Sobre a inacessibilidade ao saber científico

No prefácio da segunda edição americana de História da Filosofia, publicado, em português, em 1959 pela Companhia Editora Nacional (com tradução de Godofredo Rangel e Monteiro Lobato), Will Durant discute um tema bastante atual. Trata-se da excessiva especialização da ciência de modo que cada vez mais “sabe cada vez mais de cada vez menos”. Discute-se também a impossibilidade de comunicação, pela linguagem cada vez mais técnica, entre os próprios cientistas. Quanto mais com a comunidade leiga. Não concordo com todas as afirmações do autor. Mas para ser justo, temos de considerar que o livro foi publicado originalmente em 1924 como The Story of Philosophy: the Lives and Opinions of the Greater Philosophers. Uma edição revisada foi publicada em 1933.

Mas é certo que a ciência, para cumprir sua função social, não pode ficar restrita à comunicação entre pares. Não é possível que um cientista não possa conversar com outro ou com um cidadão leigo. E se for esse o caminho a ser seguido, cada vez mais a ciência precisará de intermediários, de comunicadores de ciência que deverão ajudar o cientista a falar com a sociedade de não-cientistas. Clique aqui para ler um artigo sobre a crescente inacessibilidade á ciência (The Growing Inaccessibility of Science).

Discordo especialmente da afirmação de Durant sobre história (penso que Hobsbawm também discordaria). Ainda assim o texto é primoroso para refletir sobre a interação ciência-sociedade.

Boa leitura!

Prefácio da segunda edição americana

I

Os conhecimentos humanos tornaram-se vastíssimos; cada ciência gerou uma dúzia de ciências novas; o telescópio revelou estrelas e sistemas que o homem não pode enumerar, nem denominar; a geologia passou de milhares de anos a milhões; a física encontrou no átomo todo um universo, e a biologia descobriu na célula um microcosmos; a fisiologia revelou mistério infinitos em cada órgão, e a psicologia, em cada sonho; a antropologia reconstituiu a insuspeitada antiguidade do homem; a arqueologia desenterrou ruínas de cidades; a história provou que todas história é falsa e esboçou uma tela onde unicamente um Spengler ou um Eduard Meyer podem ter visão de conjunto; a teologia desmoronou; os credos políticos esboroaram-se;  a invenção complicou a vida e a guerra; e as teorias econômicas derrubaram governos e inflamaram o mundo; a própria filosofia, que sempre recorreu a todas as ciências para dar uma imagem aceitável do mundo e uma atrativa concepção do Bem, verificou que sua tarefa coordenadora era maior que a sua coragem, fugiu de todos os “fronts” da verdade e ocultou-se em desvão abrigados, timidamente a seguro das responsabilidades da vida. O conhecimento humano tornou-se muito grande para a mente humana.

O que ficou foi o especialista científico que “conhece mais e mais a respeito de menos e menos”; e também o especulador filosófico que sabe menos e menos a respeito de mais e mais. O especialista armou-se de viseiras para restringir o campo de visão; some-se o mundo para que fique um pontinho só a esmiuçar. Perdeu-se a perspectiva. “Fatos” substituíram a compreensão; e o conhecimento, cindido em mil partes isoladas, não mais deu como resultado sabedoria. Cada ciência e cada ramo da filosofia geraram uma terminologia técnica apenas inteligível para os iniciados; quanto mais o homem aprendia sobre o mundo menos se achava apto a exprimir aos outros as coisas que tinha aprendido. O hiato entre a vida e o conhecimento foi-se alargando cada vez mais; os que governavam não podiam entender os que pensavam e os que queriam saber não podiam entender os que sabiam.  No meio duma erudição sem precedentes a ignorância popular florescia; ao lado das ciências entronizadas e financiadas como nunca foram, novas religiões vinham a furo e velhas superstições reconquistavam o terreno perdido.  O homem comum via-se forçado a escolher entre um sacerdócio científico que resmoneava ininteligível pessimismo e um sacerdócio teológico que acenava com esperanças incríveis.

