Hipocrisias de Natal

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Uma prática bastante comum em dezembro que me incomoda: algumas pessoas passam o ano sem um cumprimento, sem esforço para um encontro, e de repente querem se confraternizar conosco; querem nos encontrar, a todo custo, antes do Natal. Para refletir sobre outras pequenas hipocrisias de Natal, transcrevo abaixo trechos do capítulo “23 de dezembro” do livro Lições de abismo, de Gustavo Corção, publicado em 1962 (edição especial, ilustrada por Oswald Goeldi).

Estamos em véspera de Natal. O movimento das ruas dobrou; triplicou. Os automóveis buzinam, imobilizados nas esquinas entupidas; as lojas regurgitam; os vendedores não têm mãos a medir; e as pessoas, os clientes, entram, saem, escolhem, regateiam, comprimem-se, acotovelam-se, mas sorriem, sim, sorriem – porque parece que todo o mundo está muito contente.

Todo o mundo, menos o velho Scrooge [personagem principal da história Conto de Natal, de Charles Dickens]. O amargo e triste usuário só pensa em si mesmo, e não lhe sobram ouvidos para as vozes cordiais que cruzam os ares com votos de Natal venturoso. Christmas! Merry, merry Christmas!

Todo o mundo parece alegre. Todo o mundo parece ter na alma hinos e luzes. Todo o mundo, menos o velho Scrooge, que vê com olho mau e oblíquo essa inconveniente profusão de gastos inúteis.

….

Mas será mesmo verdade, ó amável Dickens, que todo o mundo esteja contente? … Embora mesquinho, ele ao menos compreende uma coisa de capital importância: que é muito difícil dar. É a última coisa que se aprende; e é a primeira que se exige para um mundo habitável. E é por isso que eu vejo com melancolia essa procissão de equívocos embrulhados. Quem terá o coração tão duro que dê uma pedra ao filho que pediu um peixe? Mas a dificuldade se resolve desde que se embrulhe a pedra em papéis festivos … É isso que dói, e como dói! A alegria falsificada, a alegria que virou matéria plástica.

Não digo que seja impossível uma alegria verdadeira, uma alegria de criança, com um brinquedo truncado e pobre. Não. É claro que uma alegria de criança pode nascer à toa; é claro que um pedaço desconjuntado de celuloide pode fazer feliz uma criança; é claríssimo que que ainda não conseguiram secar, por mais que tentem, as fontes vivas da infância, as riquezas de um coração menino que com pouco se contenta. Não. Continuem assim, por séculos e séculos a enganar as crianças e os pobres. Sempre haverá pobres; sempre haverá crianças. Mas não é isso que me aflige. É também evidente que escolheram o dia do nascimento de Jesus para infligir uma festiva humilhação à pobreza. Basta pensar no Natal dos pobres. As ruas se enchem de miseráveis em filas nos portões dos palácios. Se chove, fica ainda mais perfeito o espetáculo. Mas não é isso, ó Dickens, que mais me dói.

O que me dói é a falsificação, é o espírito de praxe que preside as tristes festividades dos homens. É dia de dar. A folhinha marcou o dia de comprar presentes. A vizinha da direita comprou, a vizinha da esquerda comprou. É preciso comprar. É praxe. É uso. É costume. E todo o mundo fica contente de entrar na equação de um uso, de um costume. Da praxe.

Que Natal é esse que acentua as injustiças, que exasperas as paixões, que alarga os equívocos. Admitamos a festa da cidade, do país, do gênero humano. Admitamos a celebração de algum feito que a todos interesse. Admitamos que depois de amanhã o mundo se lembre da natividade do Salvador, que nasceu de uma Virgem, na gruta de Belém, porque não havia lugar para eles nas hospedarias.  Mas nesse caso, meu caro Dickens, eu exijo, em nome da mesma lógica que mata, que a alegria seja de uma outra ordem, e que não dependa assim, em primeira linha, dos cálculos e dos orçamentos. Há alegria e alegria; há graus de alegria; espécie de alegria: desde a cócega no pé da criança até a paz que nasce de uma concórdia perfeita…

Exijo uma outra alegria, apoiada sem dúvida nas coisas visíveis… porque os homens vivem de sinais visíveis. Mas apoiada de leve, como convém às coisas do puro amor. Não é assim que fazem as namoradas quando guardam pequeninas lembranças. Não seria melhor dar de presente pétalas de rosas, leve pétalas, levíssimas hóstias de amizade perfeita?

Chamou-me a atenção o diálogo travado à porta de uma casa de brinquedos. A dama de azul, majestosa e autoritária, discutia com o vendedor obsequioso, que já dava mostras de impaciência. Passando de uma para outro, ora nas mãos profissionais do vendedor, ora nas mãos finas e cheias de anéis da abastada freguesa, uma bonequinha preta de olho arregalado, e com uma cestinha de banana na cabeça, parecia alheia à discussão:

– É muito cara.

