Precariedade dos contratos provisórios na educação superior

Do Higher education network, Academics Anonymous, Guardian

“Eu imploro por trabalho de semestre a semestre. Tenho de prestar atenção constantemente nas minhas palavras, ações e linguagem corporal para evitar um fim de carreira. Não estou autorizado a ficar com raiva, questionar decisões ou contra-argumentar. Tenho de continuar a dizer sim. É como é”. Leia texto completo no original, em inglês, aqui.

 

 

Um conselho do mestre de Hobsbawm

O trecho a seguir foi retirado do livro Sobre história, de Eric Hobsbawm (Companhia das Letras, 1998). Ele conta que, em uma palestra para estudantes  de história, futuros professores, deu o seguinte conselho, que por sua vez tinha tinha recebido de um mentor:

As pessoas em função das quais você está lá, não são estudantes brilhantes como você. São estudantes comuns com opiniões maçantes, que obtêm graus medíocres na faixa inferior das notas baixas e cujas respostas nos exames são iguais. Os que obtêm melhores notas cuidarão de si mesmos, ainda que seja para eles que você gostaria de lecionar, os outros são os únicos que precisarão de você (…) Toda sociedade na qual valha a pena viver é uma sociedade que se destina a elas, e não aos ricos, inteligentes e excepcionais, embora toda sociedade em que valha a pena viver deva garantir espaço e propósitos para tais minorias. Mas o mundo não é feito para o nosso benefício pessoal, e tampouco estamos no mundo para nosso benefício pessoal. Um mundo que afirme ser esse seu propósito não é bom e não deve ser duradouro.

Para refletir sobre o conselho do mestre de Hobsbawm, sugiro o filme Escritores da Liberdade. Veja um trecho aqui. 

Funções da escola que a escola não deveria ter

Comentário de uma amiga, no MSN, sobre o término de um trabalho de pós-graduação:

“Acabei. Agora retomo a vida!”.

Não é estranho que a escola e atividades relativas à vida acadêmica se tornem desagrdáveis a esse ponto? Skinner (1968)  discute esse fenômeno.

Por que a escola – e as atividades a ela relacionadas – se tornou um lugar (ou objeto) que nos leva a trabalhar para dela/dele nos afastar? Skinner responde a questões como essa em  The technology of teaching. New York: Appleton-Century-Crofts.

O livro foi traduzido para português pela Herder, em 1972, e reimpresso pela E.P.U, em 1975,  como Tecnologia do Ensino.

O autor apresenta nessa obra uma proposta para que a escola, de fato, seja um lugar de gente feliz (como muitas escolas ousam prometer, mas poucas consegem cumprir, se é que conseguem).

Para conhecer a bibliografia de B. F. Skinner clique aqui.

Questão de perspectiva

Rachel de Queiroz começa assim seu conto “Pescaria”.

Pescar, acima de tudo, é  um esporte. Claro. Não tanto para o peixe – para o peixe há de ser guerra, e de emboscada, que é a pior de todas. Mas nós, seres humanos, somos gente de pouca perspectiva: quando fazemos as coisas, muito dificilmente nos colocamos dentro do ponto de vista do outro, ou seja, da parte adversa.  E para nós é esporte.

O trecho me lembrou um episódio relatado por meu filho, ocorrido em sua escola nesta semana. Ele chegou em casa contando que a professora colocou sua carteira no centro da classe porque ele estava “falando muito”. Prestes a fazer seis anos, ele está no primeiro ano do ensino fundamental. As carteiras em sua classe são organizadas em forma de “U”.  Pode-se imaginar a cena dele sentado no meio dos colegas. Coitado!

Estimulada pelo conto de Rachel, vou tentar olhar para o caso na perspectiva da professora. Certamente não deve ser fácil ensinar uma classe com 23 alunos nessa idade, usando métodos tradicionais de ensino, sem controle aversivo. E  mais: sendo este um mundo coercitivo como é, como diz Murray Sidman, a professora deve ter longo repertório de controlar o comportamento de seus alunos de forma semelhante a essa. Esse deve ser um comportamento tão forte que ela nem tenta outras formas de lidar com comprotamentos “inadequados” das crianças, comportamentos que sejam incompatíveis com as tarefas-alvos. Se a coerção parece funcionar tão bem, por que tentar outras formas?

