Uma crítica de Mario de Andrade

No post anterior,  Mais vale uma crítica de Mario de Andrade que mil elogios, transcrevi a primeira parte de uma carta de Mario de Andrade a Sergio Milliet em que Mario faz comentários gerais acerca do estilo literário de Milliet (ver Mario de Andrade por ele mesmo, de Paulo Duarte, Edart, 1971, pp. 306-312). Na segunda parte da referida carta, Mario de Andrade faz comentários específicos indicando páginas onde ele encontrou problemas e sugerindo encaminhamentos para esses problemas. Compartilho aqui porque novamente acho que é um modelo de uma leitura cuidadosa e comprometida em tornar melhor o trabalho do amigo. Restringi-me a transcrever trechos relacionados com a obra de Milliet. Lembremos que se tratava de correspondência de 1938, que ficaria só entre os dois, que veio a público depois da morte de ambos os escritores. Aparentemente Mario de Andrade ficou inicialmente sob controle da forma e à medida que sua leitura prosseguia a história em si foi assumindo maior controle. Minha interpretação se baseia no fato de ele só inicialmente notar  problemas como ele mencionou. É pouco provável que não houvesse problema do gênero ao longo do texto. O controle d narrativa superou o da forma.

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Diz Mario de Andrade:

Tomei a liberdade de ir corrigindo no correr da leitura os erros notórios de datilografia. Agora passo em revista as poucas notas que tomei e que preciso consultar você sobre:

  1. 1 – “Hoje em dia as cenas todas se recortam nitidamente em minha memória. Com um relevo que me parece até SENTIR dentro da cabeça.” – Não me parece que seja o momento de aplicar o “hoje em dia” que neste caso me parece um galicismo inútil. Você quer exatamente dizer que agora, atualmente, “hoje” as cenas etc. Há uma subtileza de sentido no “hoje em dia” em nossa língua, pela qual a atualidade a que ele corresponde significa “época”, a “atualidade”. “Hoje em dia” abrange pois uma quantidade qualificativa de tempo, que não implica apenas o passar do tempo, (no seu caso o descororamento fatal com que os fatos se enfraquecem em nossa memória) mas uma transformação radical de caráter de uma face para outra. “Em criança eu chorava diante da morte, hoje em dia ela apenas me faz sorrir”. “No romantismo os homens é que defloravam as mulheres, mas hoje em dia elas é que defloram os homens”. “Você não imagina como eu sofri com isso ontem, mas hoje estou mais consolado”. “Há dois anos que busco uma consolação, mas hoje desisti de quaisquer consolo”. Na segunda frase citada, você põe “sentir” onde eu escreveria “sentí-lo”, o relevo. Fica mais claro, de maior facilidade de compreensão imediata. Consulte o Leo que sabe muito mais destas coisas que eu.
  2. 2 – “Ninguém milhor DO que ela pra colocar ventosas. E a vaidade de LHE ouvir elogiarem os predicados…” Eu evitaria o “do” que me parece inútil pro rítmo da frase. E na segunda frase mudava o “lhe” de posição. “E a vaidade de ouvir lhe elogiarem os predicados compensava-lhe as noites passadas em claro”.
  3. 5 – “Você compreende QUANTO essa exibição involuntária da doente querida a estranhos comporta de diminuição, de humilhação, é A PALAVRA, para o amante”. Eu poria “você compreende O quanto essa exibição etc. E não consigo entender o que é “a palavra”, do fim da frase.
  4. 12 – “As confidências tinham aproximado-nos mais”. Positivamente não. Ou “as confidências nos tinham aproximado mais” à portuguesa, ou “as confidências tinham nos aproximado mais” à brasileira.
  5. 16 – “Como eu sinto, longe de SI, esse seu drama”. É “longe de você” que se deverá dizer em boa linguagem.
  6. 17 – Numa das vezes em que você persegue ou imagina perseguir a amazona, você comenta: “O segundo de indecisão que me reteve foi bastante para não descobri-la de novo. Podia ter tomado um bonde, entrado nalgum ARMAZEM”. Você não acha que há uma tal ou qual impropriedade em fazer uma “amazona” a quem se persegue liricamente, entrar num armazém? Fica pau, assim. A não ser que se queira tirar justo um efeito de contraste (e não é o caso), há que ter sempre em conta a gradação de valor lírico das palavras. Porque entrar num armazém, e não numa loja, numa casa de modas, numa casa de chá? ou “entrando em qualquer parte”. Também na primeira frase do citado percebo agora uma leve impropriedade, preferiria “foi bastante pra que eu não a descobrisse de novo”.
  7. 17 – “Desde sempre se lamentam sobre o número dois aqueles que SABEM, meu Deus, dentre os teus filhos”. ´É exatamente assim esse verso de Werfel?
  8. 22 – “Quis beijá-la e ela virou o rosto de modo a entregar-me a fronte descoberta”. É a “fronte” ou a “nunca” que você quer dizer?
  9. 28 – A última frase do cap X acaba textualmente assim; “Mas era uma luta desigual essa em que todas as armas da outra só podia opor seu encanto sexual, sua fatalidade, seu “E fica nisso, arre, que até é pornografia, mas da grossa!” “Seu” o que?
  10. 74 – “…em tudo isso eu só vejo, só sinto, só penso em Ana Maria”. Há exemplos, ou milhor cochilos desses nos maiores clássicos, mas não será preferível escrever bem certinhamente: “Em tudo isso eu só vejo, só sinto Ana Maria, só penso nela”. Ou, com coragem mais brasileira: “em tudo isso eu só vejo, só sinto, só imagino Ana Maria”.

