional ou abordagem para o tratamento de autismo atinge os critérios científicos atingidos pela ABA.

Foxx resume, conforme descrito a seguir, diretrizes que orientam o tratamento ABA para autismo:

  • Intervenções devem começar o mais cedo possível
  • Intervenções têm de ser intensivas
  • Treinamento e apoio aos pais é ponto crucial da intervenção
  • Intervenções devem focar áreas de comunicação e de interação da criança
  • Tratamentos devem ser sistemáticos, individualizados, com objetivos definidos de acordo com as necessidades de cada criança
  • Intervenções efetivas têm de enfatizar generalizações (assegurar que a mudança de comportamento produzida na criança ocorra em diferentes contextos).

Foxx nota também que em um programa de intervenção ABA incorporam-se fatores que o Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos considera caracterizar uma intervenção eficiente. Além disso, tratamento ABA exige profissionais bem qualificados, com, no mínimo, nível de mestrado, e certificados por órgãos competentes para atuar como analistas do comportamento em intervenções comportamentais (não é qualquer analista do comportamento, mas analista do comportamento que recebeu treinamento específico para aplicação).

O autor descreve procedimentos básicos ABA para tratamento de autismo e para programas educacionais, assim como estratégias para assegurar a manutenção dos efeitos da intervenção.

Na conclusão do artigo, Foxx cita Metz e colaboradores, que afirmaram que as únicas intervenções que têm mostrados resultados finais compreensíveis no tratamento de autismo são aquelas baseadas nos princípios da ABA.

Aqui está o texto integral, em inglês, para quem quiser ler o original e checar as referências citadas pelo autor e algumas mencionadas no post.

Possibilidades e limites para diversidade de interações sobre política partidária em blogs

Transcrevo a seguir o resumo de minha tese de doutorado, defendida em maio, na PUC-SP. Confesso que no início da pesquisa eu era meio deslumbrada e meio ingênua ao analisar possibilidades de interações sociais pela internet. Hoje, sou mais realista, graças a contribuições de minha banca e de autores que estudam relações entre mídia, política e cultura, como, por exemplo, Douglas Kellner (ver, por exemplo, A Cultura da Mídia e  Media Spectacle and insurrection 2011 – From the Arab uprisinhgs to occupy everywhere.

Wang, M. A. L. (2013). Possibilidades e limites para diversidade de interações sobre política partidária em blogs. Tese de doutorado. Programa de Estudos    Pós-graduados em Psicologia Experimental: Análise do comportamento, PUC-SP.

Orientadora: Profa. Dra. Maria Eliza Mazzilli Pereira

Linha de pesquisa: Desenvolvimento de metodologias e tecnologias de intervenção

Baseando-se no princípio de seleção operante, é possível supor que certas práticas verbais em uma comunidade tendam a ser, inicialmente, diversas e ao longo do tempo se tornem menos diversas em algumas de suas dimensões. Com o objetivo de estudar esse possível fenômeno, neste trabalho analisaram-se interações verbais nos blogs dos jornalistas Luís Nassif (LN) e Ricardo Kotscho (RK), para identificar aspectos que pudessem ser caracterizados como diversidade e como uniformidade na interação entre participantes, e com respeito a um tema político-alvo. Serviram como fonte um post relacionado com os partidos políticos PSDB e PT publicado no blog de RK, depois reproduzido no blog de LN, assim como seus respectivos comentários. Os comentários foram analisados segundo três aspectos principais: (1) posicionamento e forma de interação entre participantes (classificados quanto à concordância/discordância entre participantes, entre outras categorias, e classificados quanto à forma de apresentá-lo, isto é: com argumento que sustente a posição ou sem argumento); (2) posicionamento e forma de interação sobre PSDB/PT (classificados como favorável ou desfavorável a esses partidos, e com relação à maneira de apresentá-lo: citando aspectos/estratégias do programa do partido/político ou desqualificando o partido/político, por exemplo); (3) posicionamento e forma de interação sobre a orientação da mídia na cobertura política (sendo a orientação da mídia classificada como favorável ou desfavorável ao PSDB/PT, e classificados segundo a forma de apresentá-lo: com críticas/desqualificações dirigidas ao trabalho de empresas/jornalistas específicos ou a empresas/jornalistas em geral). Em ambos os blogs encontrou-se diversidade no posicionamento e na forma de interação entre participantes. Nas interações sobre política, encontrou-se uniformidade no posicionamento do grupo de LN: a grande maioria se posicionou de modo favorável ao PT ou desfavorável ao PSDB. No blog de RK, a relação entre posicionamento favorável e desfavorável ao PSDB/PT ficou mais equilibrada, mas foi maior o número de participantes que se posicionou desfavoravelmente ao PSDB em comparação com o número que se posicionou de modo desfavorável ao PT. Com base em resultados desta e de outra pesquisa em que o blog de LN serviu como fonte, considera-se possível que o comportamento dos participantes do blog de LN tenha passado/esteja passando por processo de seleção, que resultaria em maior uniformidade na orientação político-partidária de seus integrantes. Discutem-se possibilidades e limites para diversidade/uniformidade do produto de interações realizadas na web e para intervenções que pretendam alterar práticas culturais amplamente disseminadas.

Palavras-chave: comportamento verbal, interações em blogs, agência de controle, conhecimento socialmente construído, prática cultural, intervenção cultural.

Em inglês

Wang, M. A. L. (2013). Possibilities and limits for diversity of interactions on political parties on blogs. Doctoral thesis. Program of Postgraduate Studies in Experimental Psychology: Behavior Analysis, PUC-SP.

Advisor: Professor. Dr. Maria Eliza Pereira Mazzilli

Research line: Development of methodologies and technologies of intervention.