– Foi remarcada, madame. A senhora não encontrará uma boneca destas por menos de cem cruzeiros… Mas se a senhora quiser temos bonecas mais baratas. Qual é o seu orçamento, madame?

A dama de azul franziu ligeiramente os sobrolhos.

– É para uma menina pobre. A filha da empregada.

Ela não podia, evidentemente, marcar em cem cruzeiros o limite de “seu orçamento” como queria o desajeitado vendedor; assim, dizendo que era para uma menina pobre, explicava-se melhor. Não era para ela, para a filha dela, para a sobrinha dela, para alguma criança de sua espécie,  dela, de sua qualidade, de sua classe, de sua condição: era para a filha da criada.

O vendedor compreendeu logo que o problema se deslocava para um novo sistema de micro-unidades. Ninguém, evidentemente, mede em quilômetros o diâmetro de um glóbulo de sangue, nem mede em milímetros a distância de Sírius. Tudo tem suas dimensões, suas escalas adequadas, neste harmonioso universo.

Assista aqui Ebenezer SCROOGE 1970 – O Adorável Avarento.

 

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Uma autocrítica dramática de Mario de Andrade

Em dois posts anteriores, transcrevi uma carta de Mario de Andrade em que ele fazia uma crítica a um dos romances (Duas cartas no meu destino, Guaira, 1941) e ao estilo literário, em geral, de Sergio Milliet. Qualificou Milliet como time reserva do time principal. Depois de pensar melhor, arrependeu-se profundamente de ter usado essa expressão para descrever as qualidades literárias do amigo. É o que mostra uma carta enviada a Sergio Milliet depois. O leitor que teve acesso apenas à carta anterior, com as duras críticas a Milliet, terá acesso a um quadro incompleto sobre essa história. Por isso resolvi compartilhar aqui essa segunda carta. E também para mostrar a beleza que é alguém reconhecer que errou principalmente quando não precisava reconhecer (a essa altura ele havia recebido a resposta de Milliet, que aparentemente encarara a crítica numa boa). Nessa carta Mario de Andrade faz severas críticas ao próprio comportamento. Referindo-se a si mesmo diz preferir o Mario de Andrade do início do modernismo, dos anos 1920, “em que não tinha ainda em mim a excessiva presença de mim mesmo, e só via gênios em torno”.

Leia abaixo a referida carta que faz parte do livro Mário de Andrade por ele mesmo, de Paulo Duarte (Edart, 1971, pp. 312-314).

Rio, 14-XII-38

Sergio,

é com assanhamento de namorado que lhe escrevo. Acabo de receber sua carta agorinha mesmo, e fiquei satisfeito por ver que você soube compreender, perdoar e levar a bom termo do sorriso final da carta, a minha infelicíssima expressão de “reserva” que lhe atirei sem a menor delicadeza intelectual. E principalmente sem verdade. Mandei a carta, uma coisa principiou roncando dentro de mim e de-noitinha, quando dou meu passeio costumeiro depois do jantar, sozinho, pela praia, reparei que tinha falado uma besteira. Fiquei completamente desgraçado. Naquela segurança muito positiva de que você não era segundo time, quis especificar de que forma você era primeiro time, e abusando da comparação achei uma terminologia desgraçada que inda piorou mais a coisa, porque a tornou degradante. Principalmente me veio súbito no espírito a verificação danada. Segundo time não corta a vasa do sujeito passar pro primeiro e consequentes ascensões, mas ser reserva do primeiro é justamente deixar o indivíduo incapaz de ir no escrache prá Europa, é cortar a vasa, e negar  qualquer possibilidade de ascensão, porque já situa o sujeito num máximo. Mas num máximo subalterno. E então, com a clarividência da notinha mansa, principiaram aparecendo os argumentos mais perfeitos. Ora do que eu me servi para botar as pessoas no primeiro time? Simplesmente de um critério, que poderá ser bom, mas não pode nem deve ser o único: o fato de ter escrito obras marcantes. Mas começaram a surgir em massa no meu espírito, criadores positivamente de primeiríssimo time e que não são marcantes, como Charles Péquin e Segonzac na pintura atual, ao passo que um “marcante” como Van Dongen por exemplo, ou Zuloaga são reverendas inferioridades. Repare Mario Puccini e Palazeschi, primeiro time na literatura italiana atual, e bem menos marcantes que Martinetti, uma besta. Jules Romains é outro, bem menos marcante (em qualquer sentido desta palavra) do que o autor de Fermé la Nuit que não me lembro o nome [é Paul Morand]. Por outro lado, estou lendo nas frinchas do tempo, que o trabalho agora é enorme na reta final dos cursos, estou lendo os Ensaios. E vendo o efeito que estão tendo. Positivamente os seus estudos sobre Gilberto Freyre são luminosos, talvez o que de mais livremente contemplativo e crítico já se tenha escrito sobre ele o Rosário Fusco, sem intriga, acha os seus artigos paus, mornos. É sempre a tal história: ausência do marcante. Positivamente, você raro empolga, mas inferir d’aí que é ruim, é estupidez. Pau, não direi, mas há em você aquela mesma mornidão, aquela mesma identidade, aquela mesma igualdade de atitude, de calma, de equilíbrio, que a gente encontra na obra de um Jules Romains, ou de um Proust. Fatiga. Mas Proust, pelas mesmíssimas razões também me fatiga e jamais pude ler dele mais de 50 páginas em seguida. E os poetas ingleses, a meu ver os mais grandes líricos, os que eu prefiro, também me fatigam enormemente e leio em gotas. Mas o pior é a reação que estão causando os seus malfadados artigos sobre literatura nordestina em comparação com a paulista. Estão dando uma raiva no pessoal que você nem imagina. Outro dia encontrei o próprio Graciliano, que não é nenhuma criança em idade, e é calmo de espírito, e cá pra nós, é um gostoso de rebaixar os outros nordestinos, para poder ficar de cima, e tem uma visível inquietação diante de Jorge Amado e Lins do Rego, pois encontrei o próprio Graciliano num tal e tão abespinhado estado de raivinha contra você que me diverti foi muito.