Numa situação destas a função do mestre profissional fez-se clara. Tinha de ser o intermediário entre o especialista e o povo, tinha de aprender a linguagem do especialista, como este aprendia a linguagem da natureza, e desse modo romper as barreiras erguidas entre o conhecimento e a necessidade de aprender, descobrindo meios de expressar as novas verdades em termos velhos que toda gente entendesse. Isso porque se o conhecimento se desenvolve demais a ponto de perder o contato com o homem comum degenera em escolástica e na imposição do magister; o gênero humano encaminhar-se-ia para uma nova era de fé, adoração e distanciamento respeitoso dos novos sacerdotes; a civilização, que desejava erguer-se sobre uma larga disseminação da cultura, ficaria, precariamente baseada sobre uma erudição técnica, monopólio duma classe fechada e monasticamente separada do mundo pelo orgulho aristocrático da terminologia. Não admira, pois que todo o mundo aplaudisse quando James Harvey Robinson deu o brado para a remoção de todas estas barreiras e consequentemente humanização do conhecimento. (Durant, 1959, p.5)

Referência:

Durant, W. (1959). História da Filosofia – vida e ideias dos grandes filósofos.  São Paulo: Companhia Editora Nacional (10ª edição, trad. Godofredo Rangel e Monteiro Lobato).

Das especificidades do comportamento humano

Encontrar um livro publicado originalmente em 1938, cujo autor (Lancelot Hogben), estava interessado em popularização de ciência, já é um feito e tanto. E seus feitos não param por aqui. Em um subtítulo sobre aprendizagem, Hogben descreveu os experimentos de Pavlov. E terminou o subtítulo (p. 1078) assim:

“É possível que possamos descobrir como bebês aprendem a falar se primeiro descobrirmos como papagaios podem ser ensinados a falar. Mas não é seguro que descubramos. O que é certo é que não descobriremos como papagaios aprendem a falar perguntando a eles a respeito. E é menos provável que possamos aprender muito sobre como crianças aprendem a falar usando o mesmo método.”

Aqui, o trecho completo, no original (p.1078).

“How human behaviour depends on characteristics of human brain and sense organs such as those which have been outline in this chapter is the least important contribution of biology to a scientific study of human nature … human behaviour has many peculiarities which we cannot connect with any characteristics of behaviour in other animals or with anything we as yet know about the properties of the nervous systems. It may be more profitable to study how different characteristics of human behaviour are connected with one another than to study how they are connected with the process of nervous co-ordination. In that sense psychology is a study in its own right, and most psychologists are behaviourists psychologists nowadays. It is rather a pity that the word behaviourism has become identified with a school of psychologists who pay more attention to the common characteristics of animal and human behaviour than to the special characteristics which distinguish human behaviour from that of other creatures. It is possible that we might find out more about how babies learn to talk if we first discovered how parrots can be taught to talk; but it is not certain. What is certain is that we could not find out how parrots learn to talk by asking them; and it is at least likely that we shall not learn much about how children learn to talk by the same method.”

 

Referência:

Hogben. L. (1951). Science for the Citizen. London: George Allen & Unwin.

Bill Bryson ensina como escrever sobre ciência para leigos

Em A Short History of Nearly Everything Bill Bryson oferece bons exemplos de como tratar de temas científicos complexos de forma que um leigo entenda.

O autor abre o livro com a seguinte citação:

The physicist Leo Szilard once announced to his friend Hans Bethe
that he was thinking of keeping a diary: “I don’t intend to publish. I
am merely going to record the facts for the information of God.”
“Don’t you think God knows the facts?” Bethe asked.
“Yes,” said Szilard.
“He knows the facts, but He does not know this version of the facts.”

-Hans Christian von Baeyer,
Taming the Atom

E aqui, transcrevo trechos da introdução.

“Welcome. And congratulations. I am delighted that you could make it. Getting here wasn’t
easy, I know. In fact, I suspect it was a little tougher than you realize. To begin with, for you to be here now trillions of drifting atoms had somehow to assemble in an intricate and intriguingly obliging manner to create you. It’s an arrangement so
specialized and particular that it has never been tried before and will only exist this once. For the next many years (we hope) these tiny particles will uncomplainingly engage in all the billions of deft, cooperative efforts necessary to keep you intact and let you experience the supremely agreeable but generally underappreciated state known as existence.”