Abstract

Based on the principle of operant selection, it is possible to assume that certain verbal practices in a community tend to be initially diverse and over the time become less diverse. Aiming to investigate this assumption, in this study the verbal interactions on the blogs of the journalists Luis Nassif (LN) and Ricardo Kotscho (RK) were analyzed. The goal was to identify aspects of the interaction between participants and of the opinions about the target political issue that could be characterized as diversity and uniformity. A post related to the Brazilian political parties PSDB and PT published, at first, in the blog of Kotscho and, after that, re-posted in the blog of Nassif, as well as comments on the post, served as data for the analysis. All comments published in both blogs were analyzed according to three main aspects: (1) positioning and form of interaction between the participants (classified as agreement/disagreement, among other categories, and classified according to how the participants  presented their opinions, that is,  with or without arguments); (2) positioning and form of interaction about PSDB / PT(classified as favorable or unfavorable to these political parties, and classified with respect to how the arguments were presented, that is, citing aspects / strategies of the party’s political program, or disqualifying the political party / politician belonging to the party; (3) positioning and form of interaction about the orientation of the media in political coverage (classified as favorable or unfavorable to PSDB / PT, and classified according to how the participants described the media coverage, that is, with criticisms / disqualifications addressed to media companies / journalists in general, or with criticisms / disqualifications addressed to specific media companies/journalists).  Diversity in many aspects of interactions between participants was found in both blogs. Regarding interactions about politics, uniformity was found in LN’s blog: the majority of the participants positioned favorably to PT and unfavorably to PSDB. In RK’s blog, the relationship between favorable and unfavorable positioning to PSDB / PT was more balanced, although with the largest number of participants positioned themselves unfavorably to the PSDB compared to the number of the participants that positioned themselves unfavorable to PT. Based on these results and from the results of other research in which interactions in the LN’s blog were analyzed, it is possible that the behavior of the group in LN’s blog has gone / is going through a selection process, resulting in a more uniform political orientation of its members. Possibilities and limits to diversity / uniformity of verbal interactions on web are discussed, as well, possibilities and limits to planning potential interventions for changes in cultural practices widely disseminated.

Keywords: verbal behavior, interactions on blogs, control agency, knowledge socially constructed, cultural practice, cultural intervention.


Atitude e crença como construção social

No artigo Attitudes and beliefs as verbal behavior (Guerin, 1994), Guerin descreve a atitude e crença como comportamento verbal que pode ter a forma de tato, de intraverbal ou de mando. Para Guerin, o que, fundamentalmente, distingue atitude de crença são propriedades da conversação ou seus diferentes efeitos sobre o ouvinte. (Guerin, 2004, p. 213). Assim, verbalizações referidas como crenças podem servir como suporte ou justificativa para uma atitude declarada, mas apenas, diz Guerin, se a comunidade verbal estiver de acordo com a crença declarada.

Este exemplo pode esclarecer a suposta diferença entre atitude e crença. Uma pessoa afirma ser contra o uso de energia nuclear. Uma declaração como essa pode ser tomada como atitude dessa pessoa perante o tema “energia nuclear”. No entanto, apenas declarar ser contra o uso de energia nuclear pode não ser suficiente para a comunidade verbal reforçar o comportamento do falante. Assim, quem se diz contra o uso de energia nuclear poderá justificar sua atitude e afirmar que se baseia na crença de que energia nuclear tem subprodutos perigosos para a humanidade.

Ao analisar processos pelos quais a declaração de atitude é fortalecida pela comunidade verbal como se fosse tato, Guerin (1994) considera que comportamentos verbais descritos como atitude podem ter origem na generalização de tatos sobre o ambiente externo para tatos sobre o próprio comportamento, passando para tatos de atitude (atitudinal tacts). Cita como exemplo desse processo uma criança que relata a presença de um gato em uma árvore e é reforçada com consequências sociais generalizadas (a existência do gato nem sempre é pré-requisito para liberação de reforçadores sociais). Da mesma forma, a criança pode afirmar que resgatou um gato de uma árvore ou que gosta de gatos. Ainda que essa criança goste realmente de gatos, gostará de alguns gatos específicos e não de gatos de forma generalizada. Mesmo assim, a criança poderá ter seu comportamento verbal reforçado como se fosse tato ao afirmar “gosto de gatos” (p.156).

Para Guerin (1994), atitudes podem ser tratadas como comportamento intraverbal se o relato de atitude estiver sob controle de estímulos verbais em vez de sob controle do ambiente físico imediato. Esse efeito é um dos efeitos comuns, segundo Guerin, de conversações casuais, quando a manutenção da conversa é mais importante do que descrições de preferências ou descrições do ambiente imediato (p.158).  Trata-se daquilo que popularmente é chamado de jogar conversa fora”.

Guerin cita dois aspectos que fortalecem a suposição de que atitude pode ser descrita como comportamento intravebral: a) relatar preferências tende a ser reforçado quando essas preferências forem gerais – por exemplo, “gosto de gatos”; em vez de gosto do meu gato; b) muitas verbalizações de atitudes referem-se a eventos aos quais o falante nunca teve acesso diretamente – por exemplo, afirmações sobre mudanças climáticas ou sobre segurança ou insegurança da energia nuclear. No entanto, verbalizações desse tipo são frequentemente reforçadas pela comunidade como se fossem tatos (Guerin, 1994 p158).

Atitude pode ter, ainda, segundo Guerin (1994), a função de mando. Guerin cita, como exemplo, um chefe que afirma não gostar de pessoas que tomam café no trabalho. Essa declaração pode assumir a função do mando “não tome café enquanto estiver trabalhando” (p. 159), mas é apresentada como se fosse atitude.  Conforme sintetiza Guerin (1994):

As pessoas frequentemente afirmam que suas atitudes são baseadas em suas crenças e declaram atitude positiva ou negativa porque acreditam que há subprodutos positivos ou negativos envolvidos: “porque o risco de acidente nuclear é grande, não gosto do uso de energia nuclear”. . . .  apresentar, porém, uma crença para fortalecer uma declaração de atitude é, em si mesmo, um ato social de persuasão, que exige mais análises . . .; relatos de atitude podem ser reforçados se forem baseados em crenças, mas apenas se a comunidade verbal concordar com as crenças que dão suporte à atitude. (Guerin, 1994, p.160)

Guerin (1994a analisa também a relação entre atitude e comportamento verbal ou não verbal correspondente à atitude declarada. A esse respeito, argumenta que as mesmas contingências sociais que modelam correspondência entre dizer/fazer aplicam-se à afirmação de atitude seguida do comportamento correspondente à atitude declarada. Guerin nota que existe uma série de consequências aversivas para alguém que muda frequentemente: faz algo em um dia e, no dia seguinte, algo oposto ao feito no dia anterior. Agir conforme o declarado comumente é reforçado pela comunidade verbal. O mesmo pode ocorrer com a verbalização de atitude e o comportamento correspondente à verbalização.

Guerin ressalta, porém, que, dado o amplo repertório verbal de um indivíduo, os múltiplos controles envolvidos no comportamento e as múltiplas comunidades verbais existentes na sociedade moderna nas quais um indivíduo toma parte, inconsistências comportamentais – ou falta de correspondência entre dizer/fazer – podem tornar-se frequentes, especialmente quando se trata de comportamento verbal, que está sob controle direto do comportamento de outras pessoas. (Guerin, 1994, p. 162)

Conforme Guerin (2004), conversações podem ter três funções: levar o ouvinte a fazer algo; fazer o ouvinte acreditar em algo ou repetir algo; manter interações sociais (cuja função é manter o ouvinte predisposto a liberar reforçadores e manter o status do falante como integrante de um grupo). Para esse autor, entre as principais funções da conversação destacam-se as estratégias para modificar ou evitar consequências daquilo que foi dito (p.185). E fazem parte dessas estratégias, diz Guerin, apresentar um tópico com termos como atitude e crença.