Em tudo isto, Sergio, o que mais me inquieta sou eu mesmo. O que há de mais perfeito em mim, de mais digno de ser posto à mostra dos outros seres, meu Deus! Ando perfeitamente infeliz nas minhas expressões e atitudes, é o diabo? E começo a pensar. Até que ponto foi maldade não consciente a expressão estúpida que usei com você e que se não feriu foi mesmo por exclusiva superioridade sua? Mas em compensação outros amigos, se têm ultimamente ferido com expressões minhas. Mas não é só ultimamente, sempre. Tenho uma grosseria interior desgraçada. Se lembre que principiando por brincadeira e verdadeiro, sim, sincero interesse de amigo, a bancar o advogado do diabo contra o livro do Paulo Duarte, se lembre que chegou um momento naquela desgraçada noite da leitura do meu escrito, em que houve em toda a gente um verdadeiro malestar. Principalmente em mim. É que eu tinha desenvolvido uma faculdade tão diabólica de ferir e atacar, que a coisas estava, sob aspeto de brincadeira, ferindo de verdade. Teve um momento em que senti o Paulo perfeitamente antagonista, a voz dele vibrou daquele jeito cortante e ácido que toma quando ele está nas grandes ocasiões de antagonismo. Até hoje me maldigo do que fiz. Deve haver em mim, inadvertido até agora, mas de agora em diante imperdoável, um enorme despeito, uma visão muito grave de inferioridade pessoal, que me leva a essas diabólicas “vinganças” contra mesmo aqueles que incontestavelmente mais estimo, mais quero bem. E esta inferioridade eu não quero ter.

Este ano, bem entendido, as coisas se justificam mais. Sofri e sofro por demais ainda. Agora então, a possibilidade de ida de meu irmão também, em exílio, para a Europa, coisa de que fomos secretamente avisados, coisa que virá, se acontecer, desnortear moral e financeira completamente a família, você imagine como tenho vivido sobre brasas. Não gasto um tostão, não compro uma laranja para me alimentar, sem lembrar dele, e que o terei de sustentar na Europa. O resultado mais curioso de tanto sofrimento íntimo, é o estado de negativismo em que estou. Sempre fui um otimista. Mas agora, já na aula inaugural demonstrara vago o meu negativismo, sem querer, subrepticiamente, o que me movia em meus cursos era uma verdadeira intenção de solapar intelectualmente meus alunos. Na intenção maldosa, cheguei mesmo a dar aulas brilhantes, os alunos ficavam presos, todos ficaram meus amigos, todos me querem muito bem, mas, como me disse uma das minhas alunas mais inteligentes, “minhas aulas faziam mal”, havia momentos em que ela tinha um verdadeiro malestar (sic). Só então entrei em mim, e isto fazem apenas três aulas, e mudei de rumo, porque no fundo do fundo sou bom. Abandonei a ironia, abandonei o sarcasmo com que às vezes durante quinze minutos afirmava e definitivamente provava uma afirmativa, pra depois de um golpe, destruí-la, abandonei a impassibilidade de não dar opinião, e foi um esplendor. Tenho outra aluna, que dizem meio amalucada, pelo jeito abrupto dela, filha do Macedo Soares, jornalista, senti por ela o que estou agora causando de útil. Estava um grupo conversando de alunas, as telas por ali, comentando as aulas novas, passei, ela me puxou pelo braço, levou pro meio delas e “Estávamos comentando suas aulas. Estas últimas estão, estiveram desacatantes”. E o riso de simpatia de todas concordava. Sou por demais sensível e apaixonado. Vem brisa e me modifica todinho. Isto não é ser professor, nem é ser nada. Só me gosto mesmo, é naqueles primeiros tempos de modernismo, até 25 talvez, em que não tinha ainda em mim a excessiva presença de mim mesmo, e só via gênios em torno. É possível que eu estivesse errado então, mas tinha comigo o que me parece mais sublime no espírito, a generosidade.