***

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Mais vele uma crítica de Mario de Andrade que mil elogios

Quem nunca se incomodou em alguma medida com crítica de um professor, amigo, revisor sobre o próprio manuscrito? Da minha parte, prefiro a crítica sincera, por mais dura que seja, que o aplauso vazio, descomprometido, que nada acrescenta para a melhoria do texto. Elogios cegam; críticas honestas ampliam o olhar do autor. O que um escritor precisa, sobretudo dos leitores de suas versões iniciais, são olhares ampliados que o ajudem a enxergar problemas no próprio trabalho antes que seja publicado. Acredito que mais vale uma crítica sincera que mil aplausos vazios.

Para exemplificar uma crítica bem feita, embora dura, áspera – pelo menos é essa a sensação que temos ao iniciar a leitura, mas que vai se modificando à medida que avançamos no texto – sugiro a leitura desta crítica de Mario de Andrade a um romance de Sergio Milliet (Duas cartas no meu destino, Guaira, 1941). A crítica  deu-se em carta enviada a Milliet em novembro de 1938 e faz parte do livro Mário de Andrade por ele mesmo, de Paulo Duarte (Edart, 1971, pp. 306-312)[1].

Dentro do possível, procurei preservar a forma de escrita original de Mario de Andrade, que estava em conformidade com as regras gramaticais da época. Mas nos casos em que o corretor do Word modificou automaticamente acentuação das palavras não alterei. Vou compartilhar a crítica de Mario de Andrade em dois posts: neste primeiro post transcrevo comentários gerais dele sobre a obra em questão, sua interpretação sobre o estilo de Milliet, enfim, uma aula do grande escritor sobre arte. No segundo post transcreverei comentários de Mario de Andrade sobre partes específicas do texto, que ele generosamente classificou como erros de datilografia. Segue a primeira parte da Carta-crítica de Mario de Andrade.:

Rio, 3-XI-38

Olha Sérgio, não sei se já falei, quando foi do seu outro romance que você me deu para opinar, antes da publicação, não sei se já lhe falei com toda a asperidade de amigo, o que penso da literatura de você. E sempre me fica um remorso de não ser inteiramente amigo, como gosto. Aqui vai minha opinião com o máximo de brutalidade, que o comentário em seguida, igualmente sincero, adornará de maior perfeição.