Referências:

Guerin, B. (1994). Attitudes and beliefs as verbal behavior. The Behavior Analyst, 1, 17 (pp. 155-163).

Guerin, B. (2004). Handbook for analyzing the social strategies of everyday life. Reno, Nevada: Contexxt Press.

Comportamento humano e prática cultural

Skinner (1981) defendeu que comportamento humano é resultado da interação entre variáveis pertencentes a três níveis de seleção por consequências: filogenético, que diz respeito a historia da espécie; ontogenético, que se refere à história de interação de um indivíduo com seu ambiente físico e social; e, por fim, nível cultural, relacionado com práticas dos grupos, transmitidas a seus integrantes de geração a geração. A análise de Skinner (1981) acerca do terceiro nível de seleção por consequências parece ter contribuído para estimular analistas do comportamento a iniciar uma linha de pesquisa sobre cultura.

Glenn (2004) busca demonstrar como interações entre variáveis pertencentes aos três níveis de seleção por consequências, referidos por Skinner (1981) – nível biológico, ontológico e cultural – resultam em culturas cada vez mais complexas, baseadas em comportamentos aprendidos e na transmissão de comportamentos aprendidos. Nos termos de Glenn (2004):

“Culturas com níveis de complexidades crescentes têm emergido pelo intercâmbio entre capacidade humana para aprendizagem, contingências de reforço que explicam os comportamentos aprendidos por indivíduos, e a transmissão cultural de comportamentos aprendidos” (p.133).

Para Glenn (2004), ao discutir influencias filogenéticas na emergência das culturas, cita duas características que julga sobressair-se em humanos em comparação com organismos de outras espécies: sociabilidade – “predisposição do ser humano a passar a maior parte de seu tempo próximo de outros humanos” – e potencial para aprendizagem, também considerado superior em humanos em relação a espécies. Essas características, nota Glenn (p.138), são fontes extras de complexidade pré-requisitos para a transmissão de comportamentos aprendidos a novas gerações.

Glenn (2004) define cultura como “padrões de comportamentos aprendidos e transmitidos socialmente, assim como os produtos desses comportamentos (objetos, tecnologias, organizações, etc.)”’(p. 139). Aprendizagem compreende, segundo Glenn, recorrências de relações temporais de um único indivíduo diante de outros eventos empíricos.  Ao contrário disso, o locus do fenômeno cultural sempre envolverá “a repetição de comportamentos entrelaçados de dois ou mais organismos”. Em uma contingência operante típica, comportamentos de um podem funcionar como situação para o comportamento do outro ou como consequência ao comportamento de outro. Conforme Glenn, a transmissão cultural não depende de novos traços biológicos ou de novos processos comportamentais, “mas inicia novo tipo de linhagem, descrita como linhagem culturo-comportamental” (p.139) [grifo acrescentado].

Glenn define linhagem culturo-comportamental como a recorrência de instâncias comportamentais entrelaçados, aprendidas e transmitidas a novas gerações de integrantes de uma prática cultural. Linhagem culturo-comportamental é análoga a linhagem ou classe operante, que descreve a recorrência de instâncias comportamentais no fluxo comportamental de indivíduos. (Glenn, 2003, 2004)

A emergência e a evolução de uma cultura compreende, segundo Glenn, interações entre: (a) contingências que explicam a seleção comportamental em nível operante; (b) macrocontingência ou relação entre práticas culturais com a soma do efeito agregado dos macrocomportamentos constitutivos da prática; (c) metacontingências que explicam a seleção do entrelaçamento de conjuntos de práticas sociais particulares de instituições culturais. Glenn ressalta, em conformidade com Skinner (1953, 1981), que em todas essas relações o mecanismo causal é a seleção operante, em que reforçamento é o princípio fundamental, quer dizer, reforçamento é o princípio em que outros princípios se baseiam (Glenn, 2004, p. 134).

Glenn (2004) define práticas culturais como “padrões de conteúdos comportamentais semelhantes, resultantes, normalmente, de semelhanças nos ambientes” nos quais há recorrências dessas práticas (p.141). A única exigência para que padrões comportamentais sejam classificados como prática cultural é a existência de semelhanças nos comportamentais de vários indivíduos. Conforme Glenn, não é necessário envolver transmissão nem supor origem comum da prática. (Glenn, 2004, p.140)

Seleção cultural envolve, segundo Glenn, tipicamente, relações de macrocontingência e de metacontingências. Macrocontingência caracteriza-se como “relação entre uma prática cultural e a soma agregada de macrocomportamentos compreendidos na prática” (p.142). É o caso de milhões de pessoas que vão ao trabalho dirigindo o próprio carro, produzindo efeitos cumulativos (poluição atmosférica, por exemplo). Nesse exemplo, além de efeitos imediatos, que alteram a probabilidade da recorrência do comportamento de cada indivíduo (p. ex., chegar ao trabalho dentro de dado intervalo de tempo, gastando uma quantia específica com combustível e com supostamente mais conforto do que fazer o percurso por meio de transporte coletivo), a prática produz outros efeitos (não contingentes ao comportamento individual) que vão se acumulando ao longo do tempo. Cada ocorrência do comportamento envolvido em uma prática cultura aumenta, em alguma medida, o efeito cumulativo da prática, e soma dos efeitos cumulativos pode se tornar fonte de problemas para as culturas. Conforme Glenn (2004):

“Quanto mais disseminada for a prática, maiores seus efeitos cumulativos; quanto maior o efeito cumulativo, maior a importância deles para o bem-estar de grande número de pessoas. Cada pessoa contribuindo para o efeito acumulado contribui em proporção direta com a frequência de seu comportamento. É o efeito cumulativo do comportamento em uma prática cultural que constitui problema para pessoas de uma cultura”. (p. 143)

O fato de o efeito do comportamento de um único indivíduo parecer inexpressivo para o efeito cumulativo da prática representa mais um desafio para se realizar mudanças em relações de macrocontingência, como ressalta Glenn (2004) nesta passagem:

“Não é apenas uma questão de a consequência ser pequena demais, atrasada demais ou cumulativa demais para ter função comportamental, embora tudo isso seja verdadeiro e importante . .. mesmo que, por alguma mágica, fôssemos capazes de dar a essas consequências funções poderosas, a própria consequência pode ser anulada pelo comportamento de outras pessoas. Nosso trabalhador, altamente motivado a ter ar puro, pode pedir carona (Carpool) pelos próximos 20, 30 anos, mas se muitas pessoas não fizerem o mesmo, o ar não se tornará mais limpo”. (p. 141)

Nas relações de metacontingências o mecanismo de seleção opera sobre o entrelaçamento de conjuntos particulares de comportamentos e não sobre instâncias singulares. Relações de metacontingências originam, segundo Glenn, “coleções organizadas de contingências comportamentais que constituem complexas instituições culturais de vários níveis” (p.145). Neste  trecho de seu artigo, Glenn (2004) esclarece como se dão interações entre comportamento operante e seleção de/por metacontingências:

O conceito de metacontingência descreve evolução por seleção quando  linhagens que evoluem não são recorrências de atos individuais … mas recorrência de contingências comportamentais entrelaçadas (CCEs) que funcionam como unidades integradas e resultam em produtos agregados que afetam a probabilidade da recorrência de CCEs no futuro. A recorrência de CCEs compreende contingências operantes em que o comportamento de duas ou mais pessoas funciona como evento comportamental para o comportamento de outros. O resultado produzido pela recorrência de CCEs não é o efeito cumulativo de participantes agindo individualmente, mas o efeito do entrelaçamento comportamental. (pp. 144-145)

Glenn cita como exemplo de relações de metacontingências, comportamentos coordenados de duas pessoas preparando uma refeição, cujo produto – todos os pratos incluídos no cardápio, preparados em dado intervalo de tempo – não seriam igualmente produzidos se cada cozinheiro estivesse trabalhando individualmente. Nesse caso, o que é crucial para a seleção é o produto resultante do entrelaçamento comportamental e não o efeito acumulado do comportamento de cada cozinheiro agindo individualmente. (Glenn, 2004, p. 145)

Nas relações de metacontingências, ressalta Glenn, a mudança no comportamento dos participantes envolvidos na linhagem cultural quase sempre provoca ajustes nas contingências comportamentais entrelaçadas (CCEs) e representa oportunidade ou ameaça para a sobrevivência da linhagem. Encontram-se relações de metacontingências em empresas, com seus fornecedores e demais parceiros comerciais; escolas, com órgãos educacionais a que pertencem; universidades, com seus departamentos, entre outras organizações que funcionam como unidades, e, como tal, dependem da recorrência de CCEs para continuar a reproduzir as próprias práticas. Conforme Glenn (2004):

“Cada uma dessas unidades existe enquanto as contingências comportamentais entrelaçadas (CCEs) produziram resultados que aumentem a probabilidade de recorrência de CCEs. São todas entidades que podem mudar e evoluir ao longo do tempo ou podem desaparecer”. (p. 146)

Ao discutir semelhanças entre seleção comportamental e seleção de metacontingências, Glenn ressalta que mudanças comportamentais exigem que as consequências do comportamento sejam variáveis (podem variar em magnitude, intermitência, entre outras dimensões). Nota que eventos antecedentes podem afetar instâncias do comportamento, mas a recorrência do comportamento depende da consequência. Nesse ponto, Glenn retoma Skinner (1957), e afirma que comportamento operante muda o ambiente, e a mudança resultante pode alterar a probabilidade futura daquela classe de comportamento ou linhagem comportamental. De forma semelhante, contingências comportamentais entrelaçadas (CCEs) produzem dado resultado. Recorrências futuras de CCEs, assim como suas características, dependem de relações diferenciais entre instâncias comportamentais e seus produtos. Ou nas palavras de Glenn (2004): “Mudanças endógenas ou exógenas às CCEs poderão resultar em variações que produzem diferentes resultados e tais resultados podem aumentar ou diminuir a probabilidade de recorrência de CCEs no futuro” (p. 147).

Referências

Glenn. S. S. (2004). Individual behavior, culture, and social change. The Behavior analyst, 27,  133-151.

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 13, 4507, 501-504.

Núcleo Paradigma procura participantes para terapia em grupo

O Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento está com vagas abertas para atendimento gratuito em terapia em grupo. Serão aceitos participantes adultos, a partir de 25 anos, de ambos os sexos.
Os atendimentos serão realizados semanalmente às quintas-feiras, das 19h30 às 21h,  na sede do Paradigma, que fica na Rua Wanderley, 611, Perdizes.

Mais informações pelo telefone (11) 3864-9732.

Abertas inscrições para Grupos de Interesses específicos no Encontro da ABPMC

Até 15 de agosto, participantes do Encontro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC) podem submeter propostas de criação de Grupos de Interesse Específicos (GIs). A ideia é oferecer espaço no Encontro para que profissionais, pesquisadores, docentes e discentes reúnam-se em torno de temas específicos, de interesse comum.

Para submeter proposta de Grupo de Interesse, o participante deve preencher uma ficha disponível no site do Encontro (http://encontroabpmc2013.com.br/) e enviá-la para o e-mail grupos@abpmc.org.br.

O 22º Encontro da ABPMC será realizado entre 11 e 14 de setembro em Fortaleza, na Fábrica de Negócios. A programação científica do evento já está publicada no site do Encontro.

A realização do Encontro da ABPMC no Ceará representa oportunidade ímpar para profissionais do Nordeste, cujo trabalho envolva estudo do comportamento humano (profissionais e estudantes de Psicologia, Psiquiatria, Neurociências e áreas afins), que poderão conhecer, em um só local, avanços no estudo do comportamento humano, realizados por pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

Para obter mais informações sobre o XXII Encontro da ABPMC, visite o site do evento.

Para conhecer melhor a ABPMC, visite o site da instituição.

Dúvidas e informações podem ser obtidas também pelo telefone (85) 3099-0377.

Definições de conhecimento, segundo Skinner e Guerin

Conhecer é ser capaz de se comportar apropriadamente, de forma verbal ou não verbal, em determinadas situações e sobre determinados aspectos do mundo

Baseando-se em Skinner (1957/1992, 1974), Guerin (1992) propõe que conhecimento é: (1) comportamento modelado pela relação direta de indivíduos com o mundo físico imediato; (2) comportamento modelado pela relação indireta do homem com o ambiente físico, construído por meio do comportamento verbal (ou do registro do comportamento) de outros indivíduos.