Bom, desculpe estas confidências. Desculpe tudo e publique o seu livro. Se quiser pensar um bocado mais sobre ele, retocá-lo mais, contra isso não serei, porque retocar sempre é possível. Mas publique que é muito bom.

***

Uma crítica de Mario de Andrade

No post anterior,  Mais vale uma crítica de Mario de Andrade que mil elogios, transcrevi a primeira parte de uma carta de Mario de Andrade a Sergio Milliet em que Mario faz comentários gerais acerca do estilo literário de Milliet (ver Mario de Andrade por ele mesmo, de Paulo Duarte, Edart, 1971, pp. 306-312). Na segunda parte da referida carta, Mario de Andrade faz comentários específicos indicando páginas onde ele encontrou problemas e sugerindo encaminhamentos para esses problemas. Compartilho aqui porque novamente acho que é um modelo de uma leitura cuidadosa e comprometida em tornar melhor o trabalho do amigo. Restringi-me a transcrever trechos relacionados com a obra de Milliet. Lembremos que se tratava de correspondência de 1938, que ficaria só entre os dois, que veio a público depois da morte de ambos os escritores. Aparentemente Mario de Andrade ficou inicialmente sob controle da forma e à medida que sua leitura prosseguia a história em si foi assumindo maior controle. Minha interpretação se baseia no fato de ele só inicialmente notar  problemas como ele mencionou. É pouco provável que não houvesse problema do gênero ao longo do texto. O controle d narrativa superou o da forma.

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Diz Mario de Andrade:

Tomei a liberdade de ir corrigindo no correr da leitura os erros notórios de datilografia. Agora passo em revista as poucas notas que tomei e que preciso consultar você sobre:

  1. 1 – “Hoje em dia as cenas todas se recortam nitidamente em minha memória. Com um relevo que me parece até SENTIR dentro da cabeça.” – Não me parece que seja o momento de aplicar o “hoje em dia” que neste caso me parece um galicismo inútil. Você quer exatamente dizer que agora, atualmente, “hoje” as cenas etc. Há uma subtileza de sentido no “hoje em dia” em nossa língua, pela qual a atualidade a que ele corresponde significa “época”, a “atualidade”. “Hoje em dia” abrange pois uma quantidade qualificativa de tempo, que não implica apenas o passar do tempo, (no seu caso o descororamento fatal com que os fatos se enfraquecem em nossa memória) mas uma transformação radical de caráter de uma face para outra. “Em criança eu chorava diante da morte, hoje em dia ela apenas me faz sorrir”. “No romantismo os homens é que defloravam as mulheres, mas hoje em dia elas é que defloram os homens”. “Você não imagina como eu sofri com isso ontem, mas hoje estou mais consolado”. “Há dois anos que busco uma consolação, mas hoje desisti de quaisquer consolo”. Na segunda frase citada, você põe “sentir” onde eu escreveria “sentí-lo”, o relevo. Fica mais claro, de maior facilidade de compreensão imediata. Consulte o Leo que sabe muito mais destas coisas que eu.
  2. 2 – “Ninguém milhor DO que ela pra colocar ventosas. E a vaidade de LHE ouvir elogiarem os predicados…” Eu evitaria o “do” que me parece inútil pro rítmo da frase. E na segunda frase mudava o “lhe” de posição. “E a vaidade de ouvir lhe elogiarem os predicados compensava-lhe as noites passadas em claro”.
  3. 5 – “Você compreende QUANTO essa exibição involuntária da doente querida a estranhos comporta de diminuição, de humilhação, é A PALAVRA, para o amante”. Eu poria “você compreende O quanto essa exibição etc. E não consigo entender o que é “a palavra”, do fim da frase.
  4. 12 – “As confidências tinham aproximado-nos mais”. Positivamente não. Ou “as confidências nos tinham aproximado mais” à portuguesa, ou “as confidências tinham nos aproximado mais” à brasileira.
  5. 16 – “Como eu sinto, longe de SI, esse seu drama”. É “longe de você” que se deverá dizer em boa linguagem.
  6. 17 – Numa das vezes em que você persegue ou imagina perseguir a amazona, você comenta: “O segundo de indecisão que me reteve foi bastante para não descobri-la de novo. Podia ter tomado um bonde, entrado nalgum ARMAZEM”. Você não acha que há uma tal ou qual impropriedade em fazer uma “amazona” a quem se persegue liricamente, entrar num armazém? Fica pau, assim. A não ser que se queira tirar justo um efeito de contraste (e não é o caso), há que ter sempre em conta a gradação de valor lírico das palavras. Porque entrar num armazém, e não numa loja, numa casa de modas, numa casa de chá? ou “entrando em qualquer parte”. Também na primeira frase do citado percebo agora uma leve impropriedade, preferiria “foi bastante pra que eu não a descobrisse de novo”.
  7. 17 – “Desde sempre se lamentam sobre o número dois aqueles que SABEM, meu Deus, dentre os teus filhos”. ´É exatamente assim esse verso de Werfel?
  8. 22 – “Quis beijá-la e ela virou o rosto de modo a entregar-me a fronte descoberta”. É a “fronte” ou a “nunca” que você quer dizer?
  9. 28 – A última frase do cap X acaba textualmente assim; “Mas era uma luta desigual essa em que todas as armas da outra só podia opor seu encanto sexual, sua fatalidade, seu “E fica nisso, arre, que até é pornografia, mas da grossa!” “Seu” o que?
  10. 74 – “…em tudo isso eu só vejo, só sinto, só penso em Ana Maria”. Há exemplos, ou milhor cochilos desses nos maiores clássicos, mas não será preferível escrever bem certinhamente: “Em tudo isso eu só vejo, só sinto Ana Maria, só penso nela”. Ou, com coragem mais brasileira: “em tudo isso eu só vejo, só sinto, só imagino Ana Maria”.