Você é exatamente o tipo do que, em esporte, a gente chama de reserva do primeiro time. Um tempo andei pensando que você era elemento do segundo time, ótimo, mas no segundo time, porém, depois pensei milhor, com mais frieza de exatidão, mesmo porque sentia vagamente que pensar você segundo time era injustiça. E era mesmo, sem que nessa minha mudança, ou milhor, concerto de opinião, entre a mínima parcela do afeto de amizade que é muito grande, nem a enorme admiração que tenho pelos seus dotes de trabalho, de poder de organizar e dirigir as coisas. Não, você positivamente não é segundo time, você está no primeiro. Mas como reserva.

Quero dizer: há em você uma estranha incapacidade pra criar a coisa marcante, a coisa que, mesmo quando não abre caminho, faz prosélitos. Isto não quer dizer que você seja, um originalíssimo, um inaferrável, enfim uma espécie de “fauve” solitário. Não, você não é nada disso e está bem dentro da nossa corrente geral de literatura. Mas há uma incapacidade qualquer em você pra, ou pelo tratamento do material, ou pela invenção dos assuntos, ser o que, como material, é por exemplo um Machado de Assis, ou, como temática, é um Raul Popéia ou Lins do Rego. A palavra mesmo bem fiel que exprime o que eu penso é “marcação”: você não marca, você não faz obras marcantes. Está claro que “marcar” de forma alguma implica sempre maior perfeição. Pelo contrário, no geral os Shakespeare, os Da Vinci, os Beethoven de todas as artes, são muito mais imperfeitos que… as reservas. É muito raro, e quase sempre francês…, a gente encontrar obra que seja marcante e ao mesmo tempo exemplo de perfeição, como La Fontaine, Racine, Cézanne, (e assim mesmo…) Bach.

O que é uma reserva de primeiro time? Não é um Leonidas, um Friedenreich marcantíssimos, mas irregulares, e que lá vem sempre um dia em que jogam mal, e não jogam nunca sem fazer alguma besteira. O reserva é o jogador excelente e que em qualquer circunstância, com chuva ou sol nos olhos, campo pesado ou juiz gatuno, joga sempre muito bem; não há como ele pra substituir na certa os potros demasiados sensíveis. E porisso irregulares.

Aquele dia que disse ir começar a leitura do seu livro, circunstâncias, que não vêm ao caso, me impediram de fazer o prometido. Foi apenas um início de leitura que não mais retornei por excesso de preocupações nestes dias em que estou estudando essa desnorteante Renascença pros meus alunos. Mas hoje, sábado, principiei de-manhã a leitura, repeguei o livro depois de uma pequena ida ao meu Instituto e não pude parar mais, são quinze e meia e acabei de ler. O livro é ótimo. Uma prova que me empolgou está nas notas que tomei. No princípio com muita atenção, pgs. 1, 2,5, 12, 16, 17, 22, depois já não achei nada e até a página 28, e então foi a corrida final, só na página 74 me lembrei de novo de analisar o escrito.