Guerin (1992), citando Ryle (1949), descreve comportamento produzido pela relação direta do homem com seu ambiente físico imediato como saber como (knowing how), ao passo que o comportamento modelado por um ambiente social, por meio de descrições de integrantes da comunidade verbal, é descrito como saber que (knowing that).  O último, saber que, caracteriza-se na análise do comportamento, como comportamento construído socialmente – porque se fundamenta na interação de indivíduos com outros indivíduos ou na interação de indivíduos com o produto do comportamento de outros indivíduos, e não na relação direta de indivíduos com seu ambiente físico imediato (Guerin, 1992). Em ambos os casos, (knowing how e knowing that), conhecer é ser capaz de se comportar apropriadamente, de forma verbal ou não verbal, em determinadas situações e sobre determinados aspectos do mundo (Skinner, 1957/1992, 1974; Guerin, 1992; Tourinho, 2003). Segundo Skinner (1974):

“Todas as formas de conhecer dependem de uma exposição prévia a contingências de reforço, mas afirma-se também que possuímos um tipo especial de conhecimento se pudermos simplesmente formular instruções, orientações, regras ou leis. Uma pessoa pode saber como fazer funcionar um dispositivo porque leu as instruções, ou como andar por uma cidade porque estudou o mapa, ou como agir legalmente porque conhece as leis, embora possa nunca ter manejado o dispositivo, visitado a cidade ou sentido o peso da lei. O conhecimento que permite a uma pessoa descrever contingências é muito diferente do conhecimento do comportamento modelado pelas contingências. Nenhuma das formas implica a outra.” (pp.138-139)

Para ampliar a discussão sobre as duas formas de conhecimentos referidas, Guerin (1992) retoma a definição de dois operantes verbais primários, descritos por Skinner (1957/1992): a) tato – “definido como operante verbal em que uma resposta de dada forma é evocada (ou pelo menos é fortalecida) por um objeto particular, um evento, a propriedade de um objeto ou de um evento” (Skinner, 1992, pp. 81-82); b) intraverbal – resposta verbal (vocal ou escrita) sob controle de estímulo verbal antecedente (vocal ou escrito) sem que haja correspondência formal entre estímulo antecedente e comportamento (Skinner, 1957/1992, p.72).

Guerin (1992) nota que embora tato seja descrito como operante verbal sob controle de estímulo antecedente usualmente não verbal, é instalado por meio de reforçadores generalizados – aqueles reforçadores que ao longo da história do indivíduo foram condição para a obtenção de outros (mais de um) reforçadores. Dessa forma, a emissão de tatos pode ficar sob controle de consequências sociais como aprovação, afeição, submissão do outro, e menos sob controle do ambiente físico imediato do falante. Não existem tatos “puros”. (Guerin, 1992; Skinner, 1957/1992)

Guerin (1992) descreve três maneiras pelas quais o comportamento verbal pode se manter sem qualquer relação com o mundo não verbal: (1) se a emissão de comportamentos semelhantes a tatos for controlada por subcomunidades que não reforcem descrições “precisas” do ambiente (considere-se que a noção de “descrição precisa” pode variar de comunidade para comunidade); (2) se intraverbais forem reforçados pelo grupo como se fossem lembranças de tatos prévios (o que é possível, já que, em muitos casos, torna-se difícil estabelecer a diferença entre lembrança de tato e comportamento intraverbal); (3) se consequências generalizadas se tornarem generalizadas demais e mantiverem a emissão de “tatos” de forma indiscriminada. (pp.1426-1427)

Em síntese, Guerin (1992) comenta que grande parte da vida moderna é dedicada a falar e a escrever sobre o mundo. Mas descrições sobre o mundo são mantidas por consequências liberadas por outras pessoas – e não, necessariamente, pelos estímulos ou eventos descritos ou pelo efeito de descrever adequadamente esses estímulos. Dessa forma, conjuntos de repertórios que são definidos como conhecimento são frequentemente construções verbais sobre construções verbais anteriores.

Referências:

Guerin, B. (1992).  Behavior Analysis and Social Construction of Knowledge. American Psychologist, 47, 11, 1423-1432.

Skinner, B. F. (1957/1992). Verbal behavior. Cambridge, MA: B. F. Skinner Foundation. (Obra publicada originalmente em 1957).

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism.  New York: Alfred A. Knopf.

Possibilidades e limites para diversidade de interações sobre política partidária em blogs

Em minha tese de doutorado, defendida dia 14/5/2013 na PUC-SP, analisei interações verbais sobre política em dois blogs jornalísticos, acerca de um tema-alvo relacionado com PSDB e PT, no contexto da pré-campanha à Presidência da República, em 2010.

A forma de interação entre participantes de ambos os blogs foi muito semelhante, exceto referente à orientação política. Em um dos blogs, a grande maioria dos participantes se posicionou de modo favorável ao PT ou desfavorável ao PSDB. No outro blog, a relação entre posicionamento favorável e desfavorável ao PSDB/PT ficou mais equilibrada, mas foi maior o número de participantes que se posicionou desfavoravelmente ao PSDB em comparação com o número que se posicionou de modo desfavorável ao PT.  Consideramos possível que o comportamento dos participantes de um dos blogs – aquele cuja orientação política foi menos diversa – tenha passado/esteja passando por processo de seleção, que resultaria em maior uniformidade na orientação político-partidária de seus integrantes. E discutimos possibilidades e desafios para diversidade/uniformidade em interações verbais em comunidades verbais na internet, especialmente quando essas comunidades se dedicam a temas acerca dos quais seus integrantes têm orientações/crenças bem estabelecidas, como parece ser o caso de política partidária.

A pesquisa pode ser baixada pelo site da biblioteca da PUC, aqui.

Controle comportamental pela mídia

Richard Laitinen e Richard Rakos discutem diversas formas de controle comportamental pela mídia no artigo “Controle corporativo da mídia e propaganda: uma análise comportamental” (Corporate control of media and propaganda: a behavior analysis). Discutem três transformações que consideram marcantes no mercado de comunicação de massa: (1)  mudança de função da propaganda; (2) o processo de fusão e aquisição pelo qual criaram-se grandes conglomerados mundiais; (3) o avanço da tecnologia que permitiu a transmissão de informações em nível mundial de forma instantânea.

Para os autores, antes de a informação se tornar uma “mercadoria eletrônica”, a mídia era composta, em primeiro lugar, por meios impressos, e em segundo lugar, pelo rádio e pela televisão. Nessa época, cada empresa controlava um meio específico (impresso, rádio ou TV) e existia competição entre elas. Cada meio, portanto, atuava dentro de certos limites (ver, a esse respeito, análise de Costa, 2005, sobre a propriedade de meios de comunicação no Brasil e as mudanças ocorridas no controle das empresas de comunicação, no país, com o advento da globalização). Conforme Laitinen e Rakos, antes “existia diversidade de estímulos e a mídia era incapaz de exercer controle sistemático sobre o comportamento de cidadãos” .