****

“Not only have you been lucky enough to be attached since time immemorial to a favored evolutionary line, but you have also been extremely-make that miraculously-fortunate in your personal ancestry. Consider the fact that for 3.8 billion years, a period of time older than the Earth’s mountains and rivers and oceans, every one of your forebears on both sides has been
attractive enough to find a mate, healthy enough to reproduce, and sufficiently blessed by fate and circumstances to live long enough to do so. Not one of your pertinent ancestors was squashed, devoured, drowned, starved, stranded, stuck fast, untimely wounded, or otherwise deflected from its life’s quest of delivering a tiny charge of genetic material to the right partner at the right moment in order to perpetuate the only possible sequence of hereditary combinations that could result-eventually, astoundingly, and all too briefly-in you.

This is a book about how it happened-in particular how we went from there being nothing at all to there being something, and then how a little of that something turned into us, and also some of what happened in between and since. That’s a great deal to cover, of course, which is why the book is called A Short History of Nearly Everything, even though it isn’t really. It couldn’t be. But with luck by the time we finish it will feel as if it is.”

Sobre a redação de relatórios de pesquisa

Compartilho aqui o texto A comunicação da pesquisa: redação do relatório/dissertação, de autoria da professora Maria Amalia Andery, da PUC-SP. Esse material costumava ser usado em disciplinas de Atividade de Pesquisa Supervisionada do Programa de Pós-graduação em Psicologia Experimental:Análise do comportamento da PUC-SP. As normas descritas pela professora Amalia referem-se, principalmente, a orientações do Manual de publicação da Associação Americana de Psicologia. Para obter mais informações sobre o estilo APA, clique aqui.

Transcrevo aqui o parágrafo inicial do referido texto, em que a professora deixa explícita a importância da redação do relatório de pesquisa. Segundo Andery (2005):

“A dissertação redigida é o equivalente de um relatório de pesquisa. Inicialmente, será o instrumento pelo qual seu trabalho de pesquisa será avaliado pela banca, na defesa. Depois da defesa – e isto freqüentemente é esquecido – será o relatório que,
depositado em biblioteca, servirá de fonte de referência para outros pesquisadores da área. É por meio de sua dissertação que seu trabalho de pesquisa é publicado – tornado público; é pela dissertação que o conhecimento produzido por você pode ser partilhado com outros membros da comunidade científica: sem este tipo de relato não seria possível acumular conhecimento. Por tudo isso é muito importante que se tome todo o cuidado na redação do relatório de pesquisa (dissertação); não se trata de simples purismo, de pura perda de tempo. Um texto mal organizado, pobremente redigido, sem informações suficientes, ou com demasiada informação irrelevante tornará difícil (ou até mesmo impedirá) duas coisas: que seu trabalho seja corretamente apreciado – louvado ou criticado – por aqueles que são seus pares na comunidade científica (e que deveriam ser seus interlocutores privilegiados, uma vez que se interessam pelo tema de sua dissertação) e que seu trabalho se torne, eventualmente, parte do processo de produção de conhecimento em ciência – porque é citado, replicado, estudado.”

Espero que façam bom proveito do material.

Dissertação e tese são produções coletivas

Transcrevo, a seguir, os ‘agradecimentos’ da Téia Sério, publicados em sua tese de doutorado (1990).

O primeiro ponto que me chamou atenção foi a forma cuidadosa que Téia escreveu uma seção que, usualmente, é tratada de forma bastante descuidada. Pelo menos é o que acho (eu deveria ter lido seus agradecimentos antes de escrever os meus). Mas Téia não era de fazer nada pela metade.

O segundo aspecto que gostaria de destacar refere-se à forma de a autora descrever o caráter do empreendimento: produzir dissertação ou tese, diz Teia do começo ao fim, é trabalho coletivo. E ela soube descrever, de forma sucinta, clara, elegante, quais foram as principais contribuições – ou os suportes com os quais contou – para produzir a própria tese.

Destaco, ainda, do texto de Téia, um terceiro aspecto – pensando agora nas pessoas que estão, no momento, escrevendo sua dissertação ou tese: são tantas pessoas envolvidas direta ou indiretamente (pessoas muito boas, diz Téia), que simplesmente só existe uma possibilidade: terminar o trabalho!

Enfim, até nos agradecimentos da própria tese, Téia deu uma aula sobre cuidados necessários com quaisquer tipos de manuscrito. Uma aula sobre o caráter coletivo da produção científica e mais importante: uma aula sobre como reconhecer o trabalho de outros – intelectual ou afetivo – em ‘nosso’ trabalho. Para ler o texto completo, clique aqui.