Da parte adversa, como diria Rachel, em situação normal, uma criança de seis anos foi muito reforçada por falar. Imagine quanto esforço a comunidade verbal investiu para instalar nessa criança os comportamentos necessários para ela interagir verbalmente com outros. É natural, pois, que a criança queira compartilhar seu mundo com o colega sentado ao lado.  Mas seja lá de que perspectiva falemos, não é dureza a vida? Viver definitivamente não é esporte.  Se for é esporte radical.

Fábula de Skinner sobre aprendizagem e ensino

Uma Fábula

B.F.Skinner[1]

Recentemente foi descoberto que Daniel Defoe não contou toda a história sobre Robinson Crusoé, provavelmente porque pensou que não acreditariam nele. O fato é que, através da operação de um tipo de máquina do tempo wellsiana, Crusoé acordou certa manhã e encontrou um jipe moderno em sua ilha. Estava em muito bom estado e tinha um inesgotável tanque de gasolina. Naturalmente ele investigou muito cuidadosamente, puxando e empurrando alavancas, girando e pressionando botões. Quando ele ligou a ignição, o motor começou a funcionar e ele apressadamente desligou. Ele ligou e desligou várias vezes. Uma vez, quando ele ligou, o jipe estava engrenado e pulou para a frente. Assustado, ele rapidamente desligou. Em outro dia o jipe não pulou. Finalmente o jipe modelou e manteve tudo que Crusoé precisava fazer (não “saber”! [not “to know!”]) para dirigi-lo habilidosamente por todas as partes desmatadas da ilha. Ele “sabia como dirigir um jipe” (knew how to drive), simplesmente no sentido de que ele fazia as coisas certas no momento certo.

Quando Sexta-Feira chegou à ilha, Crusoé o ensinou a dirigir. Uma vez que Sexta-Feira não falava inglês, Crusoé podia apenas apontar as partes do jipe e mostrar o comportamento para Sexta-Feira imitá-lo. Ele ligou e desligou a ignição e Sexta-Feira fez o mesmo e ouviu o motor começar e parar. Ele ligou, apertou o pedal da embreagem e pôs o jipe em marcha; Sexta-Feira eventualmente fez o mesmo e sentiu o jipe mover-se. Finalmente, Sexta-Feira também dirigiu habilidosamente. Crusoé não “comunicou informação” ou “partilhou conhecimento”; ele simplesmente mostrou comportamentos que, quando imitados por Sexta-Feira, foram reforçados pela ação do jipe. Sexta-Feira então também “sabia como dirigir” (knew how to drive), mas, novamente, simplesmente no sentido de fazer todas as coisas certas.

Quando o navio de salvamento chegou, aconteceu de Crusoé estar do outro lado da ilha e não o ver, mas o capitão encontrou Sexta-Feira, viu o jipe e ficou curioso a seu respeito. Sexta-Feira começou a mostrar-lhe como dirigir. Como não falava inglês, ele podia ensinar o capitão somente como Crusoé o havia ensinado, apontando e mostrando. Crusoé logo chegou e assumiu a tarefa. Ele apontou as partes do jipe, como fizera com Sexta-Feira, mas ele também podia chamá-las pelos nomes mais próximos em inglês e usar palavras como girar, ligar, empurrar e puxar. Ele podia dizer ao capitão o que acontecia quando coisas eram feitas. ”Quando você aperta este botão na base da direção[2], algo na carroça faz um barulho, mas não o gire a menos que o bastão com a bola em cima esteja reto.” Em outras palavras, ele podia descrever as contingências de reforçamento mantidas pelo jipe e, respondendo a estas descrições e instruções, o capitão ficou sob controle do jipe mais rapidamente do que Sexta-Feira ficara. Enquanto para Sexta-Feira Crusoé mostrou como dirigir, para o capitão ele podia dizer. Finalmente, o capitão dirigiu não por responder às instruções, mas porque o jipe modelou e manteve seu comportamento. O capitão então “sabia como dirigir” (knew how to drive), mas, novamente, simplesmente no sentido de fazer as coisas certas no momento certo. Nada passou de Crusoé para o capitão na forma de conhecimento ou informação.