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Mais vele uma crítica de Mario de Andrade que mil elogios

Quem nunca se incomodou em alguma medida com crítica de um professor, amigo, revisor sobre o próprio manuscrito? Da minha parte, prefiro a crítica sincera, por mais dura que seja, que o aplauso vazio, descomprometido, que nada acrescenta para a melhoria do texto. Elogios cegam; críticas honestas ampliam o olhar do autor. O que um escritor precisa, sobretudo dos leitores de suas versões iniciais, são olhares ampliados que o ajudem a enxergar problemas no próprio trabalho antes que seja publicado. Acredito que mais vale uma crítica sincera que mil aplausos vazios.

Para exemplificar uma crítica bem feita, embora dura, áspera – pelo menos é essa a sensação que temos ao iniciar a leitura, mas que vai se modificando à medida que avançamos no texto – sugiro a leitura desta crítica de Mario de Andrade a um romance de Sergio Milliet (Duas cartas no meu destino, Guaira, 1941). A crítica  deu-se em carta enviada a Milliet em novembro de 1938 e faz parte do livro Mário de Andrade por ele mesmo, de Paulo Duarte (Edart, 1971, pp. 306-312)[1].

Dentro do possível, procurei preservar a forma de escrita original de Mario de Andrade, que estava em conformidade com as regras gramaticais da época. Mas nos casos em que o corretor do Word modificou automaticamente acentuação das palavras não alterei. Vou compartilhar a crítica de Mario de Andrade em dois posts: neste primeiro post transcrevo comentários gerais dele sobre a obra em questão, sua interpretação sobre o estilo de Milliet, enfim, uma aula do grande escritor sobre arte. No segundo post transcreverei comentários de Mario de Andrade sobre partes específicas do texto, que ele generosamente classificou como erros de datilografia. Segue a primeira parte da Carta-crítica de Mario de Andrade.:

Rio, 3-XI-38

Olha Sérgio, não sei se já falei, quando foi do seu outro romance que você me deu para opinar, antes da publicação, não sei se já lhe falei com toda a asperidade de amigo, o que penso da literatura de você. E sempre me fica um remorso de não ser inteiramente amigo, como gosto. Aqui vai minha opinião com o máximo de brutalidade, que o comentário em seguida, igualmente sincero, adornará de maior perfeição.

Você é exatamente o tipo do que, em esporte, a gente chama de reserva do primeiro time. Um tempo andei pensando que você era elemento do segundo time, ótimo, mas no segundo time, porém, depois pensei milhor, com mais frieza de exatidão, mesmo porque sentia vagamente que pensar você segundo time era injustiça. E era mesmo, sem que nessa minha mudança, ou milhor, concerto de opinião, entre a mínima parcela do afeto de amizade que é muito grande, nem a enorme admiração que tenho pelos seus dotes de trabalho, de poder de organizar e dirigir as coisas. Não, você positivamente não é segundo time, você está no primeiro. Mas como reserva.

Quero dizer: há em você uma estranha incapacidade pra criar a coisa marcante, a coisa que, mesmo quando não abre caminho, faz prosélitos. Isto não quer dizer que você seja, um originalíssimo, um inaferrável, enfim uma espécie de “fauve” solitário. Não, você não é nada disso e está bem dentro da nossa corrente geral de literatura. Mas há uma incapacidade qualquer em você pra, ou pelo tratamento do material, ou pela invenção dos assuntos, ser o que, como material, é por exemplo um Machado de Assis, ou, como temática, é um Raul Popéia ou Lins do Rego. A palavra mesmo bem fiel que exprime o que eu penso é “marcação”: você não marca, você não faz obras marcantes. Está claro que “marcar” de forma alguma implica sempre maior perfeição. Pelo contrário, no geral os Shakespeare, os Da Vinci, os Beethoven de todas as artes, são muito mais imperfeitos que… as reservas. É muito raro, e quase sempre francês…, a gente encontrar obra que seja marcante e ao mesmo tempo exemplo de perfeição, como La Fontaine, Racine, Cézanne, (e assim mesmo…) Bach.