 

Alguns comentários sobre os agradecimentos

Tereza Maria de Azevedo Pires Sério

Em geral, leio com alguma curiosidade os agradecimentos que são feitos no início de trabalhos de mestrado e doutorado e, já há algum tempo, venho achando que aí se apresenta uma face desses trabalhos que, aparentemente, eles parecem dever ocultar: por mais que o trabalho leve uma assinatura, ele não é um trabalho realizado individualmente; a sua realização, por mais que pareça ou por mais que seja individual, exige suportes. Suportes que são trabalhos de outras pessoas e de vários ‘tipos’: são necessários suportes intelectuais, suportes materiais e suportes afetivos. A ‘quantidade’ de suportes e o peso de cada um ‘tipos’ envolvidos em cada trabalho pode até variar; mas os três estarão sempre presentes. Pelo menos, é o que acho.

E, se eu ainda não achasse isso, com certeza passaria a fazê-lo agora. Se nunca antes tivesse reconhecido o caráter coletivo, mesmo do trabalho considerado intelectual e mesmo daquele que aparenta ser o mais individualista, esta teria sido uma boa oportunidade para passar a reconhecê-lo. Por isto, não estou propriamente agradecendo, mas tentando publicar o coletivo bem concreto que possibilitou o meu trabalho; que é meu, leva minha assinatura, porque nesta divisão (a que se refere especificamente ao produto que materializa o ‘trabalho feito’) a mim coube (ou, eu pude e quis) fazer mais.

Eu acredito que a realização deste trabalho dependeu de duas decisões: tomar o behaviorismo como objeto mais geral de análise e analisá-lo de uma determinada maneira.

Mais que a vontade, a própria possibilidade de tomar o behaviorismo como objeto de análise dependeu da produção intelectual que assume o desafio de compreender o behaviorismo e as consequências que tal compreensão acarreta: as dúvidas, as divergências, a necessidade de estudar mais e, até, a possibilidade de ter de começar tudo de novo. Por isso, a primeira decisão só foi possível graças ao trabalho da Loira, Sergio e Ziza: mais tarde, mas já há bastante tempo, também ao trabalho de Amália. Roberto e Regina, meus novos (agora já não tanto) ‘colegas’, em nenhum momento me afastaram dela.

A segunda decisão dependeu, em grande parte, de uma determinada maneira de entender a produção de conhecimento científico: aprender ‘esta maneira’ exigiu muito estudo, muito esforço e, até, muita briga. Tudo isto foi feito junto com Amália, Bari, Denize, Dinha, Marcia, Mare, Melania, Monica e Nilza.

Tomadas as decisões, eu tinha de fazer o trabalho. Durante sua realização contei com duas interlocutoras especiais: com elas eu podia ‘testar’ minhas idéias, ouvir outras, trocar dúvidas. O produto final reflete, eu acho, algumas de suas contribuições. Só alguns exemplos: Loira é responsável por qualquer preocupação com o leitor, que eventualmente aparecer neste trabalho; além disso, foi ela quem nunca me deixou esquecer que um trabalho só vale se for publicado, se puder se discutido. Ziza, pela preocupação com a ênfase que ‘o’ behaviorismo atribui aos procedimentos e suas possíveis consequências e pela preocupação com o conceito de reforçador condicionado.

E contei, ainda, com uma interlocutora especialíssima. Era para ser um projeto conjunto, quando toda exigência formal estava no individual. Foi um trabalho conjunto e não diluiu o individual: ao contrário, eu diria que possibilitou expressão individual. A pesquisa aqui relatada, desde o levantamento bibliográfico inicial até a revisão e impressão finais, tem muito trabalho junto com Amália e tem muito trabalho de Amália para o ‘meu’ trabalho. Amália é responsável, também, por algumas das ‘minhas descobertas’: do papel do estímulo reforçador na definição de condicionamento, dos artigos sobre os cinquenta anos de B.of.B. e, é claro, do Shaping. Mas é também pela mais importante: que só se ‘descobre’ realmente um autor se não se sucumbir ao fascínio de suas ideias e nem ao fascínio das ideias da gente. E isto pode (talvez deva) ser feito com muita emoção. Talvez eu nunca tivesse iniciado este projeto sem ajuda da Amália; com certeza, eu não teria concluído o trabalho sem ela.