Gostei muito dos dois personagens femininos, apesar de menos analisados que o Fernando, estão muito palpáveis, muito explicáveis, muito humanos. Ah, não será por ventura do tom autobiográfico dos seus livros, da analise antiartísticamente muito sincera que você faz dum Roberto [publicado em 1935] ou dum Fernando, justamente a tal ou qual mornidão, a como que espécie de falta de realidade, ou pelo menos de vigor do real, destes seus personagens masculinos? Você decerto conhece a anedota francesa do escritor realista, não me lembro se  Maupassant, que copiou num romance, nem tirar nem por, um diálogo escutado, diálogo este que foi justamente censurado pela crítica por falta de realidade. Da mesma forma que o Roberto, o seu Fernando chega a ser virulentamente autobiográfico e nesse sentido o livro tem um sabor de intriga de que muita gente vai se aproveitar pra comentários discretamente sussurrados entre movimentos de comiseração de cabeça, é pau isso. Não me importo, Sergio, nem estou perguntando, se se trata ou não de autobiografia; mas há incontestável um sabor de autobiografia danado. Ora essa transcrição de si mesmo leva sempre a um tal ou qual cinzentismo, a uma desvigoração natural em arte, que, mesmo quando está fazendo análise, está fazendo uma síntese. Por exemplo: dois caracteres marcantes do Fernando deste livro são o egoísmo e a abulia. Se trata positivamente, no livro, de um indivíduo muito sem vontade, ou milhor, sem a coragem das próprias vontades. O dualismo do Roberto se acentua neste livro de agora, num caso muito mais grave: o da legalização sacral do casamento, a que até os comunistas de alguma forma voltaram. Fernando se desespera abulicamente entre o burguesinho e o lírico que traz em si. Mas a luta não chega a um esplendor de psicologia. Há abulia mas esta não vem sintetizada em frases essenciais. Há egoísmo, você chega a pronunciar esta palavra, mas a natural contemplatividade  com que todos nós nos observamos complacentemente em nossas vidas, não permite a você salientar com vigor o que há de odioso no egoísmo. Há cinismo, palavra que você mesmo pronuncia, mas você também aqui não salienta a indecência do cinismo de natureza psicológica. Mesmo porque, meu Deus! êle não é de-fato indecente na psicologia de cada um, é apenas, em cada um, a mesma fatalidade da unha que a gente corta mas torna a crescer e carece cortar outra vez. Agora: o livro reverte sempre a um universal, a obra-de-arte é sempre uma síntese nesse sentido. E é neste sentido, que a obra-de-arte mais imoral, mais porca, mais indecente, é sempre moral, é sempre limpa, é sempre decente. A contradição intrínseca que me parece peculiar aos seus romances, e enfraquece o vigor dos personagens principais deles, é essa. Na análise dos outros seres, porisso mesmo eles não são você, você os sintetiza com maior vigor de realidade universal, ao passo que nos seus personagens masculinos principais, você nunca os universaliza suficientemente pra que fiquem no primeiro plano necessário. Talvez haja um bocado de masoquismo na odiosidade que você deu a Fernando mas Fernando não chega a ser vigorosamente odioso pra que a gente tenha vontade de matar ele. Não se chega a tomar partido por esplendor, isto é, por sensação estética. Só tomará partido moralista que, depois de lido o livro, ou no entremeio das leituras, pra refletir sobre morais, e então verifica dogmaticamente: que canalhinha, puxa! devemos isolá-lo da SUCIEDADE! – Agora: suponhamos que você não queira dar ao seu personagem essa dominante de ruindade, mas apenas de abulia digna de comiseração. Era então a luta entre o anjo e o demônio, a incapacidade de domínio sobre um destes que você tinha de focalizar com mais luz no seu Fernando. Não terá você querido ser sincero com a vida , em vez de o ser com a arte, que é o que você está fazendo?…

Bem, mas êste tal ou qual cinzentismo do personagem principal não impede absolutamente que ele viva no livro, está claro. E viva bem. O livro está impregnante, e você soube muito bem dosar o interesse e equilíbrio das partes, apenas de leve acenando pra alguma coisa extraordinária que vai suceder e que a gente fica esperando sem impaciência. Quando vem a anedota, a positivamente anedota do fim, é uma delícia. Depois, a gente pensando, fica com um pouco de raiva da anedota, pelo lado moralista que ela tem sem querer. Parece mesmo um castigo pro Fernando, em que a gente não pode pensar sem sorrir satisfeito. Esse safado estava gozado duas mulheres interessantes, bem feito. Mas o fato é que a anedota chega no ponto e é absolutamente inesperada.

Assim: penso que absolutamente você não deve duvidar do valor do seu livro, ele é excelente por muitas razões; e o senão, não conceptivo, mas de realização que apontei não é em nada tão grosso que impeça o valor do livro. Que deve ser publicado. Tem maior unidade que o Roberto. Ia dizer que este é mais divertido em sua maior variedade de situações, mas nem isso posso dizer por mim, pois que este me empolgou.