O que é uma reserva de primeiro time? Não é um Leonidas, um Friedenreich marcantíssimos, mas irregulares, e que lá vem sempre um dia em que jogam mal, e não jogam nunca sem fazer alguma besteira. O reserva é o jogador excelente e que em qualquer circunstância, com chuva ou sol nos olhos, campo pesado ou juiz gatuno, joga sempre muito bem; não há como ele pra substituir na certa os potros demasiados sensíveis. E porisso irregulares.

Aquele dia que disse ir começar a leitura do seu livro, circunstâncias, que não vêm ao caso, me impediram de fazer o prometido. Foi apenas um início de leitura que não mais retornei por excesso de preocupações nestes dias em que estou estudando essa desnorteante Renascença pros meus alunos. Mas hoje, sábado, principiei de-manhã a leitura, repeguei o livro depois de uma pequena ida ao meu Instituto e não pude parar mais, são quinze e meia e acabei de ler. O livro é ótimo. Uma prova que me empolgou está nas notas que tomei. No princípio com muita atenção, pgs. 1, 2,5, 12, 16, 17, 22, depois já não achei nada e até a página 28, e então foi a corrida final, só na página 74 me lembrei de novo de analisar o escrito.

Gostei muito dos dois personagens femininos, apesar de menos analisados que o Fernando, estão muito palpáveis, muito explicáveis, muito humanos. Ah, não será por ventura do tom autobiográfico dos seus livros, da analise antiartísticamente muito sincera que você faz dum Roberto [publicado em 1935] ou dum Fernando, justamente a tal ou qual mornidão, a como que espécie de falta de realidade, ou pelo menos de vigor do real, destes seus personagens masculinos? Você decerto conhece a anedota francesa do escritor realista, não me lembro se  Maupassant, que copiou num romance, nem tirar nem por, um diálogo escutado, diálogo este que foi justamente censurado pela crítica por falta de realidade. Da mesma forma que o Roberto, o seu Fernando chega a ser virulentamente autobiográfico e nesse sentido o livro tem um sabor de intriga de que muita gente vai se aproveitar pra comentários discretamente sussurrados entre movimentos de comiseração de cabeça, é pau isso. Não me importo, Sergio, nem estou perguntando, se se trata ou não de autobiografia; mas há incontestável um sabor de autobiografia danado. Ora essa transcrição de si mesmo leva sempre a um tal ou qual cinzentismo, a uma desvigoração natural em arte, que, mesmo quando está fazendo análise, está fazendo uma síntese. Por exemplo: dois caracteres marcantes do Fernando deste livro são o egoísmo e a abulia. Se trata positivamente, no livro, de um indivíduo muito sem vontade, ou milhor, sem a coragem das próprias vontades. O dualismo do Roberto se acentua neste livro de agora, num caso muito mais grave: o da legalização sacral do casamento, a que até os comunistas de alguma forma voltaram. Fernando se desespera abulicamente entre o burguesinho e o lírico que traz em si. Mas a luta não chega a um esplendor de psicologia. Há abulia mas esta não vem sintetizada em frases essenciais. Há egoísmo, você chega a pronunciar esta palavra, mas a natural contemplatividade  com que todos nós nos observamos complacentemente em nossas vidas, não permite a você salientar com vigor o que há de odioso no egoísmo. Há cinismo, palavra que você mesmo pronuncia, mas você também aqui não salienta a indecência do cinismo de natureza psicológica. Mesmo porque, meu Deus! êle não é de-fato indecente na psicologia de cada um, é apenas, em cada um, a mesma fatalidade da unha que a gente corta mas torna a crescer e carece cortar outra vez. Agora: o livro reverte sempre a um universal, a obra-de-arte é sempre uma síntese nesse sentido. E é neste sentido, que a obra-de-arte mais imoral, mais porca, mais indecente, é sempre moral, é sempre limpa, é sempre decente. A contradição intrínseca que me parece peculiar aos seus romances, e enfraquece o vigor dos personagens principais deles, é essa. Na análise dos outros seres, porisso mesmo eles não são você, você os sintetiza com maior vigor de realidade universal, ao passo que nos seus personagens masculinos principais, você nunca os universaliza suficientemente pra que fiquem no primeiro plano necessário. Talvez haja um bocado de masoquismo na odiosidade que você deu a Fernando mas Fernando não chega a ser vigorosamente odioso pra que a gente tenha vontade de matar ele. Não se chega a tomar partido por esplendor, isto é, por sensação estética. Só tomará partido moralista que, depois de lido o livro, ou no entremeio das leituras, pra refletir sobre morais, e então verifica dogmaticamente: que canalhinha, puxa! devemos isolá-lo da SUCIEDADE! – Agora: suponhamos que você não queira dar ao seu personagem essa dominante de ruindade, mas apenas de abulia digna de comiseração. Era então a luta entre o anjo e o demônio, a incapacidade de domínio sobre um destes que você tinha de focalizar com mais luz no seu Fernando. Não terá você querido ser sincero com a vida , em vez de o ser com a arte, que é o que você está fazendo?…

Bem, mas êste tal ou qual cinzentismo do personagem principal não impede absolutamente que ele viva no livro, está claro. E viva bem. O livro está impregnante, e você soube muito bem dosar o interesse e equilíbrio das partes, apenas de leve acenando pra alguma coisa extraordinária que vai suceder e que a gente fica esperando sem impaciência. Quando vem a anedota, a positivamente anedota do fim, é uma delícia. Depois, a gente pensando, fica com um pouco de raiva da anedota, pelo lado moralista que ela tem sem querer. Parece mesmo um castigo pro Fernando, em que a gente não pode pensar sem sorrir satisfeito. Esse safado estava gozado duas mulheres interessantes, bem feito. Mas o fato é que a anedota chega no ponto e é absolutamente inesperada.