Com tudo isso, ainda teria sido muito mais difícil fazer este trabalho sem o carinho e a compreensão de Palma e José, meus pais. Sem o afeto e a torcida do Guto, Su, Mariana,  Melissa e Flávio. Sem a presença amiga do Dárcio.

E, finalmente, teria sido impossível fazê-lo se as minhas duas Anas, a Luiza e a Cristina, não tivessem suportado com bravura esses ‘tempos de tese’. E elas suportaram na medida das minhas necessidades. Cris, agora eu também já posso querer ser moça ‘quando’ ficar velha. Lu, agora você já sabe o porquê alguém faz uma tese? Vai ver que é porque tem tanta gente (e boa) envolvida que a gente não tem vontade nem coragem de desistir.

A minha parte do trabalho é para estas pessoas.

Alguns desafios para o estudo do comportamento verbal

Azrin, Holz, Ulrich e Goldiamond (1961/1973) replicaram um estudo realizado por Verplanck (1955), em que avaliaram a possibilidade de estudantes controlarem conversas casuais de outras pessoas por meio do reforçamento diferencial de certo tipo de opinião/afirmação e da extinção de todos os outros tipos de afirmação.

O estudo envolveu três experimentos, que foram aplicados em sala de aula. No primeiro experimento, 16 estudantes de pós-graduação foram especialmente preparados para aplicar o procedimento. A preparação incluiu o que os autores chamaram de instrução intensiva sobre condicionamento operante, seguida de uma verificação sobre os conhecimentos adquiridos pelos estudantes aceda do assunto ensinado. Os estudantes foram instruídos a ler o estudo de Verplanck (1955) e os conhecimentos deles sobre o referido estudo foram testados.

Metade dos estudantes conduziu um procedimento que consistia de 10 minutos de extinção, seguidos de 10 minutos de reforçamento, mais dez minutos de extinção. A outra metade aplicou procedimento reverso: reforçamento, extinção, reforçamento. Extinção foi caracterizada como o ouvinte (no caso, o estudante que estava no papel de experimentador) ficar em silêncio, ao passo que reforço foi definido como a concordância do ouvinte com as opiniões do participante.

De acordo com Azrin e cols., entre os estudantes que aplicaram o procedimento, 14 relataram maior frequência de opiniões durante o procedimento definido como reforçamento do que durante o procedimento de extinção (um “estudante-experimentador” não concluiu o experimento).  A frequência de outras afirmações, que não opiniões, não mudou muito (pp.187-188).

Os autores observam que nenhum dos estudantes que concluiu o experimento relatou dificuldades para aplicar o procedimento. No entanto, o estudante que desistiu da aplicação contou que achou difícil manter a conversação sem participar ativamente dela e também relatou ter achado difícil reconhecer opinião versus afirmação.

Apesar de os demais estudantes, em um primeiro momento, não relatarem semelhante dificuldade, em discussões posteriores um estudante contou que tinha gravado a aplicação do procedimento. Um segundo estudante analisou a gravação e admitiu ser difícil distinguir o período de reforçamento do de extinção. Os autores ficaram em dúvida se os estudantes tinham de fato se comportado perante seus ouvintes (os participantes) conforme determinava o procedimento: ou seja, ficar em silêncio na extinção e reforçar apenas as respostas-alvo.

No segundo experimento, o mesmo procedimento foi aplicado por estudantes universitários de outra sala de aula, sem que tivessem lido o estudo original ou fossem informados sobre a existência dele. Como no experimento anterior, os estudantes receberam instrução e tiveram seus conhecimentos sobre princípios de reforçamento operante testados. Os pesquisadores adotaram o mesmo procedimento do primeiro experimento, exceto pela extinção, que foi caracterizada como discordância, em vez de silêncio. De 12 estudantes que concluíram o estudo, 11 relataram que discordância produzia mais baixa frequência de opinião do que concordância. Novamente os estudantes não relataram dificuldade na aplicação do procedimento. Os autores estranharam o fato, porque apesar da aparente dificuldade em identificar afirmações e opiniões (relatada pelos estudantes do primeiro experimento) e de outras dificuldades referentes à aplicação do procedimento, todos os estudantes relataram que concordância com a opinião do falante produziu maior frequência do comportamento verbal dos participantes. Uma análise dos resultados desse estudo revelou aparente relação entre a compreensão dos princípios de reforçamento pelos estudantes e os resultados relatados por eles. (Estudantes com menor conhecimento sobre tais princípios geralmente relatavam menor efeito do reforçamento sobre as opiniões). Os autores supuseram que os estudantes ou não seguiram o procedimento apropriado ou não tinham expectativas seguras quanto aos resultados.