Laitinen e Rakos observam que hoje a mídia compõe-se de meios impressos, televisivos, canais de distribuição de informações a cabo, meios eletrônicos, controlados por conglomerados globais, que atuam em todos os processos de produção e de distribuição/disseminação de conteúdo. É o caso, citam eles, das organizações de Rupert Murdoch, que reúnem jornal, revista, rede de televisão, editora de livro, estúdio de cinema, produtora de vídeo, serviço de acesso à internet e atuam em cinco continentes. Consideram que sistemas de controle atuais, “atuando por meio de contingências econômicas e contingências políticas indiretas, constituem ameaça maior à diversidade comportamental do que formas de tiranias existentes no passado”. Porque, segundo esses autores, hoje o controle da informação é mais “sistemático, contínuo, consistente, discreto e, por último, mais poderoso”.

A seguinte pesquisa exemplifica como a mídia manipula informações para controlar o comportamento de seus consumidores em dada direção.Trata-se da forma como os Estados Unidos conseguiram apoio popular para invadir o Iraque. Laitinen e Rakos  relatam que o período que compreendeu seis meses e meio entre a invasão do Iraque ao Kuwait (1990) e os ataques dos EUA ao Iraque (1991) caracterizou-se por “uma campanha clássica, orquestrada pelo governo e pela propaganda produzida pela mídia” contra o governo do Iraque. Contam que o então presidente dos Estados Unidos, George Bush, argumentava que a invasão do Iraque ao Kuwait ameaçava interesses legítimos dos americanos. Bush alegava que a liberdade dos EUA, e de países amigos, correria risco se as maiores reservas de petróleo do mundo ficassem concentradas nas mãos de um único indivíduo, Saddam Hussein. Era necessária uma “resposta rápida e vigorosa dos EUA ao Iraque” .

Os autores notam, porém, que governo dos Estados Unidos não contava com apoio popular para invadir o Iraque, até porque, no passado, o povo americano tinha presenciado uma situação oposta: o Iraque era aliado dos EUA; e o Kuwait, se não era encarado como inimigo, tampouco estava na relação dos amigos do governo estadunidense. Para que a campanha do governo americano contra o Iraque fosse bem-sucedida, era preciso contar com apoio da população.

De acordo com Laitinen e Rakos, em agosto de 1990, a administração do presidente Bush iniciou uma campanha sistemática, com apoio da mídia, cujo objetivo era apresentar Saddam Hussein como representante do “mal” e o Kuwait como representante do “bem”. As estratégias do governo americano para obter apoio popular, executadas por meio da grande imprensa, foram analisadas por Rakos (1993), que pesquisou conteúdos referentes ao Iraque e ao governo dos EUA publicados no jornal The New York Times entre 2 de agosto de 1990 e 16 de janeiro de 1991.

Rakos (1993) identificou a manipulação de um conjunto de estímulos antecedentes na propaganda governamental dos Estados Unidos, que teriam levado a população americana a passar de uma posição anteriormente contrária à guerra contra o Iraque a, posteriormente, apoiar o conflito armado. Uma das medidas, segundo Rakos, foi apresentar ao público, aos poucos, a necessidade de confronto militar. Primeiramente, a imprensa destacou os “esforços” do governo americano para evitar a luta armada. Enquanto isso, Hussein era sistematicamente emparelhado a estímulos aversivos, como, por exemplo, a Hitler, de forma que aos poucos o líder iraquiano e seu país foram estabelecidos como “perigosos para a humanidade”.

Entre as estratégias adotadas pela propaganda governamental americana, para obter apoio da população à invasão do Iraque, incluíram-se também, segundo Rakos, restrição de informações, desinformação e assepsia de notícias sobre a guerra veiculadas pela imprensa. Com esta última estratégia,  governo e mídia evitavam produzir estímulos aversivos associados ao combate militar e buscavam garantir que notícias sobre o confronto fossem apresentadas sem sinais de violências.

A manipulação de operações como essas teria feito com que a população, de uma posição inicial contrária à intervenção militar no território iraquiano, não só passasse a apoiar o conflito armado, como declarações de apoio à guerra passaram a ser reforçadas socialmente entre americanos que se envolviam em conversas sobre a guerra. Segundo Laitinen e Rakos: ”A propaganda militar, promulgada via meios de comunicação de massa, transformou a Guerra do Golfo de uma batalha defensiva em entretenimento no horário nobre” .

Referência:

LAITINEN, R.; RAKOS, R.F. Corporate control of media and propaganda: A behavior analysis. In P.A. Lamal (Org.), Cultural contingencies: Behavior analytic perspectives on cultural practices. p. 237-267. Westport, CT: Praeger. 1997.

RAKOS, R.F (1993).Propaganda as Stimulus Control: The Case of the Iraqi Invasion of Kuwait. Behavior and Social Issues, Double Issue 1993, V 3, No. 1 and 2

Para ler o texto de Rakos (1993) integralmente, em inglês, clique aqui.

Comportamento como interação organismo-ambiente

Para quem busca uma boa definição de comportamento, sugiro a leitura de um conjunto de artigos que compõem “Comportamento e causalidade”, material didático produzido e usado atualmente por professores do curso de Psicologia comportamental da PUC-SP. Esse material foi organizado pelas professoras Maria Amalia Andery, Tereza Maria Sério e Nilza Micheletto.  Andery, Sério e Micheletto caracterizam o termo comportamento como segue:

“Como afirma Skinner (1987), o termo comportamento descreve sempre uma relação– o intercâmbio entre o organismo e o ambiente; mais especificamente, comportamento descreve uma relação ou interação entre atividades do organismo, que são chamadas genericamente de respostas, e eventos ambientais, que são chamados genericamente de estímulos. Concluindo, definimos comportamento como a relação entre estímulo e resposta.”

A noção de comportamento como interação sujeito-ambiente fica clara na forma com B. F. Skinner, em seu livro Verbal Behavior (1957), caracteriza comportamento. Conforme Skinner:

(1) Os homens agem sobre o mundo; (2)modificam o mundo a seu redor; e (3) são modificados pelas consequências de sua ação.

Charles Catania, autor do livro Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição, define comportamento, de forma genérica,  como “Qualquer coisa que um organismo faça”.

Catania justifica assim sua opção por uma definição tão genérica:

“A definição, dessa maneira, é muito inclusiva, mas não pode facilmente ser muito mais restrita. Por exemplo, mudanças na atenção não precisam envolver movimento do olho, mas qualificam-se como comportamento. A palavra geralmente é empregada como substantivo para respostas (um comportamento, vários comportamento), mas este texto adere ao uso coloquial, em que comportamento é um termo coletivo (tipos de comportamento)”.