Assim: penso que absolutamente você não deve duvidar do valor do seu livro, ele é excelente por muitas razões; e o senão, não conceptivo, mas de realização que apontei não é em nada tão grosso que impeça o valor do livro. Que deve ser publicado. Tem maior unidade que o Roberto. Ia dizer que este é mais divertido em sua maior variedade de situações, mas nem isso posso dizer por mim, pois que este me empolgou.

[1] Exemplar autografado por Paulo Duarte a Nogueira Martinho, como podemos ver na imagem abaixo.IMG_5235 (1)

Lógica, ciência e comportamento verbal

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Skinner dedicou um capítulo do livro Verbal Behavior (Skinner, 1957) à análise do comportamento verbal lógico e científico (leia aqui alguns comentários sobre a definição skinneriana de comportamento verbal). Inicialmente, diferenciou comportamento literário de outros comportamentos que dizem respeito a ações práticas do ouvinte, entre os quais o comportamento verbal científico. Nota Skinner que, ao contrário do comportamento literário, cujo efeito, grosso modo, é entreter o ouvinte, o comportamento científico (e seus produtos) constitui parte do ambiente que ampliará o âmbito de ação do ouvinte. Para isso, é necessário que seja preservado o controle de estímulo sob o qual dado fenômeno, estado, objeto é descrito.

Para Skinner, a comunidade verbal científica estabelece contingências para: (1) fortalecer o controle de estímulo verbal e não verbal que orientará a identificação e caracterização de dado objeto ou fenômeno; (2) estabelece regras para a construção de novas respostas verbais. A questão pode ser formulada assim: como um pesquisador, conhecendo a produção científica de dada área, pode vir a contribuir com corpo de conhecimento produzido? Ou, nos termos de Skinner, como se constrói um novo comportamento verbal sobre um objeto ou fenômeno?

Como estratégias adotadas pela comunidade para modelar o controle de estímulo verbal e não verbal sobre o lógico e o cientista, Skinner cita a criação de sistemas classificatórios, restrições ao uso de comportamentos intraverbais (comportamento verbal sobre comportamento verbal), adoção de autoclíticos apropriados com os quais o falante representa a natureza do controle do próprio comportamento, seja com relação a estímulos antecedentes seja com relação a cadeias intraverbais. “O comportamento mantido por essa comunidade difere dos instrumentos usados para mantê-lo, assim como um discurso eficiente difere das regras para um discurso eficiente”, diz Skinner (pp. 418-419).

Na segunda parte do capítulo, Skinner analisa procedimentos empregados para a construção de novas respostas verbais. A comunidade lógica e científica, diz ele, “acumulou lentamente um conjunto de técnicas para a construção de comportamento verbal eficaz. O falante move-se de um conjunto de respostas para outro conjunto, possivelmente mais útil” (p. 422). O procedimento envolve a manipulação e confirmação de respostas verbais; pesquisa e metodologia científica; avaliação da resposta verbal. O cientista manipula a própria resposta verbal, segundo Skinner, pela substituição de termos (para outros mais precisos, mais apropriados, por exemplo) e com autoclíticos específicos (leia aqui sobre processos autoclíticos).

Depois de construída – e confirmada – nova resposta verbal, o produto do comportamento verbal do cientista é avaliado pela comunidade. Aqui, novamente, Skinner enfatiza a orientação para questões práticas: “Uma parte importante da prática científica é avaliar a probabilidade de que uma resposta verbal seja ‘certa’ ou ‘verdadeira’ – que se possa agir sobre ela de forma bem-sucedida” (p.428).

Skinner volta a salientar a noção de que o comportamento verbal científico deve ser dirigido para ações práticas ao introduzir a discussão sobre metodologia científica (inicialmente para problemas científicos específicos, e, finalmente para aplicação do conhecimento científico). Segundo o autor:

“O comportamento verbal lógico e científico difere do comportamento verbal do leigo (e particularmente do comportamento literário) pela ênfase nas consequências práticas… O teste de predição científica é, frequentemente, como a palavra indica, uma confirmação verbal. Mas o comportamento do lógico e do cientista leva, em fim, a uma ação não verbal eficaz, e é aqui que precisamos encontrar as últimas contingências de reforço que mantêm a comunidade verbal lógica e científica” [grifo acrescentado] (p.429).

