Lógica, ciência e comportamento verbal

BFSkinner

Skinner dedicou um capítulo do livro Verbal Behavior (Skinner, 1957) à análise do comportamento verbal lógico e científico (leia aqui alguns comentários sobre a definição skinneriana de comportamento verbal). Inicialmente, diferenciou comportamento literário de outros comportamentos que dizem respeito a ações práticas do ouvinte, entre os quais o comportamento verbal científico. Nota Skinner que, ao contrário do comportamento literário, cujo efeito, grosso modo, é entreter o ouvinte, o comportamento científico (e seus produtos) constitui parte do ambiente que ampliará o âmbito de ação do ouvinte. Para isso, é necessário que seja preservado o controle de estímulo sob o qual dado fenômeno, estado, objeto é descrito.

Para Skinner, a comunidade verbal científica estabelece contingências para: (1) fortalecer o controle de estímulo verbal e não verbal que orientará a identificação e caracterização de dado objeto ou fenômeno; (2) estabelece regras para a construção de novas respostas verbais. A questão pode ser formulada assim: como um pesquisador, conhecendo a produção científica de dada área, pode vir a contribuir com corpo de conhecimento produzido? Ou, nos termos de Skinner, como se constrói um novo comportamento verbal sobre um objeto ou fenômeno?

Como estratégias adotadas pela comunidade para modelar o controle de estímulo verbal e não verbal sobre o lógico e o cientista, Skinner cita a criação de sistemas classificatórios, restrições ao uso de comportamentos intraverbais (comportamento verbal sobre comportamento verbal), adoção de autoclíticos apropriados com os quais o falante representa a natureza do controle do próprio comportamento, seja com relação a estímulos antecedentes seja com relação a cadeias intraverbais. “O comportamento mantido por essa comunidade difere dos instrumentos usados para mantê-lo, assim como um discurso eficiente difere das regras para um discurso eficiente”, diz Skinner (pp. 418-419).

Na segunda parte do capítulo, Skinner analisa procedimentos empregados para a construção de novas respostas verbais. A comunidade lógica e científica, diz ele, “acumulou lentamente um conjunto de técnicas para a construção de comportamento verbal eficaz. O falante move-se de um conjunto de respostas para outro conjunto, possivelmente mais útil” (p. 422). O procedimento envolve a manipulação e confirmação de respostas verbais; pesquisa e metodologia científica; avaliação da resposta verbal. O cientista manipula a própria resposta verbal, segundo Skinner, pela substituição de termos (para outros mais precisos, mais apropriados, por exemplo) e com autoclíticos específicos (leia aqui sobre processos autoclíticos).

Depois de construída – e confirmada – nova resposta verbal, o produto do comportamento verbal do cientista é avaliado pela comunidade. Aqui, novamente, Skinner enfatiza a orientação para questões práticas: “Uma parte importante da prática científica é avaliar a probabilidade de que uma resposta verbal seja ‘certa’ ou ‘verdadeira’ – que se possa agir sobre ela de forma bem-sucedida” (p.428).

Skinner volta a salientar a noção de que o comportamento verbal científico deve ser dirigido para ações práticas ao introduzir a discussão sobre metodologia científica (inicialmente para problemas científicos específicos, e, finalmente para aplicação do conhecimento científico). Segundo o autor:

“O comportamento verbal lógico e científico difere do comportamento verbal do leigo (e particularmente do comportamento literário) pela ênfase nas consequências práticas… O teste de predição científica é, frequentemente, como a palavra indica, uma confirmação verbal. Mas o comportamento do lógico e do cientista leva, em fim, a uma ação não verbal eficaz, e é aqui que precisamos encontrar as últimas contingências de reforço que mantêm a comunidade verbal lógica e científica” [grifo acrescentado] (p.429).

Em síntese, para Skinner, a comunidade verbal estabelece contingências (ou deveria fazê-lo) para orientar o comportamento do cientista de forma que o produto final desse comportamento possa servir à ciência e a sociedade – e não ao cientista ou grupos particulares.  Parece supor que os métodos adotados pela comunidade verbal científica, e a modelagem do cientista na relação com o próprio objeto de estudo, são poderosos (ou deveriam se tornar) o suficiente para reduzir ou eliminar um aspecto característico do comportamento verbal: a causação múltipla, tema com o qual Skinner inicia a segunda parte do livro sintetizando assim:

“Do nosso estudo sobre as relações funcionais do comportamento verbal emergem dois fatos: 1) a força de uma única resposta pode ser, e usualmente é, função de mais de uma variável e 2) uma única variável costuma afetar mais de uma resposta”, (p. 227).