[1] Exemplar autografado por Paulo Duarte a Nogueira Martinho, como podemos ver na imagem abaixo.IMG_5235 (1)

Lógica, ciência e comportamento verbal

BFSkinner

Skinner dedicou um capítulo do livro Verbal Behavior (Skinner, 1957) à análise do comportamento verbal lógico e científico (leia aqui alguns comentários sobre a definição skinneriana de comportamento verbal). Inicialmente, diferenciou comportamento literário de outros comportamentos que dizem respeito a ações práticas do ouvinte, entre os quais o comportamento verbal científico. Nota Skinner que, ao contrário do comportamento literário, cujo efeito, grosso modo, é entreter o ouvinte, o comportamento científico (e seus produtos) constitui parte do ambiente que ampliará o âmbito de ação do ouvinte. Para isso, é necessário que seja preservado o controle de estímulo sob o qual dado fenômeno, estado, objeto é descrito.

Para Skinner, a comunidade verbal científica estabelece contingências para: (1) fortalecer o controle de estímulo verbal e não verbal que orientará a identificação e caracterização de dado objeto ou fenômeno; (2) estabelece regras para a construção de novas respostas verbais. A questão pode ser formulada assim: como um pesquisador, conhecendo a produção científica de dada área, pode vir a contribuir com corpo de conhecimento produzido? Ou, nos termos de Skinner, como se constrói um novo comportamento verbal sobre um objeto ou fenômeno?

Como estratégias adotadas pela comunidade para modelar o controle de estímulo verbal e não verbal sobre o lógico e o cientista, Skinner cita a criação de sistemas classificatórios, restrições ao uso de comportamentos intraverbais (comportamento verbal sobre comportamento verbal), adoção de autoclíticos apropriados com os quais o falante representa a natureza do controle do próprio comportamento, seja com relação a estímulos antecedentes seja com relação a cadeias intraverbais. “O comportamento mantido por essa comunidade difere dos instrumentos usados para mantê-lo, assim como um discurso eficiente difere das regras para um discurso eficiente”, diz Skinner (pp. 418-419).

Na segunda parte do capítulo, Skinner analisa procedimentos empregados para a construção de novas respostas verbais. A comunidade lógica e científica, diz ele, “acumulou lentamente um conjunto de técnicas para a construção de comportamento verbal eficaz. O falante move-se de um conjunto de respostas para outro conjunto, possivelmente mais útil” (p. 422). O procedimento envolve a manipulação e confirmação de respostas verbais; pesquisa e metodologia científica; avaliação da resposta verbal. O cientista manipula a própria resposta verbal, segundo Skinner, pela substituição de termos (para outros mais precisos, mais apropriados, por exemplo) e com autoclíticos específicos (leia aqui sobre processos autoclíticos).

Depois de construída – e confirmada – nova resposta verbal, o produto do comportamento verbal do cientista é avaliado pela comunidade. Aqui, novamente, Skinner enfatiza a orientação para questões práticas: “Uma parte importante da prática científica é avaliar a probabilidade de que uma resposta verbal seja ‘certa’ ou ‘verdadeira’ – que se possa agir sobre ela de forma bem-sucedida” (p.428).

Skinner volta a salientar a noção de que o comportamento verbal científico deve ser dirigido para ações práticas ao introduzir a discussão sobre metodologia científica (inicialmente para problemas científicos específicos, e, finalmente para aplicação do conhecimento científico). Segundo o autor:

“O comportamento verbal lógico e científico difere do comportamento verbal do leigo (e particularmente do comportamento literário) pela ênfase nas consequências práticas… O teste de predição científica é, frequentemente, como a palavra indica, uma confirmação verbal. Mas o comportamento do lógico e do cientista leva, em fim, a uma ação não verbal eficaz, e é aqui que precisamos encontrar as últimas contingências de reforço que mantêm a comunidade verbal lógica e científica” [grifo acrescentado] (p.429).