Em síntese, para Skinner, a comunidade verbal estabelece contingências (ou deveria fazê-lo) para orientar o comportamento do cientista de forma que o produto final desse comportamento possa servir à ciência e a sociedade – e não ao cientista ou grupos particulares.  Parece supor que os métodos adotados pela comunidade verbal científica, e a modelagem do cientista na relação com o próprio objeto de estudo, são poderosos (ou deveriam se tornar) o suficiente para reduzir ou eliminar um aspecto característico do comportamento verbal: a causação múltipla, tema com o qual Skinner inicia a segunda parte do livro sintetizando assim:

“Do nosso estudo sobre as relações funcionais do comportamento verbal emergem dois fatos: 1) a força de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável e 2) uma única variável costuma afetar mais de uma resposta”, (p. 227).

Aparentemente, a ênfase skinneriana sobre as consequências práticas do comportamento científico para o ouvinte – e finalmente para ações não verbais – essas últimas consequências muito distantes do cientista no momento em que manipula o ambiente ao redor para produzir ‘novo comportamento verbal – parece desconsiderar uma das características definidoras do comportamento verbal: a mediação do reforço, ou as consequências mantenedoras do comportamento, que dependem de outro ouvinte. Mas ao se aproximar do fim da referida análise, Skinner destaca que a comunidade científica tem de levar em conta a natureza do comportamento verbal. Conclui defendendo que processos verbais lógicos e científicos “merecem e exigem uma análise mais precisa do que a que tem recebido até então” (p. 431). E esta, diz Skinner, pode ser uma das principais contribuições da ciência do comportamento verbal: o desenvolvimento de “uma lógica empírica, ou uma epistemologia científica descritiva e analítica, cujos termos e práticas serão adaptados ao comportamento humano como próprio objeto” (p. 431).

Assim, podemos tomar a análise de Skinner sobre o comportamento verbal lógico e científico apresentada em Verbal Behavior mais como prescrição do que como descrição de uma prática bem-sucedida. Leia aqui o livro Verbal Bahavior.

Referência: Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior.New York: Appleton-Century-Crofts.

 

Solidão como problema de saúde pública

Indico aqui esta matéria, Loneliness Epidemic Growing into Biggest Threat to Public Health, de Janice Wood, descrevendo pesquisas indicando que solidão e isolamento social podem se tornar um problema de saúde pública maior que obesidade. Nos EUA, afeta mais de 42 milhões de pessoas acima de 45 anos. Para enfrentar o problema, a professora de Psicologia Julianne Holt-Lunstad (Brigham Young University), especialista no tema, ouvida para a matéria, sugere ampliar esforços para pesquisa e também para intervenções, tais como:

  • Oferecer treinamento de habilidades sociais para crianças nas escolas.
  • Incluir conexões sociais em prescrições médicas de pessoas que sofrem do problema.
  • Preparar estratégias para lidar com a redução de contatos sociais, típica após a aposentadoria.
  • Dispor espaços comunitários compartilhados para estimular interação e recreação.

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As paixões de Bertrand Russell

Bertie

A autobiografia do matemático e filósofo Bertrand Russell (1872-1970), publicada originalmente em 1967, compõe-se de três volumes. No Prólogo do primeiro volume, Russell descreve três grandes norteadores da própria vida: amor, conhecimento e compaixão. É espantoso que tenham se passado 50 anos desde a publicação da autobiografia de Bertie e os males que causavam compaixão ao filósofo continuam a assombrar a humanidade.

Diz Russell:

TRÊS PAIXÕES, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram minha vida: o anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa compaixão pelo sofrimento da humanidade.  Essas paixões, como grandes vendavais, empurram-me para aqui e acolá, em curso instável, sobre um oceano profundo de angústia, chegando às raias do desespero.

Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase – êxtase tão grande que, não raro, eu teria sacrificado todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Procurei-o, ainda, porque o amor nos liberta da solidão – essa solidão terrível pela qual nossa trêmula consciência observa, além dos limites do mundo, esse abismo frio e desalentador. Busquei-o, finalmente, porque vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que os santos e os poetas imaginavam do céu. Eis o que busquei e, embora isso possa parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que – afinal – encontrei.

Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração dos homens. Gostaria de saber por que cintilam as estrelas. E procurei apreender a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos acontecimentos. Um pouco disso, mas não muito, eu o consegui.  Amor e conhecimento, até ao ponto em que são possíveis, conduzem para o alto, rumo ao céu. Mas a compaixão [Russell usou o termo pity, que preferi traduzir para compaixão, que acho mais preciso para um defensor da liberdade e militante da igualdade social, como ele foi] como sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de dor ecoavam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desvalidos transformados em fardo para seus filhos, e todo o mundo de solidão, pobreza e sofrimento, convertem em escárnio o que deveria ser vida humana. Anseio por aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.

Essa tem sido a minha vida. Achei que valeu a pena viver e, de bom grado, tornaria a vivê-la, se tivesse a oportunidade de fazê-lo.

Russell, B. (1967). The autobiography of Bertrand Russell – 1872-1914 – London: George Allen and Unwin (p. 13).