O terceiro experimento foi conduzido para testar a última hipótese. O procedimento foi aplicado por uma classe de estudantes universitários sem que eles tivessem lido o experimento original. Metade dos estudantes aplicou um procedimento que consistiu de dez minutos de reforçamento, seguidos de dez minutos de extinção e dez minutos de reforçamento.  A outra metade aplicou um procedimento de extinção-reforçamento-extinção. Reforçamento novamente foi definido como concordar com a opinião do outro e extinção, como manter-se em silêncio.

O experimento foi realizado durante e depois de os estudantes receberem instrução sobre princípios de reforçamento. O resultado foi semelhante ao dos experimentos anteriores: 44 de 47 estudantes relataram maior frequência de opinião durante as sessões de reforçamento (concordância com o falante) do que durante sessões de extinção.

Baseando-se nas discussões de Azrin e cols. pode-se inferir que os resultados desses três experimentos possivelmente tenham mais relação com o comportamento dos estudantes que aplicaram os procedimentos do que com o dos participantes – ou pelo menos tanto quanto. Tanto que os autores interpretaram seus resultados como indicativos da necessidade de se desenvolver mecanismos mais objetivos para o estudo do comportamento verbal. “Sem tal objetividade”, afirmam, “os resultados de estudos sobre condicionamento verbal podem refletir mais as expectativas e teorias do experimentador do que o comportamento dos participantes”.

Outro desafio importante para o estudo do comportamento verbal é o fato de ele poder se mantido sem que sejam produzidas consequências práticas. Por isso, como afirma Skinner (1957/1978): “pode libertar-se mais facilmente do controle de estímulos, porque por sua própria natureza não requer apoio ambiental: isto é, nenhum estímulo precisa estar presente para dirigi-lo ou formar importantes elos na cadeia de respostas” (pp. 68/47).

Some-se a isso, o fato de o comportamento verbal ser multideterminado. A noção da causalidade múltipla no comportamento permeia todo sistema explicativo da análise skinneriana. No que diz respeito ao comportamento verbal, embora Skinner trate dessa característica do comportamento desde o capítulo inicial de Verbal Behavior, dedicou um capítulo à parte para essa discussão, a qual Skinner resume assim:

Do nosso estudo sobre as relações funcionais do comportamento verbal emergem dois fatos: 1) a força [probabilidade] de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável; e 2) uma única variável costumar afetar mais de uma resposta. (Skinner, 1957/1978, p.273)

Referências

Azrin, N. H., Holz, W., Ulrich, R., e Goldiamond, I. (1973). The control of the content of conversation through reinforcement. Journal of Applied Behavior Analysis, 6, 186-192.

Skinner, B.F. (1978). O comportamento Verbal. São Paulo: Cultrix.

Skinner, B. F. (1957/1992). Verbal Behavior. Cambridge, Massachusetts: B. F. Skinner Foundation

Verplanck, W. S. (1955). The control of the content of conversation: reinforcement of statements of opinion. Journal of abnormal and Social Psychology, 55, 668-676.

Sugestões de leitura: “O Quê Você Deveria Saber Sobre o seu Mestrado e Doutorado”

Boas dicas para mestrandos e doutorandos

Ciência Prática

Uma das vantagens de manter este blog é que estamos sempre aprendendo. “Folheando” (digitalmente) o livro do Leo Monasterio para escrever um artigo, a Profa. Emico seguiu um link para o SlideShare.net e acabou encontrando esta apresentação, do Prof. Manoel Mendonça (Departamento de Ciência da Computação, Universidade Federal da Bahia):

“O Quê Você Deveria Saber Sobre o seu Mestrado e Doutorado”

A apresentação é interessante, pois resume vários pontos importantes sobre a realização do mestrado e do doutorado. Apesar do Prof. Mendonça dizer de início que o foco dele é na área de Ciência da Computação, muitas dicas se aplicam perfeitamente à Física. Provavelmente serão úteis aos leitores deste blog.

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