Convém ressaltar a importância do termo ambiente na definição de comportamento, pois se trata de um termo empregado de forma distinta do uso coloquial. Em “Comportamento e causalidade”, Andery, Sério e Micheletto esclarecem a noção de ambiente, conforme apresentado a seguir:

“O termo ambiente se aplica à situação na qual o responder acontece e à situação que passa a existir após o responder, isto é, aos estímulos que antecedem a resposta (chamados de estímulos antecedentes) e aos estímulos que seguem a resposta (chamados de estímulos subseqüentes). .. Podemos ter comportamentos – ou relações – que envolvem apenas estímulos antecedentes e a resposta e relações que envolvem os estímulos antecedentes, a resposta e os estímulos subseqüentes.”

Outro aspecto importante na definição de comportamento é a abrangência do termo eventos ambientais, que tanto podem ser constituídos de elementos físicos quanto sociais. Como afirma Anderey, Sério e Micheletto:

“Os eventos ambientais são compostos por estímulos físicos e estímulos sociais. Estímulos físicos são eventos cujas propriedades e dimensões fundamentais têm sido descritas pelas ciências ditas naturais; por exemplo, os diversos objetos ao nosso redor. Estímulos sociais são eventos cujas propriedades e dimensões básicas são derivadas do fato de serem produzidas por outro organismo; no caso de seres humanos, são produtos culturais”.

Curso de verão sobre análise do comportamento na PUC-SP

Boa oportunidade para quem se interessa sobre pelo estudo científico do comportamento humano. De 7 a 18 de janeiro de 2013 o Programa de Psicologia Experimental:Análise do comportamento da PUC-SP realiza um curso de verão sobre análise do comportamento. Podem se inscrever graduados de quaisquer áreas do conhecimento. Para mais informações e inscrições clique aqui.

Emoção e comportamento

Skinner, em Ciência e comportamento humano, rejeita que emoção seja causa do comportamento. Inicia o capítulo sobre o tema afirmando: “As ‘emoções’ são excelentes exemplos das causas fictícias às quais comumente atribuímos o comportamento” (Skinner, 1953/2003, p.175).

Rejeita teorias que tentam explicar eventos emocionais com base em mudanças fisiológicas. A esse respeito, Skinner argumenta que certas mudanças fisiológicas comumente presentes diante de fenômenos ditos emocionais podem ocorrer em outras circunstâncias e com fenômenos que não seriam classificados como emocionais. Segundo Skinner:

 A despeito de extensiva investigação, não foi possível demonstrar que cada emoção se distinga por um padrão particular de respostas de glândula e músculos lisos. Embora haja alguns padrões característicos dessas respostas, as diferenças entre as emoções com freqüência não são grandes e não seguem as distinções usuais. Nem servem para diagnósticos de emoção em geral, pois ocorrem também sob outras circunstâncias – por exemplo, depois de um exercício pesado ou de uma lufada de frio. (p.176-177).

Emoção, para Skinner, não é uma coisa. “Assim como o organismo faminto pode ser explicado sem muita dificuldade, ainda que “fome” não seja um objeto, também pela descrição do comportamento como amedrontado, afetuoso, tímido, e assim por diante, não somos levados a procurar coisas chamadas emoções.

Fenômenos chamados emocionais descrevem relações entre certas operações ambientais e certas mudanças no organismo, que podem ser de origem respondente e operante. Uma operação emocional produz dois efeitos: (1) elicia respondentes; (2) criar certas predisposições; (3) essas predisposições alteram a probabilidade do responder, porque estabelece o valor do reforço. Skinner esclarece o entrelaçamento de contingências envolvendo filogênese e ontogênese da seguinte forma:

As respostas que variam juntas em uma emoção o fazem em parte por causa da conseqüência comum. As respostas que aumentam de força na raiva infligem dano em pessoas ou objetos. Esse processo muitas vezes é biologicamente útil quando o organismo compete com outros organismos ou luta com o mundo inanimado. Assim o agrupamento das respostas que definem a raiva depende em parte do condicionamento. O comportamento que inflige dano é reforçado durante a cólera e subsequentemente será controlado pelas condições que controlam a raiva (…) Entretanto, parte do comportamento acarretado por uma emoção é aparentemente incondicionado, e neste caso o agrupamento deve ser explicado em termos de consequências evolutivas.  (Skinner, 1953/2003, p.179)

Para Skinner, emoção pode ser definida como “estado particular de alta ou baixa freqüência de uma ou mais respostas induzidas por qualquer uma dentre uma classe de operações” (p.182). No seguinte trecho, Skinner esclarece a noção de predisposição e probabilidade na emoção: “…O homem encolerizado, como o homem faminto, mostra uma disposição para agir de certa maneira. Pode nunca chegar a agir daquela maneira, mas, não obstante, podemos lidar com a probabilidade de o fará” (p.185).

Emoções podem ser descritas conforme a extensão e direção de seus efeitos sobre o organismo.

Quanto à extensão das mudanças, poderá envolver:

O repertório total do organismo numa determinada direção – Skinner cita como exemplo alegria e tristeza.

  • O repertório total de forma específica (medo e da zanga);
  • Subdivisões do repertório (embaraço, simpatia e divertimento).

O livro Ciência e comportamento humano está disponível integralmente na internet em sua versão em inglês. Para acessar esta versão clique aqui.

Reflexão sobre a ciência do comportamento em Skinner (1953)

Verificação de leitura (VL) referente ao curso CIÊNCIA E COMPORTAMENTO HUMANO: UMA LEITURA CRÍTICA, que fiz em 2009 como “atividade especial do doutorado).

1. Considerando o que discutimos sobre a primeira parte de CCH (a possibilidade de uma ciência do comportamento humano), apresente dois aspectos que marcam a concepção de Skinner sobre a produção de conhecimento científico.

A concepção do autor sobre o tema baseia-se no suposto de que a produção de conhecimento não pode ser dissociada da aplicação desse conhecimento, embora algumas das afirmações de Skinner, no início do livro, possam sugerir que ele defenda posição contrária, quando afirma, por exemplo: “talvez não seja a ciência que está errada, mas sua aplicação” (p.5).  Pouco á frente, porém, fica clara sua posição de que não se pode separar uma coisa da outra, como indica a passagem em que afirma que “teorias afetam a prática. Uma concepção científica do comportamento humano dita uma prática, a doutrina da liberdade pessoal, outra. Confusão na teoria significa confusão na prática” (p. 10).