Em síntese, para Skinner, a comunidade verbal estabelece contingências (ou deveria fazê-lo) para orientar o comportamento do cientista de forma que o produto final desse comportamento possa servir à ciência e a sociedade – e não ao cientista ou grupos particulares.  Parece supor que os métodos adotados pela comunidade verbal científica, e a modelagem do cientista na relação com o próprio objeto de estudo, são poderosos (ou deveriam se tornar) o suficiente para reduzir ou eliminar um aspecto característico do comportamento verbal: a causação múltipla, tema com o qual Skinner inicia a segunda parte do livro sintetizando assim:

“Do nosso estudo sobre as relações funcionais do comportamento verbal emergem dois fatos: 1) a força de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável e 2) uma única variável costuma afetar mais de uma resposta”, (p. 227).

Aparentemente, a ênfase skinneriana sobre as consequências práticas do comportamento científico para o ouvinte – e finalmente para ações não verbais – essas últimas consequências muito distantes do cientista no momento em que manipula o ambiente ao redor para produzir ‘novo comportamento verbal – parece desconsiderar uma das características definidoras do comportamento verbal: a mediação do reforço, ou as consequências mantenedoras do comportamento, que dependem de outro ouvinte. Mas ao se aproximar do fim da referida análise, Skinner destaca que a comunidade científica tem de levar em conta a natureza do comportamento verbal. Conclui defendendo que processos verbais lógicos e científicos “merecem e exigem uma análise mais precisa do que a que tem recebido até então” (p. 431). E esta, diz Skinner, pode ser uma das principais contribuições da ciência do comportamento verbal: o desenvolvimento de “uma lógica empírica, ou uma epistemologia científica descritiva e analítica, cujos termos e práticas serão adaptados ao comportamento humano como próprio objeto” (p. 431).

Assim, podemos tomar a análise de Skinner sobre o comportamento verbal lógico e científico apresentada em Verbal Behavior mais como prescrição do que como descrição de uma prática bem-sucedida. Leia aqui o livro Verbal Bahavior.

Referência: Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior.New York: Appleton-Century-Crofts.

 

Solidão como problema de saúde pública

Indico aqui esta matéria, Loneliness Epidemic Growing into Biggest Threat to Public Health, de Janice Wood, descrevendo pesquisas indicando que solidão e isolamento social podem se tornar um problema de saúde pública maior que obesidade. Nos EUA, afeta mais de 42 milhões de pessoas acima de 45 anos. Para enfrentar o problema, a professora de Psicologia Julianne Holt-Lunstad (Brigham Young University), especialista no tema, ouvida para a matéria, sugere ampliar esforços para pesquisa e também para intervenções, tais como:

  • Oferecer treinamento de habilidades sociais para crianças nas escolas.
  • Incluir conexões sociais em prescrições médicas de pessoas que sofrem do problema.
  • Preparar estratégias para lidar com a redução de contatos sociais, típica após a aposentadoria.
  • Dispor espaços comunitários compartilhados para estimular interação e recreação.

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As paixões de Bertrand Russell

Bertie

A autobiografia do matemático e filósofo Bertrand Russell (1872-1970), publicada originalmente em 1967, compõe-se de três volumes. No Prólogo do primeiro volume, Russell descreve três grandes norteadores da própria vida: amor, conhecimento e compaixão. É espantoso que tenham se passado 50 anos desde a publicação da autobiografia de Bertie e os males que causavam compaixão ao filósofo continuam a assombrar a humanidade.

Diz Russell:

TRÊS PAIXÕES, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram minha vida: o anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa compaixão pelo sofrimento da humanidade.  Essas paixões, como grandes vendavais, empurram-me para aqui e acolá, em curso instável, sobre um oceano profundo de angústia, chegando às raias do desespero.

Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase – êxtase tão grande que, não raro, eu teria sacrificado todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Procurei-o, ainda, porque o amor nos liberta da solidão – essa solidão terrível pela qual nossa trêmula consciência observa, além dos limites do mundo, esse abismo frio e desalentador. Busquei-o, finalmente, porque vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que os santos e os poetas imaginavam do céu. Eis o que busquei e, embora isso possa parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que – afinal – encontrei.

Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração dos homens. Gostaria de saber por que cintilam as estrelas. E procurei apreender a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos acontecimentos. Um pouco disso, mas não muito, eu o consegui.  Amor e conhecimento, até ao ponto em que são possíveis, conduzem para o alto, rumo ao céu. Mas a compaixão [Russell usou o termo pity, que preferi traduzir para compaixão, que acho mais preciso para um defensor da liberdade e militante da igualdade social, como ele foi] como sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de dor ecoavam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desvalidos transformados em fardo para seus filhos, e todo o mundo de solidão, pobreza e sofrimento, convertem em escárnio o que deveria ser vida humana. Anseio por aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.

Essa tem sido a minha vida. Achei que valeu a pena viver e, de bom grado, tornaria a vivê-la, se tivesse a oportunidade de fazê-lo.

Russell, B. (1967). The autobiography of Bertrand Russell – 1872-1914 – London: George Allen and Unwin (p. 13).

Avanços da IA: ameaças e oportunidades

Reboot for the AI revolution: Ótimo artigo de Yuval Noah Harari  – autor de “SAPIENS:Uma breve história da humanidade” – sobre oportunidades e desafios do desenvolvimento das inteligências artificiais.

Em geral, as pessoas se dividem, nesse tema, entre as que encaram essas novas tecnologias com entusiasmo, acreditando que proporcionarão avanços sociais significativos; as céticas, que acreditam que os robôs vão aprofundar as desigualdades sociais; e as catastróficas, que acreditam que os super-robôs vão colocar em risco a a sobrevivência da humanidade.

Quem leu “Uma breve história” sabe que Harari mostra-se bastante cético sobre o futuro da humanidade. No entanto, parece menos cético sobre os avanços da IA. Veja como ele termina o referido artigo:

“Os desafios colocados no século XXI pela fusão de infotecnologia e biotecnologia são, provavelmente, maiores do que os lançados por máquinas a vapor, ferrovias, eletricidade e combustíveis fósseis. Dado o imenso poder destrutivo de nossa civilização moderna, não podemos suportar mais modelos fracassados, guerras mundiais e revoluções sangrentas. Temos de fazer melhor desta vez”.

Mídia, comportamento e cultura

Apresento a seguir o resumo do artigo Mídia, comportamento e cultura  (publicado pela revista Perspectivas em Análise do Comportamento) escrito por mim com as professoras Maria Eliza Mazzilli Pereira e Maria Amalia Andery (ambas da PUC-SP). O texto completo pode ser lido no link no fim do resumo. Críticas e sugestões de melhorias serão muito bem-vindas.

De forma geral, encontram-se os seguintes problemas na literatura que trata da relação entre mídia e público: a) a mídia tradicional (jornal, rádio, televisão) é descrita como antidemocrática, desconsiderando-se serviços relevantes prestados por ela e o controle do público-alvo sobre a mídia; b) a mídia social (blogs, Facebook, Twitter) é tratada como salvaguarda da democracia, sem se considerar formas de censura realizadas por meio de algoritmos específicos, que determinam que conteúdo é exibido ou ocultado do público. Neste artigo, propõe-se uma análise comportamental da mídia, baseando-se em princípios da seleção comportamental/cultural pelas consequências. Argumenta-se ser preciso descrever inter-relações entre agências de controle e em outras contingências de reforçamento que afetam o comportamento individual e em grupo nas interações com a mídia e pela mídia. Implica considerar práticas culturais dominantes, levando em conta que certas práticas podem ser incompatíveis entre grupos constitutivos de uma cultura. À parte a noção de democracia não ser necessariamente consensual, é possível que se encontrem dimensões de práticas democráticas e antidemocráticas nas mídias tradicional e social. Considera-se que a análise do comportamento deveria compreender melhor possibilidades e limites das novas tecnologias de comunicação, sobretudo das mídias sociais, em possíveis intervenções culturais.

Leia o artigo completo aqui