Aparentemente, a ênfase skinneriana sobre as consequências práticas do comportamento científico para o ouvinte – e finalmente para ações não verbais – essas últimas consequências muito distantes do cientista no momento em que manipula o ambiente ao redor para produzir ‘novo comportamento verbal – parece desconsiderar uma das características definidoras do comportamento verbal: a mediação do reforço, ou as consequências mantenedoras do comportamento, que dependem de outro ouvinte. Mas ao se aproximar do fim da referida análise, Skinner destaca que a comunidade científica tem de levar em conta a natureza do comportamento verbal. Conclui defendendo que processos verbais lógicos e científicos “merecem e exigem uma análise mais precisa do que a que tem recebido até então” (p. 431). E esta, diz Skinner, pode ser uma das principais contribuições da ciência do comportamento verbal: o desenvolvimento de “uma lógica empírica, ou uma epistemologia científica descritiva e analítica, cujos termos e práticas serão adaptados ao comportamento humano como próprio objeto” (p. 431).

Assim, podemos tomar a análise de Skinner sobre o comportamento verbal lógico e científico apresentada em Verbal Behavior mais como prescrição do que como descrição de uma prática bem-sucedida. Leia aqui o livro Verbal Bahavior.

Referência: Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior.New York: Appleton-Century-Crofts.

 

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Analistas do comportamento nos primórdios da FAPESP

Fundadores da Análise do comportamento do Brasil como Carolina Bori, Fred Keller e Isaías Pessotti são alguns dos pesquisadores referidos no livro Circa 1962: A Ciência Paulista nos Primórdios da FAPESP, da jornalista Mônica Teixeira. A jornalista conta histórias da ciência paulista no início da criação da FAPESP. Além desses pesquisadores, o livro traz entrevista com analistas do comportamento como a professora Deisy das Graças Souza (UFSCar), o professor João Claudio Todorov (UnB) e a professora Maria do Carmo Guedes (PUC-SP). A versão digital do livro pode ser baixada aqui.

Leia mais sobre o livro recém-lançado aqui. Clique aqui para ver a reprodução das imagens de Carolina, Keller e Pessotti publicadas no livro.

Aperfeiçoando repertórios de comunicação de ciência

Ann E. Stuart (University of North Carolina) descreve no artigo Engaging the Audience:Developing Presentation Skills in Science Students (Envolvendo a audiência: desenvolvendo habilidade de apresentação em estudante de ciência) estratégias adotadas por ela para aprimorar habilidades de estudantes de graduação em tarefas de comunicação de ciência. A professora toma por base apresentações em Power point, a crítica entre pares, para aprimorar repertórios necessários para envolver a audiência em atividades de comunicação de ciência. O artigo está publicado no Journal of Undergraduate Neuroscience Education (JUNE), Fall 2013, 12(1):A4-A10.
Transcrevo aqui o resumo, em inglês.
Engaging the Audience: Developing Presentation Skills in Science Students
Ann E. Stuart
Department of Cell Biology and Physiology, University of North Carolina, Chapel Hill, NC 27599-7545
This article describes a graduate class in presentation skills (“PClass”) as a model for how a class with similar objectives, expectations and culture might be mounted for undergraduates. The required class is given for students in neuroscience and physiology programs at the University of North Carolina at Chapel Hill; I describe the class in the years I led it, from 2003-2012. The class structure centered on peer rehearsal, critiquing of PowerPoint, and chalk talks by the students; video-recording of student talks for later review by the student with the instructor; and presentation of polished talks in a formal setting. A different faculty visitor to the class each week gave the students a variety of perspectives. The students also gained insight into their own evolving skills by discussing the strengths and weaknesses of seminars given by visitors to the campus. A unique feature of the class was collaboration with a professional actor from the University’s Department of Dramatic Arts, who helped the students develop techniques for keeping the attention of an audience, for speaking with confidence, and for controlling nervousness. The undergraduate campus would be expected to lend itself to this sort of interdisciplinary faculty cooperation. In addition, students worked on becoming adept at designing and presenting posters, introducing speakers graciously and taking charge of the speaker’s question session, and speaking to a lay audience.
Key words: presentation; PowerPoint; chalk talks; audience engagement; rehearsing; poster presentation.
Clique aqui para ler o texto completo.

Sobre a comunicação de resultado “nulo”

Revista Science destaca em sua última edição dificuldade de cientistas em divulgar pesquisas cujos dados contrariam as próprias hipóteses. Defende que sistematização de pesquisas ditas de resultados “nulos” poderia contribuir para o avanço da ciência.