Crusoé também falava para si mesmo quando estava primeiro explorando o jipe. Ele podia dizer, como disse para o capitão, “quando você aperta esse botão na base da direção, algo na carroça faz barulho.” Ele não estava dizendo a si mesmo para fazer algo que já não tivesse feito (não “conhecido!”); ele estava estimulando seu próprio comportamento, mais do que gerando seu comportamento. Suas respostas às suas próprias descrições das contingências se fundiram com respostas modeladas pelas contingências e a combinação mais rapidamente atingiu uma força útil. Crusoé também podia falar sobre o jipe quando estava longe dele. Deitado na cama à noite ele podia dizer “a carroça moveu somente quando alguma coisa na parte da frente estava fazendo barulho” e também “só fez barulho quando eu girei o botão”. Estas duas respostas juntas devem tê-lo auxiliado a movimentar o jipe mais suavemente na próxima vez que o fez. Deitado na cama, Crusoé podia também ver o jipe, como ele o via quando estava nele, embora de forma muito menos clara. O que ele estava fazendo não é tão fácil de dizer, em parte porque os analistas do comportamento não têm prestado muita atenção ao ver na ausência da coisa. Em algumas discussões exaustivas em epistemologia Père Juliá e eu achamos útil tratar o sentir ou o perceber simplesmente como uma parte inicial do responder, “como o responder até o início da ação”. Ver um objeto quando ele não está presente é fazer novamente o que foi feito quando ele estava presente. Isto pode ser feito quando nenhuma ação se segue e sem fazer ou usar cópias do que é visto. Crusoé podia também sentir ele próprio girando botões e ouvindo barulhos até o início da ação. Comportamento verbal encoberto tem a vantagem sobre comportamento não verbal encoberto de poder ser executado mais completamente. Falar para si mesmo é um tipo de ação. Se Crusoé tivesse escrito uma descrição de contingências teria sido ainda mais útil. Escrever auxilia comportamento verbal, assim como fazer um esboço auxilia visualizar.

Crusoé podia também ter dado a si próprio o tipo de ajuda que deu para Sexta-Feira. Há contingências que fortalecem um tipo de auto-imitação. Se quando movemos alguma coisa em nossa escrivaninha, alguma coisa a alguma distância se movimenta, é provável repetirmos o movimento e esperarmos pelo efeito, como se nos perguntássemos, “eu fiz isto?” Se nada acontecer, vemos que a conseqüência foi acidental. Se a mesma coisa acontecer, confirmamos nosso movimento do objeto distante como um operante no sentido literal de tornar firme ou fortalecer. Comportamentos similares são algumas vezes vistos em outros primatas. Um movimento é feito, uma conseqüência não usual se segue e o movimento é imediatamente repetido. As contingências de sobrevivência responsáveis pela evolução de tal auto-imitação, entretanto, são muito diferentes das contingências operantes. A superioridade das descrições autocompostas de contingências sobre a auto-imitação é presumivelmente uma das razões pelas quais as línguas evoluíram e pelas quais são transmitidas de geração a geração como ambientes sociais ou culturas.

 

 


[1] Artigo publicado em The Analysis of Verbal Behavior, 6, 1-2. Tradução de Maria Luisa Guedes, para uso pessoal.

[2] NT: O termo em inglês é wheel, que significa ‘roda’ e que também é usado para ‘direção’.

Carta de repúdio à revista Veja

Do Blog do Luiz Carlos Azenha:

VIÚVA DE PAULO FREIRE ESCREVE CARTA DE REPÚDIO À REVISTA VEJA

Atualizado em 12 de setembro de 2008 às 10:46 | Publicado em 12 de setembro de 2008 às 10:38

por CONCEIÇÃO LEMES

Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem O que estão ensinando a ele? De autoria de Monica Weinberg e Camila Pereira, ela foi baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil. Lá pelas tantas há o seguinte trecho:

“Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado”.

Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha, em 1990, cujo título é Ceausescu no Ibirapuera. Sem citar o Paulo Freire, ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina.

Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de repúdio:

“Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE — e um dos maiores de toda a história da humanidade –, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico.  Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do “filósofo” e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de distribuição da renda se baseou – que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu “Norte” e “Bíblia”, esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire”.