Outro aspecto importante na concepção do autor sobre a produção de conhecimento científico diz respeito à forma como Skinner refere-se ao próprio objeto de estudo. Estudar comportamento – ou produzir conhecimento sobre comportamento – exige tomar o comportamento como objeto de estudo, em vez de se apelar para processos intrínsecos ao organismo como explicação comportamental. Para o autor, o problema em buscar explicações comportamentais dentro do organismo é que obscurece variáveis das quais o comportamento é função. Logo, poderíamos acrescentar, torna difícil – ou até mesmo inviável – o avanço da ciência porque como afirma Skinner, “não se podem aplicar os métodos da ciência em assunto que se presume ditado pelo capricho”. (p.7)

Produzir conhecimento científico, para Skinner, é uma tentativa de descobrir ordem, uniformidade e demonstrar que certos fenômenos estão mutuamente correlacionados. “É uma disposição de tratar com fatos, de preferência, e não com o que se possa ter dito sobre eles” (p.12). Mas não só isso: para Skinner a ciência não é mera contemplação, ou seja, a função de uma disciplina científica não termina com a descrição do fenômeno estudado. Para Skinner, depois de se encontrar as leis que explicam a ocorrência de certos processos comportamentais, cabe à ciência prever e controlar a ocorrência de tal fenômeno no futuro. Nas palavras do autor: “A ciência não só descreve, ela prevê. Trata não só do passado, mas do futuro. Nem é previsão sua última palavra: desde que as condições relevantes possam ser alteradas, ou de algum modo controladas, o futuro pode ser manipulado”.  (p.7)

Alguns problemas do controle aversivo

Revendo uma VL (verificação de leitura) de 2009 quando fazia o curso CIÊNCIA E COMPORTAMENTO HUMANO: UMA LEITURA CRÍTICA, com a Téia.

1. Como você entende a distinção entre “efeitos imediatos” e “efeitos duradouros” da punição?

Por “efeitos imediatos” da punição, Skinner (1953) parece referir-se à supressão momentânea do comportamento punido, pela emissão de respostas incompatíveis com esse comportamento. O autor cita como exemplo beliscar uma criança que ri na igreja. O beliscão elicia respostas que são incompatíveis com o riso. “Embora nossa ação possa ter outras consequências, podemos especificar o efeito competente das respostas eliciadas pelo estímulo punidor… o efeito vigente é simplesmente a eliciação de comportamento incompatível – respostas apropriadas, por exemplo, ao medo” (p.203).

Skinner esclarece o termo “os efeitos imediatos da punição” com dados de um experimento com procedimento de extinção, em que as primeiras respostas dos sujeitos foram punidas. O autor relata que, nesse experimento, embora a punição das primeiras respostas, no início da curva de extinção, reduzisse momentaneamente o responder, quando a punição era retirada o organismo voltava a responder conforme padrão típico de extinção. Ainda influenciado pelo conceito de reserva de resposta, Skinner concluiu que, “o efeito da punição foi uma supressão temporária do comportamento, mas não uma redução no número total de resposta.

Por efeitos duradouros da punição, Skinner (1953) parece referir-se a um conjunto de mudanças comportamentais produzidas por contingências aversivas típicas de punição. De forma genérica, esse conjunto de mudanças parece estabelecer: (1) o próprio comportamento punido como fonte de estimulação aversiva, que produz predisposições emocionais incompatíveis com a resposta originalmente punida; (2) condições aversivas que são evitadas por quaisquer comportamentos de “fazer qualquer outra coisa”, que seja diferente do comportamento que produziu punição.

Predisposições emocionais, produzidas pela punição, descritas usualmente como “culpa”, “vergonha” ou “sentimento de pecado”, não são produzidas apenas por comportamentos explicitamente punidos, como afirma Skinner, “mas por qualquer ocasião externa consistente com esse comportamento. O indivíduo pode se sentir culpado em uma situação na qual foi punido. Podemos controlá-lo pela introdução de estímulos que causem esse efeito“ (p.205).

No exemplo da criança, cujo riso na igreja foi punido com beliscões, o próprio comportamento de rir pode produzir estímulos condicionados que evocam respostas emocionais incompatíveis com o riso. A contingência pode ser descrita da seguinte forma:

Riso na igreja → beliscões → respostas incompatíveis com o rir. Nessas condições, o riso assume função de estímulo aversivo condicionado, e passa a eliciar, sem a necessidade dos beliscões, respostas incompatíveis com o rir.

Porque rir na igreja foi seguido de beliscões, qualquer comportamento incompatível com o riso tornar-se reforçador. Esse parece ser o terceiro efeito [duradouro] da punição, ou seja, a instalação de comportamentos que foram selecionados e são mantidos porque no passado evitaram a punição. Para Skinner, esse é o efeito mais importante da punição, ou seja, estabelecer quaisquer comportamento incompatíveis com o comportamento punido como reforçador.

 No entanto, se o comportamento for eficiente em evitar a punição, passa a se enfraquecer passo a passo até que perder sua efetividade.  A resposta anteriormente punida, cuja probabilidade continua alta, é emitida e o indivíduo entra em contato novamente com a punição, novamente o comportamento que se estabeleceu por evitar a punição se fortalece e o ciclo – chamado por Sidman (1989/2003) de paradoxo da esquiva – recomeça.

Comportamentos instalados e mantidos por contingências aversivas típicas da punição não são, necessariamente, mais “adequados” socialmente ou mais eficientes para o bem-estar do indivíduo, do que o comportamento originalmente punido. Como Skinner enfatizou, diante de uma contingência que sinaliza punição, estar seguro pode significa simplesmente “não fazer nada” (Skinner, 1953, p. 2006). A punição, como afirma o autor, no longo prazo traz “desvantagem tanto para o organismo punido quanto para a agência punidora” (p.199). Além de predisposições emocionais, Skinner cita predisposição para fugir, retrucar e ansiedades perturbadoras. Com base na afirmação de Matos (1982), a seguir, talvez seja possível acrescentar, na descrição de Skinner, mais um efeito da punição: a redução dos efeitos “agradáveis”dos reforçadores positivos.  Segundo Matos:

Embora eu possa planejar um mundo e uma série de opulências e riquezas a serem desfrutadas, embora eu possa planejar um novo sistema educacional relativamente perfeito, embora eu possa planejar até um homem novo e todo um esquema de interações pessoais, nada disso funcionará se eventos “desagradáveis” ocorrerem também… Se eventos desagradáveis ocorrerem nesse mundo, juntos com essas opulências e riquezas, ou após essa aprendizagem e desfruto, tudo seria como se esse fruto fosse amargo, como se a coisa aprendida não pudesse ser retida, como se a interação fosse um silêncio. (Matos, 1982, p.3)