Da Science 29 August 2014

Why null results rarely see the light of day

Jeffrey Mervis

A team at Stanford University reports online this week in Science that scientists are unlikely to even write up an experiment that produces so-called null results. A study of 221 survey-based experiments funded by the TESS (Time-sharing Experiments for the Social Sciences) program at the National Science Foundation has found that almost two-thirds of the experiments yielding null findings are stuck in a file drawer rather than being submitted to a journal, and only 21% are published. In contrast, 96% of the experiments that yield strong results are written up, and 62% of them are published. Such practices by researchers can skew the literature and lead to wasteful duplication, the authors argue. To combat the problem, the authors call for a social science registry that would contain all such data, as well as descriptions of the methodology used to analyze the results.

Science 29 August 2014:

Vol. 345 no. 6200 p. 992

DOI: 10.1126/science.345.6200.992

Fé, fato e comportamentalismo

A propósito das discussões envolvendo recentes declarações de Richard Dawkins, que  sugeriu aborto no caso de gravidez de uma criança com síndrome de Down, compartilho este artigo Faith, Fact and Behaviorism, de J.E. R. Staddon. O autor resgata um argumento antigo de David Hume, que sugere que o termo deveria/seria não pode ser derivado de é/estar. Achei difícil fazer a tradução dessa expressão para o português. Transcrevo, portanto, a seguir o resumo do artigo no original.

David Hume argued that ought cannot be derived from is. That is, no set of facts, no amount of scientific knowledge, is by itself sufficient to urge us to action. Yet generation of well-meaning scientist (more and more as secular influences grow in the West) seem to have forgotten Hume’s word of wisdom. All motivated action depends ultimately on belief that cannot be proved by the methods of science, that is, on faith. Aqui, link para o artigo. Faith_fact_and_behaviorism.

Nesse artigo, Staddon critica a forma como Dawkins se opõe a qualquer forma de religião (que se tornou uma questão de fé ao contrário) e o descreve  como “o mais conhecido imperador” da ciência e outros estudiosos cuja afirmações não escapariam de um escrutínio lógico.

Nessa mesma linha, quem estiver interessado em outra boa discussão sobre atitude e crença como comportamento verbal, sugiro a leitura deste artigo de Bernard Guerin, cujo resumo transcrevo aqui.

Attitudes and beliefs are analyzed as verbal behavior. It is argued that shaping by a verbal community is an essential part of the formation and maintenance of both attitudes and beliefs, and it is suggested that verbal communities mediate the important shift in control from events in the environment (attitudes and beliefs as tacts) to control by other words (attitudes and beliefs as intraverbals). It appears that both attitudes and beliefs are constantly being socially negotiated through autoclitic functions. That is, verbal communities reinforce (a) reporting general rather than specific attitudes and beliefs, (b) presentation of intraverbals as if they were tacts, and (c) presentation of beliefs as if they were attitudes. Consistency among and between attitudes, beliefs, and behavior is also contingent upon the reinforcing practices of verbal communities. Thus, attitudes and beliefs can be studied as social behavior rather than as private, cognitive processes.

Uma ciência para mudar práticas sociais indesejáveis

Biglan

 

No livro Changing Cultural Practices, Anthony Biglan propõe um esboço para o desenvolvimento de uma ciência aplicada a mudança de práticas culturais. No trecho que compartilho, a seguir, o autor afirma que se começa a entender a importância da ciência no enfrentamento de problemas comportamentais individuais. Nota, porém, que a contribuição da ciência para enfrentar problemas sociais em larga escala normalmente é subestimada até por cientistas comportamentais.

No original, em inglês:

The value of science in addressing cultural practices needs to be underscored. The ability of science to affect problems in physical world is now well understood by every school child. Its efficacy in dealing with her problematic behavior of individuals is beginning to understand. However, the possibility that science can contribute to change large social system is seldom considered, even by behavioral scientists. It is not uncommon for behavioral scientist to discuss the translation of what they know into public policy or its widespread dissemination as matters of “politics”, as though they are matters beyond the ken of science.

Aqui, uma resenha do referido livro, por Mark A. Mattaini, da Columbia University.

Vale muito a pena a leitura.

 

 

Sobre a tendência a superestimar a nós mesmos

Há uma série de experimentos na Psicologia social que indica que tendemos a superestimar nossas qualidades e até nosso potencial para lidar com certas situações, como, por exemplo, o tempo de recuperação de uma cirurgia. E mais: não basta saber que superestimamos a nós mesmos para lidar efetivamente com a questão. Não basta saber que o fazemos para adotar avaliação mais realistas sobre nosso, potencial, nossas habildiades e limites.

Adam Elga apresenta boa síntese neste artigo (On Overrating oneself… and kwowing it) sobre o referido fenômeno.

Boa leitura!