Precariedade dos contratos provisórios na educação superior

Do Higher education network, Academics Anonymous, Guardian

“Eu imploro por trabalho de semestre a semestre. Tenho de prestar atenção constantemente nas minhas palavras, ações e linguagem corporal para evitar um fim de carreira. Não estou autorizado a ficar com raiva, questionar decisões ou contra-argumentar. Tenho de continuar a dizer sim. É como é”. Leia texto completo no original, em inglês, aqui.

 

 

Sobre os desafios de ser mulher, mãe e doutoranda

Do Anonymous academic,Guardian

“Ano passado, após quatro anos,  finalmente conclui meu doutorado. Eu tinha 48 anos. Comecei a fazê-lo porque estava à procura de um desafio intelectual, enquanto criava  meus filhos em uma área remota. Sentia-me desconectada e minha pesquisa me deu um foco. Mas o impacto sobre a minha família, tanto financeiro quanto emocional, é algo que ainda estou tentando conciliar.

Minha pesquisa envolveu a análise de argumentos sobre a forma como entendemos nosso relacionamento com o resto da existência. Cheguei à conclusão de que, de fato, não dirigimos nossas próprias vidas. Somos uma mistura de condições e circunstâncias. E o mito de que somos livres para escolher é um truque ideológico para lidar com elogio e punição”. Leia o texto completo, em inglês, aqui.

Caridade para quem?

Para refletir sobre o sentido de caridade. Lembrar que se trata de uma relação que beneficia quem faz e quem recebe. Em alguns casos talvez beneficie mais o feitor.

As caridades odiosas

Clarice Lispector

Foi em uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchara na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura. Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos.

-Um doce, moça, compre um doce pra mim. Acordei finalmente. O que estivera pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido deste pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água. Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino. De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena, humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: que doce você…

Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelezinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.

-Que outro doce você quer? Perguntei ao menino escuro. Este, que mexendo as mãos e a boca ainda esperava com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade.

-Precisa sim, cortei eu ofegante, empurrando-o para a frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doce em cada mão, levantando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los. Mesmo os doces estavam tão acima do menino escuro. E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo:

-Afinal, uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas que passavam, mas ninguém quis dar.

Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De vergonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha. Mas, como se costuma dizer, o sol parecia brilhar com mais força. Eu tivera a oportunidade de… E para isso fora necessário um menino magro e escuro… E para isso fora necessário que outros não lhe tivessem dado um doce.

E as pessoas que tomavam sorvete? Agora, o que eu queria saber com autocrueldade era o seguinte: temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem? O fato é que, quando atravessei a rua, o que teria sido piedade já se estrangulara sob outros sentimentos. E, agora sozinha, meus pensamentos voltaram lentamente a ser os anteriores, só que inúteis.

Lispector, Clarice (1984). As Caridades odiosas. Em A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. P. 380-3.